domingo, 29 de dezembro de 2013

Médicos de verdade.

Um pouco da experiência, in loco, trazida da Amazônia para os leitores. O texto da Vera Paoloni foi publicado no blog do Miro:

O exemplo dos médicos cubanos no Pará

Por Vera Paoloni, em seu blog:

Melgaço, no Marajó, Pará, tem o pior IDH - Índice de Desenvolvimento Humano do país, segundo o Atlas de Desenvolvimento Humano no Brasil 2013, divulgado no final de julho. São 24 mil habitantes, dos quais 12 mil não sabem ler e nem escrever, apenas 681 pessoas frequentam o ensino médio, saneamento é zero, saúde é rarefeita e internet só de vez em quando e apenas por celular. O melhor de Melgaço é o povo, as pessoas, atestam Maribel, Oyainis e Maribel as três médicas e o médico cubano Orlando que estão morando e trabalhando no município marajoara desde 21 de setembro, há quase 3 meses. Eles integram o programa audacioso e certeiro "Mais Médicos", que leva assistência e médicos a municípios carentes e vulneráveis. Ponto pro Ministério da Saúde e pra presidenta Dilma Rousseff.

Se o povo é o melhor de Melgaço, o pior é a água. Ribeirinho, Melgaço não tem água tratada e nem saneamento básico. Isso gera micoses e contaminações genitais. Há gravidez muito precoce e um índice alarmante de hipertensão que atinge muitos jovens, resume o quarteto médico cubano que atende 24 pessoas, no mínimo, todo dia em Melgaço, de segunda a sexta. Com a consulta média de 30 minutos, salvo situações mais complicadas e que exigem mais tempo. Em todas as consultas, a medicina preventiva em ação: tratar a água com hipoclorito de sódio, ferver a água, só pra citar um exemplo.

Pobreza e generosidade

Quase a metade, 48% da população de Melgaço é pobre, aponta o Mapa da Pobreza do IBGE publicado em 2003 Grande parte da população do campo tem remuneração de R$ 71,50, fazendo com que as famílias na zona rural sobrevivam, em média, com R$ 662 por mês - menos que um salário mínimo. As distâncias são grandes e se leva até 15 dias pra cruzar o espaço de mais de 6 mil quilômetros. Com toda essa adversidade, o povo de Melgaço é acolhedor e generoso, garantem as médicas e o médico cubanos.

15 horas de barco

Em português entrevistei as três médicas e o médico ontem (19.dez) à noite, em Belém. Na capital, fizeram um treinamento na área de saúde e retornam segunda-feira 23, bem no período de recesso natalino. De Melgaço a Breves, uma hora de barco e de Breves a Belém, mais 14 horas. Ao todo 15 horas pra chegar em Belém, atravessando a baía do Marajó. Maribel Saborit, Oyainis Santos, Orlando Penha e Maribel Hernandez, médicas e médico cubanos se conheceram não em Cuba, país em que nasceram, estudaram, se formaram, casaram, tiveram filhos e trabalharam. Foi em solo brasileiro, em Brasília, que os quatro se encontraram pela primeira vez, em agosto. Agora trabalham em Melgaço e lá ficarão por 3 anos.

9 anos de estudo

Nem a imensidão de água da baía do Marajó, o calor ou as travessias de barco até as comunidades assustam o quarteto médico cubano. Os quatro trabalharam em missões humanitárias na Venezuela e na Bolívia. Estudaram os nove anos da formação de medicina cubana: 6 da medicina geral e mais 3 da medicina integral, algo semelhante à residência médica brasileira, em que a especialização é feita juntamente com trabalho prático. E os quatro trabalhavam em Cuba.

Maribel Saborit tem 21 anos de profissão. Maribel Hernanez, 19 anos. Oyanis, 8 anos e Orlando, 22 anos. Cuba orientou como critério de participação no programa Mais Médicos, o mínimo de uma missão humanitária. Orlando esteve no Paquistão e Venezuela. Oyainis, na Venezuela. Maribel Saborit e Maribel Hernandez, na Venezuela e Bolívia. Além dos 9 anos de estudo, atuação em uma missão humanitária por 3 anos.

Um médico em casa? 

Embora o quarteto fale num bem compreensível portunhol, indago se não falarem bem o português fez com que algum paciente deixasse de entendê-los. "De jeito nenhum diz Oyainis. A gente olha pra eles, conversa e se entende. Fazemos um amplo interrogatório, anotamos, fazemos exames físicos completos".

