domingo, 8 de dezembro de 2013

Petróleo, sangue e hipocrisia, os combustíveis do capitalismo!

Vem da página eletrônica do The Independent mais uma matéria sobre o que já sabemos há tempos...

Da lavra de Patrick Cockburn, com o título Mass murder in the Middle East is funded by our friends the Saudi (Assassinato em massa no Oriente Médio é financiado por nossos amigos os Sauditas),  o texto reafirma a noção de que a "war on terrorism" é apenas mais uma "diversão" ou contrafação para iludir politicamente os incautos, e justificar ações unilaterais e autoritárias no campo geopolítico e nos tabuleiros políticos nacionais...

Não é difícil estabelecer um vínculo com interesses econômicos específicos de corporações que têm no negócio bélico-energético sua razão de existir, e que não titubeiam em negociar com os financiadores e assassinos dos soldados que morrem (e matam em escala bem maior) pela tolice do patriotismo...

Estas histórias são recorrentes, mas nunca é bom relembrar, até porque, eles fazem tudo para esqueçamos...

O texto traz duas evidências interessantes, e o blog destaca:
Evidence for this is a fascinating telegram on "terrorist finance" from US Secretary of State Hillary Clinton to US embassies, dated 30 December 2009 and released by WikiLeaks the following year. She says firmly that "donors in Saudi Arabia constitute the most significant source of funding to Sunni terrorist groups worldwide". Eight years after 9/11, when 15 of the 19 hijackers were Saudis, Mrs Clinton reiterates in the same message that "Saudi Arabia remains a critical financial support for al-Qa'ida, the Taliban, LeT [Lashkar-e-Taiba in Pakistan] and other terrorist groups". (A prova disto é um fascinante telegrama sobre "finança terrorista" da Secretária de Estado, Hillary Clinton para as embaixadas estadunidenses, datada de 30/12/2009, e divulgado pelo WikiLeaks no ano seguinte. Ela diz convictamente que "doadores na Arábia Saudita constituem a mais significante fonte de financiamento de grupos terroristas Sunitas ao redor do mundo". Oito anos depois o 11/9, quando 15 dos 19 sequestradores (dos aviões) eram sauditas, Srª Clinton reiterou a mesma mensagem que "Arábia Saudita permanece como um suporte financeiro principal para al-Qa'ida, o Talibã, Let (Lashkar-e-Taiba no Paquistão) e outros grupos terroristas.

Mas o texto de Cockburn traz uma pergunta interessante:
Por que os EEUU e aliados parecem tão lenientes com os sauditas, diante de tantas evidências?
Cockburn (e depois, Moore, em seu documentário) alega que as respostas são tão óbvias quanto as provas de ligação entre "heróis" e "bandidos", e diz:

Primeiro, os sauditas com os bilhões de petrodólares e os bilhões de barris de reservas, compram seu passaporte para o centro hegemônico, desde a construção de cidades futuristas cheias de traquitanas tecnológicas ocidentais, carros luxuosos e todo o mercado de alto consumo, enfim, um sócio exótico do clube dos poderosos do planeta...

Em um mundo se esfarelando em crises cíclicas, "novas" fronteiras para expansão da acumulação capitalista (principalmente imobiliária, como nos ensina David Harvey em seu livro, O Enigma do Capital e as crises do capitalismo - Boitempo Editorial), não se pode desprezar um "parceiro" como o das "mil e uma noites"...Já seria muita coisa se não fosse um dado:

Em 2001, os sauditas detinham investimentos da ordem de 860 bilhões de dólares, na época, algo em torno de 6 a 7% do PIB estadunidense...6 a 7% do american dream...Sabemos todos que dinheiro não leva desaforos para casa...

O outro motivo, menos óbvio, é que os terroristas sunitas (financiados pelos sauditas) se dividem em duas estratégias: enquanto os que estão ligados a al-Qa'ida têm nos EEUU o alvo preferencial, os demais grupos têm nos xiitas os alvos preferenciais, e os matam (os xiitas) aos milhares nos territórios ocupados pelos EEUU e aliados, sendo que os xiitas nestes países configuram os principais adversários dos interesses geopolíticos da "aliança ocidental", como na Síria, Irã, Iraque e Paquistão...

Ou seja, estranhamente, são os terroristas que dizem combater que ajudam os EEUU a fazer o trabalho sujo...

Junto a esta reportagem de hoje, 08/12/2013, está o filme bem mais antigo do documentarista Michael Moore, que se tornou famoso ao futucar cada ferida do "sonho americano" com sinceridade até "exagerada" (alguns argumentam, para detratar suas críticas que Moore tem ingerência inusual para um documentarista, que supostamente,, deveria ficar neutro em relação ao seu objeto - documento)...

O filme está disponível em versão legendada aqui: https://www.youtube.com/watch?v=rxiNYUFIiJ4

Nestes tempos, onde as amplas possibilidades de acesso a informação contrastam, não por coincidência, com uma radical inflexão conservadora e manipuladora dos meios tradicionais  e empresarias de comunicação, talvez na tentativa desesperada de manter algum controle sobre esta transição em curso, como já fez em outras eras, quando as plataformas de produção, disseminação e controle da informação experimentaram mudanças vastas e estruturais, não é demais desconfiar de tudo que nos é apresentado como um relato dos fatos (notícia)...

A "fabricação" de inimigos públicos nº 1 não quer dizer, na maioria das vezes, que estes personagens ( como Bin Laden) não sejam facínoras sanguinários, extremistas sádicos que colocam suas crenças acima das vidas e direitos de outras pessoas e culturas, mas a verdade é que os "heróis" que os caçam não são melhores que os vilões...tanto no caráter, quanto na violência que propagam para "fazer justiçamento"...

