segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

Campeonato Mundial de Hipocrisia!


Você pode imaginar que armas nucleares, ou vasos de guerra estadunidenses, juros no Brasil, estádios da copa, campanhas eleitorais, financiamento da saúde e educação, e a atuação da mídia e terrorismo inflacionário, seja uma lista cujos itens nada se relacionem entre si.

Vamos contar um historinha chamada:

Como alimentar o sistema capitalista mundial.

De plano, alguns gritarão:  "eu sei, eu sei, eu sei: é o lucro, é o lucro, ou a acumulação da mais valia, que é a diferença entre o que o trabalhador recebe pelo seu esforço para produzir algo, e o valor que este algo alcança no mercado, e que é retido pelo dono do capital".
É mais ou menos isto, embora esta lógica tenha incorporado etapas e possibilidades que complexificaram este processo de acumulação, mas basicamente é isto.

Ora, mas se o capitalismo se alimenta da exploração do trabalho alheio, o que isto se relaciona com a lista aí de cima?

Bem, para existir em condições de se multiplicar, o capital e seus donos entenderam que havia a necessidade de uma organização não-capitalista, mas subordinada ao capitalismo, chamada Estado Nacional, que organizaria as cidades, fronteiras, leis, segurança, polícia, educação, saúde pública, faria a infraestrutura (portos, aeroportos, estradas, ferrovias, etc), definiria o uso das reservas de energia e tantas outras tarefas.

E como se financiaria esta organização estatal? Impostos, óbvio.

Mas ao longo do tempo vários problemas foram adicionados a esta lógica simples, como: o surgimento de sistemas bancários complexos e necessidade de lastro (estatal) para eles, diferenças cambiais, entre países que vendiam produtos com diferentes preços relativos entre si, guerras, convulsões sociais internas, epidemias, pandemias, e por fim, o aumento das desigualdades de demandas sociais que não cabiam dentro das estruturas tributárias.

Este último é um dado central para nossa historinha:

O  capitalismo vive se equilibrando entre a necessidade vital de explorar ao máximo a sua mão-de-obra, pagando-lhe o menos possível, mais não pode aviltar demais esta remuneração e inibir o consumo.
Por sua vez, Estados Nacionais que tributam demais seus trabalhadores (os mais pobres), não dinamizam suas economias, porque retiram liquidez do consumo, e empobrecem os arranjos capitalistas locais (como o Brasil fez até hoje, poupando os ricos e tributando sempre os mais pobres).

Qual a solução para este dilema tostines

Crédito. Crédito para pessoas e crédito para países.

Este volume de recursos emprestados (re)dinamiza as relações de troca dentro dos países, e mais, possibilita países que tomem recursos para darem conta das tarefas que o capitalismo lhes impôs.

Mas o crédito tem função ainda maior e mais importante, ou pelo menos, passou a ter: passou a ser fonte primordial da acumulação composta capitalista (lucro sobre o lucro), e com isto, ganhou ares de atividade autônoma em relação a produção física de riquezas, o que alguns chamam de economia real e economia financista.
Com o passar do tempo, o modelo real(produção) e seu avatar (mercado financeiro) tiveram suas ligações reduzidas a fios tênues, e não raro, principalmente nas crises, eles parecem agir um contra o outro, mas esta ideia está, na minha opinião, equivocada: o mercado financeiro, suas instâncias de alavancagem, produtos e subprodutos, derivativos e derivativos, são apenas aceleradores das partículas capitalistas, que giram  em velocidade cada vez mais rápida, dispersando cada vez mais energia (expansão caótica) até que a colisão fatal (big bang) se dá em algum ponto da História, criando lacunas antimatéria que sugam tudo, como um buraco negro financeiro, para após, recomeçarem nova expansão. O grande perigo permanente é que estas forças quase sempre são incontroláveis.

Perdoem o interlúdio desta "viagem".

Voltemos ao tema.

É verdade que assim como o capitalismo não se desenvolveu de forma a espalhar prosperidade por todo mundo (e nem podia, pois a desigualdade é seu motor), também os países, internamente, criaram maneiras distintas de ajustarem-se.

Chegamos ao ponto:

O campeonato mundial de hipocrisia.

Ao contrário do que nos dizem nossos ideólogos da direita, e seus bufões do PIG nacional, são os países com mais justiça tributária (carga progressiva, onde quem é mais rico paga mais, e o mais pobre paga menos) que conseguiram minimizar ao máximo os impactos negativos da ação capitalista, e ao mesmo tempo, forneceram mão-de-obra mais capacitada, ambientes institucionais mais seguros, estruturas urbanas mais sofisticadas, que agregam importância no ciclo produtivo.

