sexta-feira, 28 de março de 2014

As pesquisas, as notas de "rating", os estelionatos eleitorais e financeiros

Nenhuma modalidade científica é neutra ou inquestionável. 

A pretensão de tornar-se portadora de alguma verdade incontestável transforma ciência em religião ou fraude.

Aliás, a virtude da ciência é justamente a possibilidade de avançar questionando a si mesma e seus postulados.

Engraçado ver o rebuliço causado pelas pesquisas eleitorais, que assim como as "notas" das agências de risco, compreendem as maiores ferramentas para estelionatos financeiros e políticos, e não raro, estas possibilidades ficam reunidas sob interesses inconfessáveis.

Assim, de um lado as agências de classificação de risco "fabricam" crises com as quais possam lucrar seus patrocinadores, e ignoram crises cavalares como a de 2008, também para lucro deles.

Não é coincidência que o mundo tenha se rendido (de quatro) aos números financeiros, enquanto a política cedeu os anéis, dedos e quem sabe algo mais aos números da estatística.

As pesquisas servem a um monte de coisas, mas seu uso mais nefasto é a imposição de seus resultados como uma realidade de viés único.

É o tal do futuro auto-realizável.

Quando fraudadas são ainda mais repulsivas, e não há nada que nos impeça, ao contrário, tudo nos leva a acreditar nesta hipótese, principalmente, tendo a estatística eleitoral o fim ao qual se destina.

O frenesi sobre a popularidade ou as intenções de voto de Dilma já seriam um tolice memorável, e dá pena assistir o presidente local do PT fazendo papel de bobo, que dizer...ele não faz outro papel mesmo, e nem dá para sentir pena, a não ser de nós mesmos, petistas e omissos.

Antes de falar, o anti-presidente do PT local deveria se informar, ler, pensar (aí é pedir demais).

Vejam o que o jornalista Fernando Brito (do blog Tijolaço) escreveu sobre o tema, que foi repercutido pelo blog do Nassif:

A questão das duas pesquisas do Ibope

Sugerido por Webster Franklin
Do Tijolaço
 
Fernando Brito
Primeiro, semana passada, o boato de que a pesquisa Ibope traria uma queda – que não houve – da intenção de voto em Dilma Rousseff.
Seis dias depois, uma “outra” pesquisa do Ibope, estranhamente, capta uma súbita mudança de estado de espírito da população e Dilma (que tinha 43% das intenções de voto na tal pesquisa eleitoral) e registra uma perda de sete pontos percentuais em sua aprovação: curiosamente dos mesmos 43% para 37%…
Puxa, como foi rápida a queda, em apenas seis dias, quase um por cento por dia…
É, meus amigos e amigas, é mais suspeito do que isso.
A pesquisa de intenção de voto, divulgada na sexta-feira, foi registrada no TSE no 14 de março, sob o protocolo BR-00031/2014 , com realização das entrevistas entre os dia 13 e 20/03/14.
Já a de popularidade recebeu o protocolo BR-00053, no dia 21 passado, mas quando já se encontrava concluída, com entrevistas entre os dias 14 e 17.
Reparou?
Quinta feira à tarde, dia 20, uma intensa boataria toma conta do mercado de capitais, dizendo que Dilma perderia pontos numa pesquisa Ibope a ser divulgada no Jornal Nacional.
O estranho é que ninguém tinha contratado, isto é , ninguém pagou por essa pesquisa. Em tese, é claro.
A pesquisa é divulgada sem nenhuma novidade.
Mas, naquele momento, o Ibope já tinha outra (outra, mesmo?) pesquisa, terminada três dias antes e certamente já tabulada.
Vamos acreditar que o Ibope fez duas pesquisas diferentes, com a mesma base amostral e 2002 entrevistas exatamente cada uma…
O boato, portanto, não saiu do nada.
No mínimo veio de dentro do Ibope, que tinha nas mãos duas pesquisas totalmente contraditórias.
Uma, “sem dono”, que dizia que Dilma continuava nadando de braçada.
Outra, encomendada pela CNI de Clésio Andrade, um dos senadores signatários da CPI da Petrobras, apontando uma queda de sete pontos em sua popularidade.
Mas a gente acredita em institutos de pesquisas, não é?
O Ibope teve nas mãos duas pesquisas com a mesma base, realizadas praticamente nos mesmos dias, com resultados totalmente diferentes entre si?
Se o PT não fosse um poço de covardia estaria exigindo, como está na lei, os questionários das “duas” pesquisas.
Aliás, nem devia ser ele, mas o Ministério Público Eleitoral, quem deveria exigir explicações públicas do Ibope, diante destes indícios gravíssimos de – vou ser muito suave, para evitar um processo  - inconsistência estatística.
Ainda mais porque muito dinheiro mudou de mãos na quinta-feira e hoje, com a especulação na Bolsa.
Mas não vão fazer: esta é uma nação acoelhada diante das estruturas suspeitosíssimas dos institutos de pesquisa.