E Maribel Saborit completa: "o povo é muito acolhedor, generoso e agradecido. Fomos a uma comunidade ribeirinha, fizemos travessia de barco e na casa de um senhor diabético de 86 anos ouvimos, depois do exame: 4 médicos aqui, quatro médicos me visitando em casa, meu Deus posso morrer feliz. Nunca tinha visto um médico"!

Sem essa de dr, dra 

Fico surpresa quando me dizem que se apresentam aos pacientes como Maribel, Oyainis, Orlando. Assim, sem dr., dra, termos que aqui no Brasil são acrescidos à profissão de médicos. Maribel Saborit ri e me diz: "por que dr., dra? Somos iguais, só tivemos mais chance de estudar, ter uma graduação. Mas nossa identidade é a mesma de quando nascemos".

Nem açaí e nem farinha 

Como a jornada de trabalho em Melgaço é de 40 horas semanais, igual a Cuba, pergunto o que fazem no final de semana pra driblar a saudade de casa, já que as famílias ficaram em Cuba. "Lavamos e passamos nossas roupas, limpamos nossos quartos, lemos, entramos na internet pra passar correio eletrônico, descansamos". E Orlando informa que em julho vão de férias a Cuba.

Os quatro me contam que Belém e Melgaço são "mais quente que Cuba", mas isso não atrapalha. Gostam da comida à base de peixe, frango, carne, arroz, feijão. Só açaí e farinha não faz parte do cardápio deles. "Muito forte o açaí" diz Maribel Saborit sorridente. Eu afianço a elas e ele que não sabem o que estão perdendo. E rimos todos.

Internet, problemão 

O contato com a família é via e-mail, pois falar pelo celular é muito caro. Cada um tem um tablet 3G, que faz parte dos equipamentos do Mais Médicos. E eles compraram um pacote basicão da Vivo, "mas os créditos somem muito rápido", se queixam. Como falar por telefone é caro demais, sobra conversar por e-mail na internet do celular.


Eu digo a elas e ele que quem mora e luta na Amazônia quando vara uma notícia pro mundo, rompe o cordão sanitário do isolamento em que nos encontramos. O acesso à internet poderia ser uma forma de ajudar a romper esse cordão, mas temos o pior acesso de todas as cinco regiões do país e no Marajó, o pior acesso do Pará. Estamos ilhados, portanto.

Rendimentos compartilhados

Afinal, o que vocês ganham de salário fica com vocês ou vai pra família, indago? "Parte fica conosco, parte vai para nossas famílias e outra parte vai para o nosso governo, para ajudar o nosso povo cubano", me diz Maribel Hernandez. "Mas o que ficamos é suficiente para nos manter, para lazer. A prefeitura de Melgaço paga nosso alojamento e esse é muito bom: tem um quarto para cada um de nós, com banheiro, cama, ar condicionando. Temos mais que suficiente", fala Maribel Saborit.

E Oyainis completa: "A saúde em Cuba precisa da ajuda de todos nós, porque o país sofre um embargo econômico que é muito doloroso para nossa gente. Então, a ajuda precisa vir de nós, cubanos e de nossos aliados".

Faz parte da nossa formação retribuir

A conversa vai chegando ao fim, pois há várias pessoas chamando o quarteto médico cubano e querendo tirar fotos, indagar, conversar, rir junto. E eu faço a última inquirição: o que fez vocês saírem de Cuba e vir pra Melgaço? E Maribel Saborit diz": olha, faz parte da nossa formação ajudar países e pessoas mais necessitadas com nosso conhecimento que foi dado de forma coletiva e gratuita. Só estamos retribuindo".

Encerramos a conversa e eu fico matutando que grandeza é essa de Cuba e do seu povo que tanto tem a nos ensinar! Se eu conheço quantos médicos do meu país que fariam algo semelhante aqui mesmo. Em janeiro vou a Melgaço numa caravana formativa da Fetagri/CUT no Marajó. Quero rever meu novo quarteto camarada e amigo e conversar com o povo atendido pelas médicas e pelo médico cubanos. (V.P)

E só finalizando mesmo: fizemos uma pequena homenagem às 3 médicas cubanas e ao médicos cubano ontem à noite na formatura de encerramento do curso de Formação de Formadores promovido pela Escola Chico Mendes da Amazônia e da qual participamos 46 pessoas, de todas as CUTs da Amazônia.