Por este motivo, Estados Nacionais mais ricos funcionam como atração natural aos donos dos sistemas bancários, tanto para aumentar investimentos de longo prazo naquelas nacionalidades (menor juro, mas risco muito menor), e por outro lado, destinam para as economias mais frágeis os valores alocados para apostas de curto e curtíssimo prazo (taxas altas, e alto risco de calote).

Alguém poderá gritar: "Alto lá! Mas e os deslocamentos produtivos capitalistas para nações com mão-de-obra barata e péssimas condições, como Bangladesh, ou a migração de fábricas de automóveis de cidades dos EEUU para outros países com impostos mais atrativos?"

É verdade que estas mudanças geográficas atingem em cheio as estruturas de contenção das desigualdades construídas nos países mais ricos, mas o fato é que a transferência de empregos não significará a incorporação dos trabalhadores asiáticos do modo de vida ou bem estar que estavam a disposição dos países mais ricos.
Ou seja, o fato de que países pobres sejam atraídos para o esforço produtivo "sujo e pesado"(com raras exceções) não vai alterar o quadro de desigualdades internacionais, mas apenas ajudar no aumento da concentração de riqueza nos centros capitalistas.
Mas enfim, o que isto tudo tem a ver com aquilo tudo lá em cima.

Já explico.

Desde 2003 até 2012, o Brasil, de forma inédita começou uma tímida tentativa de mudança na sua estrutura.

Primeiro ponto, a descida dramática dos juros pagos, ou seja, em 2003, alocávamos quase 9.2% do PIB de então para pagar juros, enquanto em 2012 chegamos ao limite mínimo histórico de 4,7%. Quase a metade.

Façam as contas sobre o PIB, quem quiser, e se assuste com os números.

Pois bem, e não foi uma revolução socialista, ou algo do tipo. Não houve calote, nem aumento de tributos.

Muito pelo contrário.

Nossa carga de tributos sobre o PIB caiu de 55% do PIB para outros históricos 37%.

E qual foi a mágica?

A economia ganhou dinamismo porque uma parte singela deste mar de dinheiro economizado com juros foi devolvido aos pobres como forma de imposto de renda negativo, ou aquilo que chamamos de Bolsa Família, já que não mexemos no sistema tributário nacional de forma direta.

Os saltos no PIB compensaram a diminuição de arrecadação, que no fim das contas, em números absolutos aumentaram, pois se você tem 10% de pouco é pior que 2.5% de muito.

Já os efeitos sociais destas medidas todos sabemos e nem precisamos repetir.

Tudo bem, mas e os juros?

Olha, em 2008 veio a maior crise estrutural desde 1929, e que continua rondando por aí, e o ritmo do Brasil foi refreado, como do resto do mundo, mas ainda assim estamos em situação muito melhor que em outras épocas, apoiadas em uma base social de consumo, e de empregos gerados, bem como aumento da renda,  que juntas mantiveram aquecidas nossas vendas e produção.

Sabemos que durante uma crise deste tamanho, parte do dinheiro especulativo se "evapora", outra parte volta para o "aconchego do lar", e neste movimento "traga" boa parte das economias mais frágeis no caminho, como Grécia, Espanha, Portugal, Inglaterra, Itália, mas e o Brasil? 

Vai bem, obrigado!

Mas então por que a imprensa diz que a inflação vai acordar e devorar tudo, que é preciso conter a inflação, que precisamos desesperadamente de colares de tomates, derrubar o ministro da Fazenda, enquanto jabores declamam escatologias de fim de mundo em clima de final de feira, como um cordel de péssima qualidade?

Lembram da conta dos juros (9,2 para 4,5% do PIB)?

Pois é, este dinheiro que serviria para dar conta de manter programas sociais, fazer copas do mundo, aumentar infraestrutura, embelezar o país, investir um cultura, e quem sabe, até "torrar um pouco por aí", faz falta nas engrenagens do movimento de vai-e-vem de dinheiro do mundo pobre para o mundo rico.

Por aqui, a função do dinheiro é só replicar mais dinheiro(juros), e manter domesticada qualquer chance de outro país (seja o Brasil, Argentina ou Venezuela) de se apresentar como concorrente, embora eles cansem de dizer que é um mundo de "livre concorrência", ou "livre mercado".