sexta-feira, 21 de março de 2014

Chances desperdiçadas e muito mais perigo à vista.

Desde que foram implantadas as UPP, este blog, na contracorrente, se colocou como totalmente contrário a política de ocupação militarizada de parcelas dos territórios da cidade do Rio de Janeiro, sempre as mais pobres.

Os textos que tratam do assunto você pode ler aqui, aqui, aqui

Ao largo da questão geográfica implícita, onde a tomada destes territórios abria caminho a toda sorte de interesses especulativos imobiliários e as demandas da investida dos grandes eventos destinados a ampliar a noção capitalista de cidade-espetáculo, nós argumentamos pela questão, digamos, técnica, que em si também trazia uma visão política embutida.

Claro que nossa crítica não desprezou nunca o reconhecimento de que a perspectiva de diminuição dos conflitos armados entre policiais e criminosos, ou entre facções rivais destes grupos criminosos, seria um alento às comunidades atingidas.

Mas alertamos que esta medida paliativa vinha com data de validade vencida, por representar apenas mais do mesmo: imaginar que aqueles territórios (favelas) seriam os palcos principais de combate do tipo de atividade criminosa que se dizia querer combater, ou em palavras mais simples, a ocupação trata a questão dos grupos armados e suas ações de venda no varejo de drogas como causa do crime, e não como efeito de um intrincado processo que se desdobra até chegar a este ponto.

Logo, fica óbvio que passado o impacto inicial do aumento da pressão estatal, estas atividades que mantiveram suas cadeias anteriores intactas (distribuição, produção, transporte, armazenamento, armas, lavagem de dinheiro) recomeçam a sua redistribuição espacial, bem como renovam suas táticas de enfrentamento.

E façamos justiça, este processo não se dá apenas aqui, ou não é "culpa" da incapacidade dos governos ou policiais (apenas), mas é a dinâmica desta modalidade delitiva que coroou de fracasso cada tentativa de abordagem que deu ênfase a militarização, a ocupação, ao enfrentamento violento como premissa. No México ou na Itália.

Desde que o castelo de cartas das UPP começou a ruir, venho observando um dado curioso.

O tráfico de drogas, como toda atividade econômica, e porque não dizer, como todos os aspectos da vida social no planeta, experimentaram uma enorme revolução nas suas estruturas com o advento da neoliberalização mundial.

A "desregulamentação da vida" é um traço que modificou dramaticamente os laços culturais e de solidariedade, desde pequenas comunidades interioranas, até as vizinhanças da megalópoles, onde ter dinheiro passou ser a medida de tudo e de todos.

Nos morros do Rio, estes laços que vinculavam os traficantes e a população local, geralmente cantadas  pelo folclore local (ver Bezerra da Silva e outros) como um misto de assistência social e tribunais de rua, foram cruelmente modificados, bem como a própria evolução destas micro-organizações criminosas sofreram forte alteração, e a principal delas, decorrente do alto índice de letalidade que atingia seus integrantes, foi o fato de que cada vez mais, os mais jovens subiam aos cargos mais altos da hierarquia do varejo de drogas.

