quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

As raízes do mal.

Dias desses, depois de um post no blog do Roberto Moraes sobre supostos problemas na Faculdade de Medicina de Campos, um longo e renhido debate se desenrolou na caixa de comentários, onde menos para esclarecer o que de fato ocorre naquela instituição de ensino privada, mas que usa recursos públicos, aconteceu uma catarse que expressa em linhas nítidas a percepção que certas categorias têm de si mesmas, naquele caso, os médicos, e quais discursos vão construindo a noção de legitimação dos papéis que imaginam desempenhar na sociedade.

São passagens tristes que refletem o caráter de comentaristas, que se reivindicam médicos (não há como ter certeza se o são), e que em suma pode ser resumida na luta irracional pela defesa de estamentos sociais fincados na desigualdade, e no famosíssimo sabe-com-quem-está-falando. Tudo pontuado em linguagem vulgar, termos carregados de ódio secular e intolerância política, lugares-comuns, como os que ficaram manifestos nos protestos contra o programa Mais Médicos, que desembocaram em episódios nefastos de provocação racista na chegada dos cubanos em alguns aeroportos brasileiros.

Uma vergonha.

Hoje, no blog do Nassif encontrei este texto, e trago para compartilhar com vocês. E se o texto traz a reflexão sobre violência e desigualdade, eu proponho outra: com uma classe médica majoritariamente elitista, racista, soberba, preconceituosa e autossuficiente, não seria também correto imaginar que um sistema de saúde que massacre pobres não seja o ambiente natural de médicos desta natureza, como uma relação de causa-e-efeito? Pois é.