Então, a mídia cria várias frentes de "convencimento":

01- Se fazemos estádios e um Copa, faltará hospitais.
02- Se não subirmos os juros, vai voltar a inflação.
03- Se não fizermos tudo o que os donos do capital mandam, nunca seremos grandes.
04- Se não nos comportarmos bem, vão dizer que somos maus pagadores (investiment grade), e aí aumentam as dificuldades para tomarmos dinheiro.

E o navio de guerra estadunidense, entra aonde nesta historinha longa?

Ué, alguém tem dúvida que o que faz (e o que fez) o capitalismo ser mais desenvolvido em algumas partes, em detrimento de outras, foi a máquina de guerra que estão a disposição?

E se parte do nosso dinheiro (pagamento de juros) vai para o caixa dos EEUU (títulos públicos que vendemos a eles aqui), e este dinheiro compra armas, qual é a conclusão?

Isto mesmo!!! Nós ajudamos o capitalismo dominante a se armar e garantir a manutenção de seus interesses a força em todo canto, inclusive contra nós se for o caso.

Então, quando ouvir alguém empunhando uma bandeira ridícula destas pedindo algo "padrão fifa", conte-lhe esta historinha, resumida é claro!!

Mas e a mídia?

Bem, a mídia e as "meninas" são o tipo de "empreendimento" mais antigo do mundo.


2 comentários:

Anônimo disse...

Entendo seu ponto.
Mas e sobre a passagem do texto que diz que o "capitalismo vive se equilibrando entre a necessidade vital de explorar ao máximo a sua mão-de-obra," tenho uma dúvida.

Segundo o David Harvey, que você mesmo gosta de citar "se comparado com o resto, as variações no custo do trabalho já não fazem grande diferença. Na verdade, acredito que o custo do trabalho não faz
muito diferença para o capital hoje."

Para o geógrafo, fazem diferença: "o custo da terra, de matérias-primas, isenções de impostos, eficiência na exportação..."

Você concorda que explorar (no sentido que vc colocou) o trabalho hoje não é tão mais significativo para o capital?

douglas da mata disse...

Caro amigo, grato pela participação.

Na verdade, este é outro paradoxo da análise marxista, e também se expressa em Harvey.

De fato, desde o século XVIII, a participação da renda do trabalho nas rendas nacionais sempre caíram ao longo dos anos, mas junto vieram direitos trabalhistas e menor "exploração".

Boa parte dos direitos, é verdade, recaiu sobre orçamentos públicos (previdência, auxílios-doenças, hospitais, creches, etc), e outras a empresários, que trataram de readequar suas linhas de produção para estas novas condições (jornada de 08 horas, descanso semanal, férias, etc).

Não como decorrência da bondade capitalista, mas das pressões diversas, resultado da melhor organização, e/ou pressões de oferta de trabalhadores sobre a demanda exigida.

O que fica claro é que os salários sempre tiveram uma pequena escala frente ao custo total, e aí Harvey têm razão, terras, água, energia, impostos, logística custam muito mais.

Mas não porque a exploração não faça sentido, mas sim em função dela, ou seja, pela pressão do aviltamento proporcionado pelo exército de reserva, ou como acontece hoje, com a mudança de plantas produtivas para locais com mão-de-obra quase escrava, mas também por inovações tecnológicas e produtividade, o que elevou o lucro a categorias inimagináveis.

O que você precisa atentar que uma coisa é custo da mão-de-obra, e outra é a exploração da mão-de-obra ao máximo.

Eu sempre digo, e acho que isto está no texto, que este é um paradoxo descrito por ambos (Marx e Harevy): pagar o mínimo possível para aumentar o lucro, mas o máximo necessário para manter o consumo.

Quando Harvey diz que as variações não fazem muita diferença, ele está certo, mas ainda assim montadoras e fábricas de roupas e artigos esportivos não hesitam em abandonar arranjos produtivos seculares (Detroit, por exemplo) para poder contar com vantagens tantas em outros países, dentre elas, salários menores e sindicatos dóceis ou inexistentes.

Outro aspecto a ser considerado é que o arranjo capitalista hoje tem na produção apenas uma de suas fontes de acumulação composta.

A criação de um mercado de trocas e alavancagens, o deslocamento da noção física de riqueza (padrão-ouro), a fluidez dos ativos, o valor dos serviços na pós-modernidade, tudo isto implica em novas abordagens deste assunto.

Ainda assim, nenhuma capitalista valorizou sua mão-de-obra mesmo tendo em mente este dado: que ela lhe custa pouco ou quase nada.


É pano para muita manga.

Um abraço.