4 comentários:

Anônimo disse...

Essa estória de satanizar os médicos brasileiros porque querem ganhar bem e idolatrar os cubanos com casos como esse é um engano. Tem a ver com dinheiro também. Os cubanos estão com essa disposição toda porque estão ganhando 10, 20 50 vezes o que ganhariam em Cuba. Simples assim. Paguem a eles o que ganham lá pra ver se aparece algum.

Anônimo disse...

Ah...pra completar...eles devem estar adorando internet. Como é lá no país de origem?

Anônimo disse...

Olha...lendo esse texto chego à conclusão que o programa "Mais Médicos" é realmente a solução pra saúde em regiões como esta descrita. Realmente ponto pra Dilma. Os médicos brasileiros não querem ir, trabalho pra eles não falta, os cubanos ficam felizes em virem. Bingo...resolvido.

douglas da mata disse...

Comentarista das 22:15 e 22:17, que parecem ser a mesma pessoa,

É preciso um pouco mais de estofo intelectual para debater o tema, e não digo que você não o tenha, talvez esteja só com preguiça de usar, o que dá no mesmo resultado, vamos lá:

01- Ninguém, nem o governo, nem o PT, ou seus simpatizantes/militantes, muito menos este blog disseram que o programa Mais Médicos é a solução para a saúde pública no Brasil. NUNCA!

Um país com 500 anos de abandono nesta área não pode pretender esgotar soluções em 10 anos, e muito menos esperar isto de um governo ou dois.

Nem a maior economia do mundo, os EEUU, mantém um sistema de saúde público até hoje, prova de que não é tão fácil quanto parece.

Tampouco estes governos, se forem responsáveis(como creio que é o caso dos governos petistas)disseram que o fariam.

É um programa, que se destina a atacar um problema estrutural, porém setorizado das políticas públicas do setor: a oferta de médico.

Nosso país tem, nas regiões mais pobres do país, menos de 1 médico por 1 mil habitantes.

Cuba tem 7.

O recomendado é algo pela OMS entre 3 a 4.

O problema da saúde é o financiamento (o setor público é sub financiado, e aina subsidia o setor privado), o que gera distorções como médicos mal distribuídos, excesso de especialização de um lado, e de outro a proletarização do médico (que tem que ter duzentos vínculos para manter seu padrão de renda e atender suas expectativas).

Este processo é alimentado pela indústria farmacêutica e de equipamentos, e pelo fenômeno chamado hospitalocentrismo, que privilegiam procedimentos (internações, cirurgias, exames de altíssima complexidade) em vez de prevenção básica (muito mais barato e eficiente).

02- Outro ponto é que este blog nunca disse que médicos devem ganhar pouco, ou que não devem ter preferência para ocupar as vagas preenchidas pelos cubanos, e o próprio programa prevê esta condição, mas e daí? Quantos médicos querem sair da sua zona de conforto para clinicar no meio do nada, para pobres e indigentes?

Ainda assim, mesmo que discorde, tenho que respeitar a opção destes médicos (que se recusam a clinicar longe dos grandes centros), mas de novo eu pergunto:

Por que a birra com o programa?

Falando de forma direta para que até você possa entender:

Não cagam nem desocupam a moita? É isto?

03- Quanto a internet, meu caro, é preciso de lembrar que o "país mais livre do mundo", aquele que espiona presidentes e empresas estatais de "aliados", e que mantém uma masmorra medieval em Guantánamo (com presos sem acusações formal há 10 anos), impõe um severo embargo a ilha cubana, o que torna certas coisas corriqueiras muito difíceis por lá.

Estranho que formar médicos deve ser uma coisa mais fácil que ter boas conexões de internet...

O Brasil tem conexão (caríssima) de internet, e melhor que a cubana, mas não consegue ter uma rede de atenção básica, nem espalhar médicos pelo seu território, ainda que ofereça pequenas fortunas como salários.

Algumas doenças erradicadas em Cuba ainda matam brasileiros pobres.

Quem bom que as regiões mais ricas do Brasil, com a elite e a classe média não tenham que escolher: ter bons médicos ou internet. Nem todo mundo tem este luxo.

Cuba não pode escolher: tem bons médicos.

As populações amazônicas também não, e só têm médico graças a Cuba.

Perguntem a eles se querem internet?