Com isto, o aumento da violência foi quase imediato, pois jovens com laços precários com a comunidade, sem esposas, filhos, etc, armados, e desejosos de angariar toda a ascensão social possível no curto tempo de vida que imagina ter, estão muito mais propensos a ações suicidas ou ao comportamento inclemente com policiais, adversários, traidores, moradores, etc.

Foi este relacionamento agastado entre comunidade e traficantes que superou até o verdadeiro horror que os moradores pelos policiais, que acabou por legitimar a ocupação das UPP, talvez porque os moradores, intuitivamente, se dispusessem a aceitar um "mal menor".

É verdade que uma parcela importante das comunidades ocupadas desejavam a ocupação.

No entanto, os limites que a própria noção de ocupação traz em si, e que já mencionamos: a inexistência de uma ação de combate ao crime que ultrapassasse o limite dos territórios ocupados, com atenção voltada para as rotas de tráfico de armas, os atacadistas de drogas, lavagem de dinheiro, etc, e a transformação previsibilíssima das forças de ocupação em transtorno diário, quando passam a controlar gestos, costumes e a vida social do local ocupado, realimentaram uma relação entre traficantes e moradores que se julgava irreversivelmente partida.

A estranha mistura de temores, resultado das chantagens semi-terroristas dos grupos de vândalos sobre manifestações na Copa 2014, a permanência dos gargalos estruturais nas comunidades, que continuam a enxergar apenas a polícia como face mais visível do Estado, apesar das enormes melhoras, dentre outros fatores combustíveis, estão a oferecer aos traficantes uma oportunidade de retomada de território.

Ontem uma UPP foi incendiada como suposta retaliação a ação da polícia para desalojar invasores de um prédio, e se confirmada a versão, dará uma dimensão da mistura de objetivos, onde a polícia acabou, mais uma vez, a funcionar como ferramenta de coerção em conflitos sociais (e não criminais).

Esta mistura, se capturada pelos artífices do tráfico, e bem manipulada, pode dar uma inédita coesão ao que já acontece de forma aleatória e desorganizada: o uso de manifestações de cunho político e social por grupos armados criminosos.

A união de grupos políticos com falanges criminosas não é novidade, e está em nossa memória recente, só que naquela oportunidade, a fusão se deu no interior das cadeias.

Grupos como black blocks, ou parte de seus integrantes, extremistas de partidos políticos que desejam o desgaste da Democracia para encetar rupturas institucionais, e células de traficantes armados nos morros não é uma mistura improvável, e só os setores de inteligência (totalmente militarizada) da Secretaria de Segurança parecem não enxergar, pois continuam a agir como se mais e mais força vá trazer algum resultado desejável.

A um Estado onde o governador já disse que sai em breve (e a leitura é: não estou nem aí), e que chama o Governo Federal a cada "balanço mais forte", o que restará?

Bem, para quem acredita, rezar...

Se alguém temia a volta do grupo da lapa ao Governo do Estado, agora sim temos um universo que atinge seus adversários e aumenta exponencialmente suas chances que eram poucas:

O futuro ex-governador e seu candidato pelos motivos já expostos.

O candidato do PT porque se a Presidenta mandar ajuda e der errado, ele (Lindberg) sai mais chamuscado que ela. 
De todo jeito, esta cooperação pedida pode ter sido o abraço de afogado (pensado ou não) do futuro ex-governador.


domingo, 16 de março de 2014

Das categorias de base ao time principal, pastores goleiam os padres.

Passando hoje (mas podia ser há um bom tempo atrás) pela esquina do bidê da prefeita, na entrada lateral da Santa Casa de Misericórdia (que poderia ser qualquer outro hospital do país), ao parar no sinal pude observar um "time" de cinco ou seis homens, todos cuidadosamente vestidos, dentro do limite das suas simplicidades, com um objeto em comum que os caracterizava e "denunciava" a razão de estarem ali.

Todos portavam bíblias embaixo dos braços, e pelo que o exíguo tempo de observação me permitiu, pareciam ansiosos, como novatos para entrar em campo.

