domingo, 12 de janeiro de 2014

A cidade e seus "despertencidos".


Um dos temas polêmicos da atualidade tem tudo a ver com o processo que alimenta os projetos (e os não-projetos) de ocupação das cidades brasileiras, o que conhecemos como urbanização.
EM SP chamam de "rolezinhos", no RJ podemos chamar de "bondes", e no ES eu não sei como chamam.
Mas são reuniões de grupos juvenis, que se mobilizam por redes sociais, e se deslocam em grupos para "ocupar" os templos de consumo capitalista, os playgrounds da classe mé(r)dia por excelência, os shoppings centers.
De um lado, a elite comerciante e seus consumidores legitimando medidas de força do aparato estatal (polícia) e instrumentalizando medidas judiciais restritivas, e de outro, intelectuais, os jovens e outros grupos que defendem o direito de ir e vir.
É irresistível uma abordagem sociológica ou a sociologização de determinados fenômenos sociais, e de certa forma, a Sociologia oferece um instrumental teórico que satisfaz boa parte de minhas expectativas, mas não todas.
Acho complicado dar uma dimensão exata dos chamados "rolezinhos", um tipo específico de "flashmobs" juvenis, possibilitadas pela fluidez de informação das redes sociais e das traquitanas eletrônicas, apenas com noções empíricas.
De certa forma, esta mobilização em torno de temas específicos (torcidas de futebol são outro exemplo) é próprio da juventude, e que pode se estender até a débeis mentais considerados adolescentes tardios, que não correspondem idade biológica com mental (outro traço muito comum na sociedade da obsolescência).
Mas não é um fenômeno inédito ou adstrito a Idade Virtual.
O cinema hollywwodiano explorou estas manifestações à larga, seja na saga James Jean, seja com a contracultura hyppie, e outras comunidades.
O principal mito ocidental, ou melhor, os principais mitos ocidentais cultuados desde muito tempo são: reunião por afinidade, mediação de violência, contestação do estamento e rito de passagem. O outro é a guerra, outro tipo de manifestação institucionalizada de violência juvenil e pós-adolescência, mixado ao mito do heroísmo com propósito.
Dito isto, vamos a nossa opinião:
Há um pequeno erro conceitual nas análises que buscam limitar estes movimentos a conflitos sociais determinados pela exclusão econômica ou tentativa de se afirmar um grupo ou classe pela força política de sua ascensão sócio-econômica. Este discurso perigoso acaba por ratificar a noção de que tudo se resume a dimensão do conflito entre consumidores tradicionais e os "novos consumidores".
Este discurso, ato contínuo, remete a posição paranoica e classista da elite paulistana e comercial de SP e de outros estados, e dos "bondes" (no RJ) e "rolezinhos"(em SP). Tivemos caso semelhante em um shopping em Vitória, ES, com repercussão parecida: de um lado a paranoia, de outro a sociologização do tema.
Até aí tudo bem. Mas a reação não se dirige a enfrentar legiões de consumidores que optaram por expressar sua adesão ao consumo de forma de forma heterodoxa (desordenada e vandalizadora).
A reação é bem mais complexa, e pode ser que nem todos os atores estejam cientes disto, até porque parecem que todos reproduzem gestos e reações típicas que nos iludem a acreditar que tudo passa por um contexto economicista-sociológico.
Não há, ou pelo menos não há pesquisa e estudo que comprove esta tese, que os "truta e as mina" de SP estejam a reivindicar apenas o direito de subverter a pequena ordem privada capitalista que está confinada nos espaços-templo de consumo e seu entorno.
Ou que estejam inconscientemente escolhendo ocupar shoppings ao invés de reivindicar bibliotecas, parques e outras facilidades públicas de lazer e cultura. Não é só isto, embora estes sejam componentes plausíveis.
É mais que isto.
É o direito à cidade que está sendo reivindicado, ainda que de forma caótica, e manifestada com a linguagem simbólica de violência para quem só teve este tipo de interlocução com as formas simbólicas E REAIS de violência da cidade sobre si mesmos, e que podem ser geograficamente, fisicamente demonstradas.
O que estes jovens estão à dizer é: "nenhum espaço está à salvo, todos os lugares nos pertencem".
Mas por que estas manifestações se dirigem especificamente a shoppings e não há outros espaços de alto consumo ou de convivência da elite, como restaurantes, ruas como Oscar Freire, etc?
Porque os shoppings centers são, justamente, os espaços privados que tomam a cidade (privatizam) sob a fantasia de se constituírem em locais de civilidade pública possível, ou seja, a do consumo.
Esta é a falácia (da sociabilidade higienizada pelo consumo) que devora enormes faixas das cidades e seus recursos (água, áreas verdes, etc), complicações do ir e vir, segurança, etc.
Neste sentido, na minha modesta opinião, os que reduzem estes movimentos a uma questão sócio-econômica, erram ao identificar nestes jovens uma tendência a querer manifestar sua forma de entendimento da inclusão pelo consumo.
Não...é o contrário: a invasão destes espaços é um grito, ainda que alienado e sem noção ideológica de si mesmo, de enfrentamento do consumo como única possibilidade de sociabilidade possível.
É precioso o momento. É preciso entendê-lo.
Eles querem estar ali "por estar", ainda que de forma ruidosa. Mas na cidade dos shoppings e dos ricos contra os pobres, ninguém pode estar em nenhum lugar apenas por estar.
Tudo tem que ter um motivo e um objetivo, sempre dentro da lógica econômica.
Hoje, a cidade nos "despertence".


2 comentários:

Anônimo disse...

milton santos chamava de "rugosidades do espaço", há mais de vinte anos.

douglas da mata disse...

Boa parte da grandiosidade de sua obra, e de tantos outros que são fundamentais na construção do conhecimento é esta atualidade.