A questão da desigualdade e violência na Holanda e no Brasil

Sugerido por mcn
 
Do blog de Daniel Duclos
UPDATE: Muita gente tem lido este post como uma idealização da Holanda como um lugar paradisíaco. Nada mais longe da verdade. A Holanda não é nenhum paraíso e tem diversos problemas, muitos dos quais eu sinto na pele diariamente. O que pretendo fazer aqui é dizer duas coisas: a origem da violência no Brasil é a desigualdade social e 2, apesar da violência que gera, muita gente gosta dessa desigualdade e fica infeliz quando ela diminui, porque dela se beneficia e não enxerga a ligação desigualdade-violência. Por fim: esse post não é sobre a Holanda. A Holanda estar aqui é casual. Esse post é sobre o Brasil, minha pátria mãe.
A sociedade holandesa tem dois pilares muito claros: liberdade de expressão e igualdade. Claro, quando a teoria entra em prática, vários problemas acontecem, e há censura, e há desigualdade, em alguma medida, mas esses ideais servem como norte na bússola social holandesa.
Um porteiro aqui na Holanda não se acha inferior a um gerente. Um instalador de cortinas tem tanto valor quanto um professor doutor. Todos trabalham, levam suas vidas, e uma profissão é tão digna quanto outra. Fora do expediente, nada impede de sentarem-se todos no mesmo bar e tomarem suas Heinekens juntos. Ninguém olha pra baixo e ninguém olha por cima. A profissão não define o valor da pessoa – trabalho honesto e duro é trabalho honesto e duro, seja cavando fossas na rua, seja digitando numa planilha em um escritório com ar condicionado. Um precisa do outro e todos dependem de todos. Claro que profissões mais especializadas pagam mais. A questão não é essa. A questão é “você ganhar mais porque tem uma profissão especializada não te torna melhor que ninguém”.
Profissões especializadas pagam mais, mas não muito mais. Igualdade social significa menor distância social: todos se encontram no meio. Não há muito baixo, mas também não há muito alto. Um lixeiro não ganha muito menos do que um analista de sistemas. O salário mínimo é de 1300 euros/mês. Um bom salário de profissão especializada, é uns 3500, 4000 euros/mês. E ganhar mais do que alguém não torna o alguém teu subalterno: o porteiro não toma ordens de você só porque você é gerente de RH. Aliás, ordens são muito mal vistas. Chegar dando ordens abreviará seu comando. Todos ali estão em um time, do qual você faz parte tanto quanto os outros (mesmo que seu trabalho dentro do time seja de tomar decisões).
Esses conceitos são basicamente inversos aos conceitos da sociedade brasileira, fundada na profunda desigualdade. Entre brasileiros que aqui vêm para trabalhar e morar é comum – há exceções -  estranharem serem olhados no nível dos olhos por todos – chefe não te olha de cima, o garçom não te olha de baixo. Quando dão ordens ou ignoram socialmente quem tem profissão menos especializadas do que a sua, ficam confusos ao encontrar de volta hostilidade em vez de subserviência. Ficam ainda mais confusos quando o chefe não dá ordens – o que fazer, agora?
Os salários pagos para profissão especializada no Brasil conseguem tranquilamente contratar ao menos uma faxineira diarista, quando não uma empregada full time. Os salários pagos à mesma profissão aqui não são suficientes pra esse luxo, e é preciso limpar o banheiro sem ajuda – e mesmo que pague (bem mais do que pagaria no Brasil a) um ajudante, ele não ficará o dia todo a te seguir limpando cada poerinha sua, servindo cafézinho. Eles vêm, dão uma ajeitada e vão-se a cuidar de suas vidas fora do trabalho, tanto quanto você. De repente, a ficha do que realmente significa igualdade cai: todos se encontram no meio, e pra quem estava no Brasil na parte de cima, encontrar-se no meio quer dizer descer de um pedestal que julgavam direito inquestionável (seja porque “estudaram mais” ou “meu pai trabalhou duro e saiu do nada” ou qualquer outra justificativa pra desigualdade).
Porém, a igualdade social holandesa tem um outro efeito que é muito atraente pra quem vem da sociedade profundamente desigual do Brasil: a relativa segurança. É inquestionável que a sociedade holandesa é menos violenta do que a brasileira. Claro que aqui há violência – pessoas são assassinadas, há roubos. Estou fazendo uma comparação, e menos violenta não quer dizer “não violenta”.
O curioso é que aqueles brasileiros que queixam-se amargamente de limpar o próprio banheiro, elogiam incansavelmente a possibilidade de andar à noite sem medo pelas ruas, sem enxergar a relação entre as duas coisas. Violência social não é fruto de pobreza. Violência social é fruto de desigualdade social. A sociedade holandesa é relativamente pacífica não porque é rica, não porque é “primeiro mundo”, não porque os holandeses tenham alguma superioridade moral, cultural ou genética sobre os brasileiros, mas porque a sociedade deles tem pouca desigualdade. Há uma relação direta entre a classe média holandesa limpar seu próprio banheiro e poder abrir um Mac Book de 1400 euros no ônibus sem medo.
Eu, pessoalmente, acho excelente os dois efeitos. Primeiro porque acredito firmemente que a profissão de alguém não têm qualquer relação com o valor pessoal. O fato de ter “estudado mais”, ter doutorado, ou gerenciar uma equipe não te torna pessoalmente melhor que ninguém, sinto muito. Não enxergo a superioridade moral de um trabalho honesto sobre outro, não importa qual seja. Por trabalho honesto não quero dizer “dentro da lei” -  não considero honesto matar, roubar, espalhar veneno, explorar ingenuidade alheia, espalhar ódio e mentira, não me importa se seja legalizado ou não. O quanto você estudou pode te dar direito a um salário maior – mas não te torna superior a quem não tenha estudado (por opção, ou por falta dela). Quem seu paí é ou foi não quer dizer nada sobre quem você é. E nada, meu amigo, nada te dá o direito de ser cuzão. Um doutor que é arrogante e desonesto tem menos valor do que qualquer garçom que trata direito as pessoas e não trapaceia ninguém. Profissão não tem relação com valor pessoal.
Não gosto mais do que qualquer um de limpar banheiro. Ninguém gosta – nem as faxineiras no Brasil, obviamente. Também não gosto de ir ao médico fazer exames. Mas é parte da vida, e um preço que pago pela saúde. Limpar o banheiro é um preço a pagar pela saúde social. E um preço que acho bastante barato, na verdade.
PS. Ultimamente vem surgindo na sociedade holandesa um certo tipo particular de desigualdade, e esse crescimento de desigualdade tem sido acompanhado, previsivelmente, de um aumento respectivo e equivalente de violência social. A questão dos imigrantes islâmicos e seus descendentes é complexa, e ainda estou estudando sobre o assunto.

15 comentários:

Anônimo disse...

Excelente crítica e autocrítica. Parabéns!

Anônimo disse...

"Tudo pontuado em linguagem vulgar, termos carregados de ódio secular e intolerância política, lugares-comuns..." Essa frase vindo de você deve ser alguma piada. Sem graça aliás...

Anônimo disse...

É isso. Mas sem querer comparar melão com acerola só porque são frutas, a Holanda é menor que o estado do Rio e tem menos gente que a cidade de São Paulo. Tem mais tempo de estrada também. Por tudo e por todos deve ter sido mais fácil.
De qualquer forma, concordo com o articulista.
Não sei quem disse mas concordo também que o grande mal do Brasil foi a escravidão. À ela devemos a soberba da elite(?) e a subserviência vira latas do brasileiro comum, que espelham os mesmos preconceitos do "andar de cima". E, se esta tese é verdadeira, nossa Campos é a síntese deste mal cuja sombra se ergue em toda a sociedade. Aqui fomos os últimos na abolição e em matéria de soberba, preconceito e elitismo somos os primeiros.
Até a sinhazinha daqui querer limpar as latrinas vai um grande hiato... Ficaremos, pois, sem poder abrir o computador na rua.