A promiscuidade dos EEUU e aliados com os financiadores sauditas do terrorismo é uma prova cabal de que o jogo capitalista mundial é muito mais pesado que supõe nossa ingenuidade de país "amigo" do todos, e "pacifista" por natureza...

Os eixos do "bem" e os eixos do "mal" são bem mais parecidos do que aparentam...

Os episódios de espionagem dos EEUU e a violação de soberania de todos os países ocidentais relevantes (Alemanha, Brasil, Canadá, França, etc) é outra evidência deste modus operandi...

Nenhum automóvel no mundo é movido só a gasolina...ali dentro vai uma boa dose de hipocrisia e sangue... 

Se tiver paciência, vale ver o filme de Michael Moore...O texto de Cockburn no The Indepentent de hoje é mais leve, mas não menos importante...Boa leitura e boa reflexão...

3 comentários:

Anônimo disse...

Douglas: Li o artigo e verei o filme daqui a pouco. Aprendi bastante aqui no seu blog embora discorde de alguns pontos.
Mas antes de ver o filme, me assalta uma dúvida que, espero, você possa responder: você fala sobre "uma radical inflexão conservadora e manipuladora dos meios tradicionais e empresarias de comunicação" que, para mim é perfeitamente nítida. Apesar das facilidades de comunicação atuais, nunca se manipulou tanto as notícias. Em seguida você menciona a possibilidade de isto se dever a uma tentativa de "manter algum controle sobre esta transição em curso".
Que transição seria esta? Você acredita que estamos em um momento de transição em que a sociedade vai promover uma onda de oposição política ao sistema capitalista?

douglas da mata disse...

Caro participante,

A comunicação é um bem imaterial da Humanidade, e pode-se dizer, via de regra, que o ato de se comunicar, ao lado da compreensão de si mesmo, do outro e do ambiente (raciocinar) é que dá a verdadeira dimensão desta condição humana...

Desde os tempo imemoriais, os sistemas produtivos, os arranjos de classe, as elites que controlam os Estados ou aquilo que, no início, se parecia com algum arranjo estatal(aldeias, vilas, cidades-estado, burgos, feudos, etc) sempre mantiveram a produção e disseminação da informação sob controle, quer seja pelos meios formais, como educação, quer seja nos meios informais, tradição oral, etc.

Com o advento do capitalismo, e também por causa dele, as possibilidades de produção e disseminação foram elevadas a categorias nunca vistas, e podemos, para facilitar a compreensão, dividir estes processos em etapas, que por isto, experimentam transições, que por sua vez, coincidem, não por acaso, com os períodos de reciclagem/transição/crise/expansão capitalista...

Com a invenção da imprensa de tipos, por Gutemberg, houve uma feroz ampliação das possibilidades de democratização do saber, que estava restrito às classes nobres e o clero, justamente aquelas que representavam o poder contra o qual a incipiente burguesia se voltava...

Logo, junto com os ideais que alimentaram o capital político das classes que viriam a derrubar o Ancien Regim, e com a acumulação do capital mercantil, houve uma explosão dos meios de comunicação:

Desde o que foi chamado de "renascentismo", com a despertar de toda sorte de expressão artística, intelectual e inovações tecnológicas, até aquilo que os franceses chamavam de panfletos apócrifos, distribuídos livremente pelos Camelôs pela cidade, que tragava como humor e picardia os gestos e trejeitos da nobreza decadente, disputando espaço com o monopólio do saber culto da época, hegemonizado pelas classes nobres e o clero...

Algo parecido com os blogs de hoje...

Mas assim que o sistema capitalista se estruturou, também houve a concentração da disseminação de informação e sua produção ficou restrita aos arranjos empresariais, os journais (diários), que dariam moldes a indústria que evoluiu até hoje e que conhecemos como PIG...

Do lado estatal, a demanda pela alfabetização (especialização) dos trabalhadores incorporados às recém-criadas linhas de produção exigiam destes Estados Nacionais a criação de sistemas educacionais, que por sua vez, se ampliaram a possibilidade de aquisição de algum conhecimento(ainda que instrumental) pelos trabalhadores, por outro, permitiu o confinamento de ideias em um forte aparato de controle ideológico (escola).

É bom entender que estas mudanças tecnológicas implementadas pelo capitalismo, e que afetam o modo de produção de informação, como um paradoxo permanente e paralelo aos paradoxos econômicos (criar e concentrar riqueza, e explorar até o limite da classe trabalhadora, que precisa do mínimo para viver, mas tem que ter algum para consumir e manter a roda girando) acontecem de tempos em tempos:

Foi assim com a transição da pintura para a fotografia, do cinema mudo para o falado, o rádio, a TV e agora a internet...

Todas estas mudanças ofereceram significativo risco ao establishment capitalista, ao mesmo tempo que catapultaram suas possibilidades de conexão e fruição de riquezas e informação ao máximo que era possível em cada época...

A possibilidade de que a rede se converta em mais um instrumento de domínio é muito mais real que de ser tornar uma ferramenta revolucionária...

É só observar o comportamento da Justiça, dos legislativos e de alguns setores progressistas da própria rede em relação a certas "etiquetas" e usos do sistema de informação mais poderoso que temos...

Todas estas manifestações destes sistemas formais de controle (empresariais e estatais) assediam a liberdade que é fatal ao capitalismo pela ferramente que ele mesmo criou...

Sendo assim, eu te respondo que a sua resposta está em permanente construção....

Um abraço, e espero ter me feito entender...

Anônimo disse...

Fez sim. Foi até generoso demais com seu tempo. Agradeço a dispinibilidade e o conteúdo da análise histórica.