sexta-feira, 21 de março de 2014

Chances desperdiçadas e muito mais perigo à vista.

Desde que foram implantadas as UPP, este blog, na contracorrente, se colocou como totalmente contrário a política de ocupação militarizada de parcelas dos territórios da cidade do Rio de Janeiro, sempre as mais pobres.

Os textos que tratam do assunto você pode ler aqui, aqui, aqui

Ao largo da questão geográfica implícita, onde a tomada destes territórios abria caminho a toda sorte de interesses especulativos imobiliários e as demandas da investida dos grandes eventos destinados a ampliar a noção capitalista de cidade-espetáculo, nós argumentamos pela questão, digamos, técnica, que em si também trazia uma visão política embutida.

Claro que nossa crítica não desprezou nunca o reconhecimento de que a perspectiva de diminuição dos conflitos armados entre policiais e criminosos, ou entre facções rivais destes grupos criminosos, seria um alento às comunidades atingidas.

Mas alertamos que esta medida paliativa vinha com data de validade vencida, por representar apenas mais do mesmo: imaginar que aqueles territórios (favelas) seriam os palcos principais de combate do tipo de atividade criminosa que se dizia querer combater, ou em palavras mais simples, a ocupação trata a questão dos grupos armados e suas ações de venda no varejo de drogas como causa do crime, e não como efeito de um intrincado processo que se desdobra até chegar a este ponto.

Logo, fica óbvio que passado o impacto inicial do aumento da pressão estatal, estas atividades que mantiveram suas cadeias anteriores intactas (distribuição, produção, transporte, armazenamento, armas, lavagem de dinheiro) recomeçam a sua redistribuição espacial, bem como renovam suas táticas de enfrentamento.

E façamos justiça, este processo não se dá apenas aqui, ou não é "culpa" da incapacidade dos governos ou policiais (apenas), mas é a dinâmica desta modalidade delitiva que coroou de fracasso cada tentativa de abordagem que deu ênfase a militarização, a ocupação, ao enfrentamento violento como premissa. No México ou na Itália.

Desde que o castelo de cartas das UPP começou a ruir, venho observando um dado curioso.

O tráfico de drogas, como toda atividade econômica, e porque não dizer, como todos os aspectos da vida social no planeta, experimentaram uma enorme revolução nas suas estruturas com o advento da neoliberalização mundial.

A "desregulamentação da vida" é um traço que modificou dramaticamente os laços culturais e de solidariedade, desde pequenas comunidades interioranas, até as vizinhanças da megalópoles, onde ter dinheiro passou ser a medida de tudo e de todos.

Nos morros do Rio, estes laços que vinculavam os traficantes e a população local, geralmente cantadas  pelo folclore local (ver Bezerra da Silva e outros) como um misto de assistência social e tribunais de rua, foram cruelmente modificados, bem como a própria evolução destas micro-organizações criminosas sofreram forte alteração, e a principal delas, decorrente do alto índice de letalidade que atingia seus integrantes, foi o fato de que cada vez mais, os mais jovens subiam aos cargos mais altos da hierarquia do varejo de drogas.

Com isto, o aumento da violência foi quase imediato, pois jovens com laços precários com a comunidade, sem esposas, filhos, etc, armados, e desejosos de angariar toda a ascensão social possível no curto tempo de vida que imagina ter, estão muito mais propensos a ações suicidas ou ao comportamento inclemente com policiais, adversários, traidores, moradores, etc.

Foi este relacionamento agastado entre comunidade e traficantes que superou até o verdadeiro horror que os moradores pelos policiais, que acabou por legitimar a ocupação das UPP, talvez porque os moradores, intuitivamente, se dispusessem a aceitar um "mal menor".

É verdade que uma parcela importante das comunidades ocupadas desejavam a ocupação.

No entanto, os limites que a própria noção de ocupação traz em si, e que já mencionamos: a inexistência de uma ação de combate ao crime que ultrapassasse o limite dos territórios ocupados, com atenção voltada para as rotas de tráfico de armas, os atacadistas de drogas, lavagem de dinheiro, etc, e a transformação previsibilíssima das forças de ocupação em transtorno diário, quando passam a controlar gestos, costumes e a vida social do local ocupado, realimentaram uma relação entre traficantes e moradores que se julgava irreversivelmente partida.

A estranha mistura de temores, resultado das chantagens semi-terroristas dos grupos de vândalos sobre manifestações na Copa 2014, a permanência dos gargalos estruturais nas comunidades, que continuam a enxergar apenas a polícia como face mais visível do Estado, apesar das enormes melhoras, dentre outros fatores combustíveis, estão a oferecer aos traficantes uma oportunidade de retomada de território.

Ontem uma UPP foi incendiada como suposta retaliação a ação da polícia para desalojar invasores de um prédio, e se confirmada a versão, dará uma dimensão da mistura de objetivos, onde a polícia acabou, mais uma vez, a funcionar como ferramenta de coerção em conflitos sociais (e não criminais).

Esta mistura, se capturada pelos artífices do tráfico, e bem manipulada, pode dar uma inédita coesão ao que já acontece de forma aleatória e desorganizada: o uso de manifestações de cunho político e social por grupos armados criminosos.

A união de grupos políticos com falanges criminosas não é novidade, e está em nossa memória recente, só que naquela oportunidade, a fusão se deu no interior das cadeias.

Grupos como black blocks, ou parte de seus integrantes, extremistas de partidos políticos que desejam o desgaste da Democracia para encetar rupturas institucionais, e células de traficantes armados nos morros não é uma mistura improvável, e só os setores de inteligência (totalmente militarizada) da Secretaria de Segurança parecem não enxergar, pois continuam a agir como se mais e mais força vá trazer algum resultado desejável.

A um Estado onde o governador já disse que sai em breve (e a leitura é: não estou nem aí), e que chama o Governo Federal a cada "balanço mais forte", o que restará?

Bem, para quem acredita, rezar...

Se alguém temia a volta do grupo da lapa ao Governo do Estado, agora sim temos um universo que atinge seus adversários e aumenta exponencialmente suas chances que eram poucas:

O futuro ex-governador e seu candidato pelos motivos já expostos.

O candidato do PT porque se a Presidenta mandar ajuda e der errado, ele (Lindberg) sai mais chamuscado que ela. 
De todo jeito, esta cooperação pedida pode ter sido o abraço de afogado (pensado ou não) do futuro ex-governador.


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