quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

Outras planícies: A Europa por uma pechincha.

Estranhos os caminhos do capitalismo global, embora alguns ingênuos, outros tolos, e tantos outros cínicos, ainda continuem a desfraldar velhos mantras.

"A bem sucedida aventura capitalista europeia e estadunidense", que por anos enxotou e humilhou cidadãos de vários países (teve embaixador brasileiro tirando sapatos em aeroporto ianque), à bordo da arrogância peculiar aos mais ricos, agora apresenta sua outra face:

De acordo com o jornal inglês The Independent (aqui), por alguns milhares ou milhões de Euros, você ganha um passaporte europeu, comprando uma ilha grega (8,5 milhões de Euros, cerca de 20 milhões de reais), ou por 1,15 milhão de Euros, você leva um passaporte maltês.

Há outras ofertas, como castelos poloneses na bacia das almas (valor não divulgado).

Faz algum tempo li que algo parecido estava acontecendo em Portugal, e vejam só, ironias das ironias, o principal alvo das corretoras transatlânticas éramos nós, que até ontem tínhamos que suar frio para entrar na Europa. Que o digam nossos dentistas.

Imagine a ironia de um dentista rico ou uma cortesã riquíssima comprando uma quinta portuguesa.

Pois é, dinheiro não leva desaforo para casa.

Brincadeiras à parte, as populações "tradicionais" da Europa têm reagido ferozmente a esta invasão dos novos ricos.

O que revela um dado ainda mais curioso: O paraíso capitalista não é o que chamam de "mundo livre", e "globalizado"?

Já passou da hora da gente começar a endurecer o jogo, e mandar de volta alguns mortos de fome europeus e estadunidenses que têm desembarcado por aqui, a cata de algum emprego.

Não sou chegada a xenofobias, mas que ia ser divertido, ah ia.

6 comentários:

Anônimo disse...

Rapaz...acho que ouvi numa entrevista sua ao Herval, você dizer que a democracia não era a regime ideal, mas era o melhor que a gente tinha. Me corrija se ouvi mal. Você bate pra cacete no capitalismo. Gostaria de saber qual sistema seria o ideal e se existe algum país que o exerça com êxito.

douglas da mata disse...

Bem, caro amigo, se você um dia acordar e imaginar que tudo que você tem, ou a realidade a sua volta não merece reflexão e superação (a História acabou), sugiro: dê um tiro nos miolos.

Brincadeiras à parte, é bom você começar a pensar que Democracia não é sinônimo de capitalismo, embora os ideólogos do capitalismo empurrem sua goela dentro esta noção desde criança.

Todas as vezes que o estamento capitalista esteve sob risco, recorreram a cruéis e sanguinárias ditaduras, ou regimes bem próximos a isto (como a caça as bruxas do senador McCarthy, nos anos 50 dos EEUU, ou bush jr recentemente e seus atos patriotas, revogando direitos civis seculares dos EEUU em nome de algo que ninguém sabe ainda o que é, de fato. Temos ainda as ditaduras conhecidas da América Latina, invasões, golpes, etc.

Por certo as tentativas de socialismo fracassaram, inclusive no quesito das liberdade, é verdade.

Mas estranho é que toda vez que a balança de alguns países penderam mais à esquerda, com a consagração do voto popular, vêm os capitalistas e baixam o cacete em nome da "democracia".

rs...não é engraçado, é trágico.

Resumindo, tudo isto determina que devemos enxergar o óbvio: o capitalismo não é a última etapa civilizatória e evolutiva da Humanidade.

O que vem depois, vai funcionar vai ser melhor ou pior? Sinceramente não sei, mas tenho certeza que o que está aí hoje não funciona muito bem.

É só dar uma olhada nos homens vira-latas revirando lixeiras em Madrid e Barcelona.

Crueldade extrema, os prefeitos mandaram acorrentar os depósitos.

Tratamento pior do que o reservado aos cães, e olha que não estamos falando do Congo ou do Sudão do Sul.

Ah, e antes que eu me esqueça, este blog é sim anticapitalista, portanto, natural que você leia aqui textos com este conteúdo.

Caso não concorde, tem duas saídas:

a) ou me apresenta argumentos robustos;

b) ou procure um blog que seja mais agradável aos olhos...tem uns de receitas que são ótimos.

Anônimo disse...

Bom...mas você não respondeu minha pergunta. Se não quiser tudo bem.

douglas da mata disse...

Bem, caro amigo, se você não entendeu a resposta, não quer dizer que não tenha sido dada.

