sábado, 11 de janeiro de 2014

A mídia política nacional nas cenas dos últimos capítulos.

A mídia que elegeu e depôs presidentes, hoje não elege nem vereador.
Muito temos falado da judicialização da política, que por sua vez é gêmea siamesa da criminalização da ação política, onde ambas são filhas de um processo anterior, a industrialização das campanhas eleitorais, subtraindo boa parte das dinâmicas sociais orgânicas (as ruas, a militância, os comícios, as reuniões plenárias dos partidos, etc) por uma lógica estruturada em mediação eletrônica (tempo de TV), estúdios, marketing, pesquisas, e tutela dos "formadores de opinião", que por sua vez, manipulavam outras formas de abordagens indiretas mais ou menos sofisticadas, com uma linguagem hoje muito comum e disseminada nos "colunistas", portadores de supostas "verdades de bastidores".
A estas cabeças da Hydra junta-se uma outra, expressa na retração da ação parlamentar, que trocou o processo legislativo sobre o funcionamento do sistema representativo da jovem Democracia brasileira por alguns dinheiros e a facilidade aparente dos novos métodos, onde o representante poderia se afastar mais um pouco da incômoda pressão de suas bases eleitorais, geralmente alimentada por pedidos de cumprimento de promessas feitas como estímulo eleitoral.
Este movimento sutil, porém perceptível em perspectiva histórica, quase que tornou desnecessário o quesito "popularidade" para auferir um mandato. A primeira vista, um "sonho" para os setores que desejam tratar seus mandatos diretamente com sua "clientela".
Antes precisava-se de votos, para depois ir atrás do financiamento. Depois de tanta intervenção da justiça eleitoral, agora precisa-se de financiamento, para só depois buscar votos.
Estes parlamentares satisfeitos delegaram a tarefa de regulamentação das eleições a uma série de fascistas togados, o TSE, que se reuniam com o partido do Ministério Público para que juntos determinassem os rumos da Democracia (parece que agora começam a digladiarem-se pelo butim da Democracia violada). 
Associada de forma inexorável a esta dinâmica, a mídia passou a ser a fiadora das expectativas que ela mesmo criava, mas que sabia falsas: a de que a higienização da política daria às elites, e a própria mídia, a condição de manter domesticados os humores eleitorais brasileiros, represando qualquer avanço que ameaçasse qualquer privilégio de que ela e e seus sócios são beneficiários.
Claro que no plano simbólico, e do ethos conservador brasileiro, a mídia e seus sócios obtiveram algum sucesso e legitimidade para desconstruírem alguma imagem (positiva) da política e dos partidos.
Mas o que os "teólogos da mídia" não conseguiram capturar é que em se tratando de fenômenos sociais e dos humores das classes, não há como projetar expectativas planas.
Estão presos em um dilema, quem sabe trilema: esvaziaram a dimensão e participação popular das campanhas e do processo político a tal patamar que o governo central de esquerda consegue controlar as variáveis sem maiores esforços. Por outro lado tanta difamação da política e dos políticos não confere a mídia credibilidade para indicar os seus, ainda que subliminarmente. Na outra ponta, o afastamento da mídia da realidade lhe retira capacidade de interagir com ela, ao menos da forma desejada e controlada.
O caso das manifestações de junho é um exemplo clássico desta esquizofrenia.
Sim, o mesmo cidadão que afirma detestar a ação partidária e política de um lado, confere ao PT, partido mais atacado pelo consórcio mídia-elites, mais de 30% de admiração, e ato contínuo, consagra seu avanço permanente desde 1982, culminando com três mandatos presidenciais, a caminho do quarto.
O mesmo cidadão que infesta redes sociais ou dissemina platitudes sobre o julgamento-linchamento da ação 470 é capaz de não contaminar suas decisões em manter no governo aquele grupo que imagina ser capaz de melhorar ainda mais a sua vida, que tem a certeza que melhorou bastante.
Isto tudo porque o consórcio conservador esquece que há uma dimensão real na vida das pessoas que o discurso midiático, repercutido por estas próprias pessoas, não consegue refletir.
Algo paradoxal como o fato de que são religiosas a maioria das mulheres que praticam e morrem (as pobres, é óbvio) fazendo abortos clandestinos.
E na bem sucedida tarefa de sequestrar o debate político em esferas de manipulação e desinformação, a mídia pagou o preço não só da falta de credibilidade, mas principalmente da incapacidade de ler o público que a lê.
Como se o jornalismo político passasse a acreditar nas novelas e nos personagens que os outros núcleos da rede produzem, e tratassem-nos como gente de verdade.
Estão no epílogo, e não há final feliz para esta mídia partidarizada, muito menos reprise.
Já vai tarde.

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