Abs

douglas da mata disse...

Comentarista das 13:28,

Piada sem graça (trágica) é sua parca (e porca) compreensão dos termos e sua etimologia.

Nem sempre pode-se associar linguagem vulgar com escatologia, ou o uso de termos chulos (palavrões).

Vulgar, na minha opinião, é aquela linguagem que só reproduz conteúdos de significado primitivo. De pouca amplitude reflexiva ou densidade intelectual.

Diferente de um xingamento ou termo considerado ofensivo, que podem (no caso do que escrevo, sempre é assim) se associar a um contexto mais amplo, na maioria dos casos para refutar a arrogância inculta da classe mé(r)dia, como foi o caso dos "dotores".

Outra vez você confunde: Ódios seculares, aqueles que trazem impressos certos "códigos de conduta", resultado da dramática disputa de classes ao longo da História , com a veemência com a qual trato coxinhas e afins.

Há uma sutil diferença entre ódio secular e ódio de classe. Mas não vou perder tempo te explicando, temo jogar pérolas aos porcos.

Por mais duras que sejam minhas palavras, acredite, têm objetivo pedagógico, na medida que se dirigem a comentários anônimos, e muito mais a posturas que eles simbolizam que as pessoas que estão por trás deles.

No caso da intolerância política, não me refiro a intolerâncias partidárias ou ideológicas, pobre comentarista, mas sim aquela que tenta se expressar como anti-política, portanto, muito pior que as manifestações apaixonadas das escolhas de cada um, mas um fenômeno que busca se colocar como avesso a qualquer escolha, mas que sempre traz uma de contrabando.

Quanto a lugares comuns, outra confusão: manter e divulgar princípios podem até se parecer com fazer referência a lugares-comuns, mas é um pouco mais que isso.

Espero ter ajudado a você construir uma noção adequada das palavras, para quem sabe você possa melhorar sua ironia?

Conte comigo sempre que precisar.

Não quero ser arrogante, mas é preciso dizer: só com isto você não vai conseguir nada por aqui.

Anônimo disse...

Douglas, gostaria de fazer um comentário/sugestão, que, desde já peço desculpa por não ser relacionada a postagem em questão...

As últimas notícias políticas no estado dão conta que o PT, o PMDB e o PRB estarão unidos na eleição para governador, inclusive esse seria o caminho ideal para as legendas na opinião de Lula. Do outro lado resta apenas - eleitoralmente viável - Garotinho. Talvez já sabendo disso, Garotinho tem centrado suas críticas justamente neste acordão. Assim, ao criticar - cheio de razão - Cabral e sua administração, ele detona Lindbergh e Crivela, que segundo ele estariam também no mesmo barco...

Infelizmente a população tem memória curta e já não se lembra da péssima administração dos garotinhos no estado, além disso, aqui na nossa cidade a oposição não detalha e investiga o governo municipal, e pior, não faz um debate inteligente sobre a administração Rosinha.

Sugiro então, por acreditar e me interessar pelos debates que são travados aqui neste seu espaço, que façamos aqui um debate sobre a administração dos garotinhos, tanto quando ele e sua esposa estiveram no governo no estado, como agora que estão no atual governo municipal.

Sugiro que através de postagens suas, sempre inteligentes e necessárias, possamos discutir as formas de fazer política do Garotinho e também as suas administrações.

Desculpe o abuso e obrigado por manter este espaço de discussão para nossa cidade, que carece tanto de debates inteligentes.

Abraço

Paulo Sérgio

Anônimo disse...

Caro Douglas, isso foi brilhante:


"A UFRJ e a municipalidade macaense mantêm, todas as dificuldades de implantação, um curso gratuito de medicina, algo impensável há 20 anos.

Será que aquela lenda da Petrobrás não ter vindo para cá, na década de 80, por pressão dos coronéis que não queriam o encarecimento da mão-de-obra, e a melhoria de vida dos seus semi-escravos se repete agora com os coronéis de jaleco, impedindo curso gratuito de medicina por aqui?"

PARABÉNS!

douglas da mata disse...

Caros comentaristas, grato pelas sugestões e comentários generosos.

Anônimo disse...

Curioso como, diante de um modelo próprio exitoso, a esquerda brasileira utiliza o exemplo de um país da "europa ocidental, decadente e capitalista" para criticar o elitismo patrimonialista local.

douglas da mata disse...

Arf...

Meu caro, hoje eu estou sem paciência.