Me parece o caso.

Aliás, me parece mais: me parece que você não quer ouvir resposta, senão aquela que já está ensaiada e treinada nos seus ouvidos, por anos e anos de lavagem cerebral.

Uma pena.

Não é a perspectiva negativa quanto ao êxito de uma alternativa que desmerece a sua busca.

Em outras palavras, desenhando para você: embora imaginemos que a perfeição seja impossível, não nos furtamos a persegui-la.

Mais mastigado que isto, impossível.

Anônimo disse...

Enquanto persegue a perfeição, qual o problema em reconhecer que justamente é na Europa capitalista onde se vive melhor do que nunca se viveu na história do ser humano?

Pois imagino que não será tão obtuso de pensar que o Brasil, com suas cárceres medievais, seus miseráveis e seus milionários, seus políticos, sua justiça, sua polícia, etc., já tenha atingido o padrão de vida do welfare state, ainda que em crise.

Pode ter todo o direito a acreditar que o PT nos levará a uma instância superadora do capitalismo. Mas pensar que já estamos lá, porque há mendigos na Espanha, não tem muito sentido.

douglas da mata disse...

Bem, caro amigo, acho que agora entramos em um circuito de maturidade que permite uma discussão mais aprofundada, vamos a ela:

01- Antes de tudo e mais nada, é bom deixar claro que não é aleatória ou acidental a relação entre o bem estar europeu, canadense, australiano e estadunidense, e a miséria e falência dos outros países e suas instituições.

É resultado das escolhas e arranjos capitalistas, tanto do ponto de vista financeiro e geográfico, associado com o processo histórico de cada região.

A não ser que você imagine que a África é povoada por gente destinada a pobreza e a violência, é preciso entender que cada "mexida" neste sistema global de desigualdades se deram a custa de milhões de mortos em conflitos globais, seja na Grande Guerra, na Segunda, ou ao longo de cada conflito regional, como na Ásia (década de 50, 60, 70) ou Oriente Médio, mais recentemente, ou em flagelos como a globalização da escravidão em escalas nunca vistas, como se deu entre os séculos XV e XIX.

02- Chamar a crise capitalista de 2008 de uma crise do Welfare State é desconhecimento das razões e efeitos desta crise.

É ao contrário: os países que adotaram políticas anti-cíclicas não ortodoxas e anti-neoliberais têm se saído muito melhor que os países que seguem a cartilha: contenção do déficit a todo custo, e dinheiro para banca!

Uma única exceção é a Alemanha, que drena seus parceiros dóceis.

Os EEUU não conseguem alavancar seus negócios como antes justamente porque seu quintal (América Latina) está mais indócil, e passou a mirar outros cantos do planeta para as trocas, daí é fácil imaginar porque tanto interesse na nossa política interna, desde golpes frustrados na Venezuela, outros bem sucedidos em Honduras e Paraguai, invasões no Haiti, sabotagem dos governos equatoriano e boliviano, e monitoramento ilegal de todos nós, sem falar na ligação direta CIA e a nossa mídia e alguns sabujos, como o caso do William Waack.

Considere aí também o fato de que estão sequestrados pela aquisição de seus títulos de dívida pelos chineses, e o crescente avanço deste país sobre territórios de influência estadunidense.

03- Eu não penso que chegamos lá porque há mendigos na Espanha, ou 25% do jovens britânicos entre 19 e 25 anos que afirmam querer se matar ou que já se auto-imolaram por falta de perspectiva (emprego), ou porque a Suécia é o país onde os níveis de desigualdade mais crescem e em ritmo mais acelerado, e outros tantos exemplos como a Grécia, Portugal, Islândia, etc, revelam que saídas ortodoxas matam a doença e o paciente juntos.

Mas justamente porque se com toda a exploração secular do mundo, o capitalismo não conseguiu livrar o seu centro da miséria, da humilhação, fermentando xenofobias, ódios raciais e violência alienada (como nos diz David Harvey), como esperar que algo melhor nos espera, aqui na periferia?

Eu nem tenho certeza se o PT é esta ferramente privilegiada de transformação, mas hoje eu não tenho dúvidas de que para cumprir o paradoxo expresso na metáfora: "trocar o pneu com o carro andando", ainda não apareceu nada melhor.

O que não me impede a busca permanente pelo aperfeiçoamento das formas coletivas e públicas de intervenção, reduzindo o espaço do individualismo e do privatismo.

Um abraço.