domingo, 16 de março de 2014

Das categorias de base ao time principal, pastores goleiam os padres.

Passando hoje (mas podia ser há um bom tempo atrás) pela esquina do bidê da prefeita, na entrada lateral da Santa Casa de Misericórdia (que poderia ser qualquer outro hospital do país), ao parar no sinal pude observar um "time" de cinco ou seis homens, todos cuidadosamente vestidos, dentro do limite das suas simplicidades, com um objeto em comum que os caracterizava e "denunciava" a razão de estarem ali.

Todos portavam bíblias embaixo dos braços, e pelo que o exíguo tempo de observação me permitiu, pareciam ansiosos, como novatos para entrar em campo.

De certa forma, como em toda atividade, em umas mais, em outras menos, existe uma hierarquia, onde os calouros enfrentam as tarefas mais difíceis, ou seja, aquelas que permitirão aos superiores avaliar a tenacidade e a futura habilidade dos pupilos, como um rito de passagem, talvez seja este o motivo da aparente ansiedade, talvez fosse só o calor.

É bom que se diga logo, para evitar confusões, que este blogueiro respeita o direito de todos à alguma crença, mas o limite deste respeito é ao direito, e não ao conteúdo do que se crê, porque para este blogueiro, os evangelhos e a história de João e o pé de feijão são igualmente incríveis.

Então, antes que se diga que estou pró ou contra aquela denominação, que fique claro que todas para mim valem o mesmo: nada.

Mas voltando ao tema principal, é sintomático que as igrejas pentecostais ou evangélicas estejam avançando com tamanha rapidez no terreno que antes era monopolizado pela Igreja Católica Apostólica Romana (ICAR). Isto é chover no molhado.

No entanto, o que poucos ainda se permitem concordar, é que a ICAR tende a perder sua condição de majoritária em pouco tempo.

Há várias injunções sociológicas e antropológicas, onde estudiosos apontam que a ascensão de novas classes médias (ou trabalhadoras) conferem uma nova lógica, ou um novo senso de superação cotidiana como um compromisso do fiel com sua crença (deus) de ser bem sucedido, ao contrário da lógica conservadora da culpa católica, que privilegia o sofrimento como prova de amor a crença (deus), para o qual a recompensa (vida eterna) viria após o julgamento (morte).

Poderíamos esposar várias outras hipóteses, que não se auto-excluem, ao contrário. A rigidez de certos dogmas, como o celibato por exemplo, acabaria por minar a renovação dos quadros católicos, haja vista que antes, com famílias numerosas e de muitos filhos, a possibilidade de incorporar um deles a vida clerical não era de todo ruim, inclusive do ponto de vista econômico e do status social. Hoje o quadro é outro, e temos cada uma das mulheres brasileiras com , 1,7 ou 1,8 filho na média, onde a ideia de um filho único padre não é muito bem-vinda.

Mas o fato é que se a ICAR ainda é hegemônica (e é), a sensação numérica dos pentecostais é muito maior, principalmente nestes espaços como hospitais, presídios, etc, sendo certo que o efeito desta presença acaba por surtir algum resultado, mesmo que alguns rejeitem o consolo oferecido, ainda mais se considerarmos que, em alguns casos, os pastores acabam por levar também auxílio material, ou intervenção para que os pacientes ou presos recebam a atendimento adequado, através da rede de solidariedade política que também mantêm.

E não se diga que a ICAR não tem reagido, mas lhe falta o principal: material humano e uma base dogmática que corresponda aos anseios das pessoas!

Uma breve olhada pelos canais de TV, "os púlpitos eletrônicos", e veremos os mesmo trejeitos para padres e pastores, seja na Renovação Carismática (um tipo de facção pentecostal da ICAR), seja nos padres-pop.

Assistimos também o mesmo espetáculo catártico com a visita do papa, recentemente.

Então, a questão não é de forma. Os católicos têm tentado dar uma "resposta de mercado" a posição desvantajosa que ocupam.

A questão é que a ICAR perdeu todas as referências que mantinha: 

Não é vista como a Igreja dos Pobres, haja vista a limpeza promovida pelos conservadores na ditadura de Paulo II, seguido pelo Bento XVI.

Foi destroçada pelos escândalos sexuais e financeiros, e muito mais pela inércia em relação as providências que deveriam ter sido adotadas, o que tolheu a ICAR o discurso da moral e da sexualidade.

Enfim, a rigidez dogmática católica não mais se encaixa na fluidez das relações sociais pós-modernas, onde homens, mulheres desempenham papeis semelhantes e requerem equidade em todos os setores. Neste aspecto específico, as religiões católica, muçulmana e judaica continuam a tratar as mulheres como humanos de quinta categoria.

Diante de todo este quadro, em breve poderemos ver a ICAR na "terceirona" da preferência nacional, espremida como uma pequena seita.

Bom, em alguns casos é bom voltar as origens, quem sabe?


Um comentário:

Anônimo disse...

Douglas, muito boa a sua visão. Você faz uma análise com um viéis religioso sem ser contaminado por dogma esse ou aquele.
Penso também - e você poderia acrescentar... - que o que acontece é que a bíblia caiu nas māos de todos. A classe que sabe ler encontra na bíblia as "coerências" pregadas e manifestadas por evangélicos, onde os pentecostais estão na vanguarda. Se é verdade o que se dia ali nāo sabemos. Mas queiramos ou nāo temos visto a "coisa" ( que nāo sabemos explicar) avançando a olhos vistos. E diga-se, de passagem, em gente de toda classe social. Ora, sendo a bíblia um livro erudito fica explicável camadas "altas" buscarem ali resposta para o caos que se vive. Mas só mesmo um "mistério" explica esse livro ser entendido também pelos "pequeninos".
Isso torna esse "livro" o mais lido do mundo.
Nós, não muito chegados ao absoluto, ficamos de fora só conjecturando isso e aquilo.
O padre Chico nem se aventurou em levar os fiéis à bíblia e, talvez, para que os mesmos nāo "descobrissem" o segredo que muitos dizem "libertar" povo dos "ícones". Que quanto não são de madeira, prata e ouro são de carne mesmo...