De certa forma, como em toda atividade, em umas mais, em outras menos, existe uma hierarquia, onde os calouros enfrentam as tarefas mais difíceis, ou seja, aquelas que permitirão aos superiores avaliar a tenacidade e a futura habilidade dos pupilos, como um rito de passagem, talvez seja este o motivo da aparente ansiedade, talvez fosse só o calor.

É bom que se diga logo, para evitar confusões, que este blogueiro respeita o direito de todos à alguma crença, mas o limite deste respeito é ao direito, e não ao conteúdo do que se crê, porque para este blogueiro, os evangelhos e a história de João e o pé de feijão são igualmente incríveis.

Então, antes que se diga que estou pró ou contra aquela denominação, que fique claro que todas para mim valem o mesmo: nada.

Mas voltando ao tema principal, é sintomático que as igrejas pentecostais ou evangélicas estejam avançando com tamanha rapidez no terreno que antes era monopolizado pela Igreja Católica Apostólica Romana (ICAR). Isto é chover no molhado.

No entanto, o que poucos ainda se permitem concordar, é que a ICAR tende a perder sua condição de majoritária em pouco tempo.

Há várias injunções sociológicas e antropológicas, onde estudiosos apontam que a ascensão de novas classes médias (ou trabalhadoras) conferem uma nova lógica, ou um novo senso de superação cotidiana como um compromisso do fiel com sua crença (deus) de ser bem sucedido, ao contrário da lógica conservadora da culpa católica, que privilegia o sofrimento como prova de amor a crença (deus), para o qual a recompensa (vida eterna) viria após o julgamento (morte).

Poderíamos esposar várias outras hipóteses, que não se auto-excluem, ao contrário. A rigidez de certos dogmas, como o celibato por exemplo, acabaria por minar a renovação dos quadros católicos, haja vista que antes, com famílias numerosas e de muitos filhos, a possibilidade de incorporar um deles a vida clerical não era de todo ruim, inclusive do ponto de vista econômico e do status social. Hoje o quadro é outro, e temos cada uma das mulheres brasileiras com , 1,7 ou 1,8 filho na média, onde a ideia de um filho único padre não é muito bem-vinda.

Mas o fato é que se a ICAR ainda é hegemônica (e é), a sensação numérica dos pentecostais é muito maior, principalmente nestes espaços como hospitais, presídios, etc, sendo certo que o efeito desta presença acaba por surtir algum resultado, mesmo que alguns rejeitem o consolo oferecido, ainda mais se considerarmos que, em alguns casos, os pastores acabam por levar também auxílio material, ou intervenção para que os pacientes ou presos recebam a atendimento adequado, através da rede de solidariedade política que também mantêm.

E não se diga que a ICAR não tem reagido, mas lhe falta o principal: material humano e uma base dogmática que corresponda aos anseios das pessoas!

Uma breve olhada pelos canais de TV, "os púlpitos eletrônicos", e veremos os mesmo trejeitos para padres e pastores, seja na Renovação Carismática (um tipo de facção pentecostal da ICAR), seja nos padres-pop.

Assistimos também o mesmo espetáculo catártico com a visita do papa, recentemente.

Então, a questão não é de forma. Os católicos têm tentado dar uma "resposta de mercado" a posição desvantajosa que ocupam.

A questão é que a ICAR perdeu todas as referências que mantinha: 

Não é vista como a Igreja dos Pobres, haja vista a limpeza promovida pelos conservadores na ditadura de Paulo II, seguido pelo Bento XVI.

Foi destroçada pelos escândalos sexuais e financeiros, e muito mais pela inércia em relação as providências que deveriam ter sido adotadas, o que tolheu a ICAR o discurso da moral e da sexualidade.

Enfim, a rigidez dogmática católica não mais se encaixa na fluidez das relações sociais pós-modernas, onde homens, mulheres desempenham papeis semelhantes e requerem equidade em todos os setores. Neste aspecto específico, as religiões católica, muçulmana e judaica continuam a tratar as mulheres como humanos de quinta categoria.

Diante de todo este quadro, em breve poderemos ver a ICAR na "terceirona" da preferência nacional, espremida como uma pequena seita.

Bom, em alguns casos é bom voltar as origens, quem sabe?