Que tipo de provocação idiota é esta? Não consegue elaborar nada melhor.

Santo zeus.

Alguém imagina que no capitalismo global os modelos "exitosos" possam estar dissociados de modelos "fracassados"?

Ora, meu filho, a essência do capitalismo é se alimentar destas assimetrias, ou seja, para haver conforto e civilidade holandesa é imperativo a barbárie nas periferias.

O que o autor coloca como possibilidade de reflexão é que, na medida que começamos a experimentar novas etapas de funcionamento do capitalismo, e sonhamos um modelo menos injusto(o que não quer dizer que o capitalismo possa ser justo, afinal), devemos enfrentar questões atávicas que tornam nossas elites as mais refratárias a qualquer mudança, ainda que elas venham legitimadas pelas urnas.

Mas veja que o autor esqueceu de colocar que o holandês, embora não pratique esta lógica da discriminação de classe, por sua vez não renuncia ao ódio geográfico expresso da xenofobia holandesa e europeia.

Um conselho: vá ler alguma coisa além do que o PIG vomita na sua cabeça.

Tem muita coisa acessível por aí, é só procurar.

Anônimo disse...

Leia—se "Diante da falta de um modelo" no comentário das 10:26.

Anônimo disse...

Quem tem a necessidade de escrever parrafadas é você, da Mata, para justificar sua crítica permanente daqueles sistemas que não se adequem ao seu modelo "anticapitalista utópico".

Sua mistura de argumentações pseudo eruditas, combinadas com insultos e depreciações arrogantes, nao apenas produzem textos ilegíveis, mas revelam o esforço inútil em defender o seu fracasso intelectual.

É por isso que é tão divertido debater com você.

douglas da mata disse...

Não muda a essência de meu comentário.

Modelos "exitosos" só existem como resultado de sua interdependência com o "fracasso" de outros, e vice-versa.

Há farta literatura neste sentido, inclusive a construção conceitual do príncipe da Sociologia (a teoria da dependência), que pediu que esquecessem tudo o que escreveu.

Anônimo disse...

Passagens tristes?
Durma com essa: http://imagizer.imageshack.us/v2/800x600q90/843/2bx6.jpg

douglas da mata disse...

Meu caro,

Divertido debater comigo? Mas quando começou o debate, eu não percebi?

Ou será debate o seu pseudo-julgamento literário do meu modo de escrever?
Ué, como debates com aquilo que não consegue ler ("ilegível").

Eu poderia te dizer justamente o contrário:

É divertido ver você se contorcendo e espancando a realidade para caber na sua distropia de imaginar que o capitalismo é a última etapa de "evolução produtiva" da Humanidade.

Quem sabe você não tenha a razão, e a História, de fato, já não tenha acabado, e só os anticapitalistas utópicos não tenham percebido?

Divertida também, como já disse, sua noção de causalidade dos sistemas produtivos, as escolhas geográficas e dos processos históricos das divisões de tarefas capitalistas entre os países.

O problema não é como escrevo, mas o fato de que gente como você nunca entenderia mesmo.

Mas como você disse, é divertido.

Anônimo disse...

Faculdade de Medicina de Campos não pagou as férias de seus professores e demitiu quem não podia ser demitido.
Conforme o disposto no acordo coletivo de trabalho firmado entre a FMC-FBPN e o SINPRO, o pagamento das férias deveria ter sido realizado em Dezembro de 2013. Já sabemos o que vai acontecer. Vejam o exemplo da Gama Filho. Greves, ações individuais e coletivas, intervenções do MP e MEC, etc, com todas as suas consequências.
Além disso demitiram quem não podia ser demitido e agora são obrigados a recuar. É muita incompetência!
"FÉRIAS E LICENÇAS
DURAÇÃO E CONCESSÃO DE FÉRIAS

CLÁUSULA TRIGÉSIMA PRIMEIRA - FÉRIAS

As férias dos Professores serão anuais, com duração de trinta dias corridos e gozados no período de 02 a 31 de janeiro.

Parágrafo 1º - A IES está obrigada a pagar a remuneração de férias no período aquisitivo disposto no caput, o adicional constitucional de 1/3 será pago juntamente com as férias que se iniciam em 02 de janeiro, até dois dias úteis que anteceder o referido período.

Parágrafo 2º - As férias não poderão iniciar-se aos domingos, feriados, dias de compensação de descanso semanal remunerado e nem aos sábados.

Parágrafo 3º - Em caso de descumprimento de qualquer dispositivo acima, fica desde já estipulado uma multa pecuniária em favor ao professor, no equivalente ao valor em dobro, devido no pagamento das férias, e ainda caberá oficiar ao SINPRO para que tome as providências que requer o caso. "