domingo, 29 de dezembro de 2013

A realidade e a imagem da realidade.


Por muito tempo, a possibilidade de se questionar a imagem da realidade que as empresas de mídia faziam era algo muito difícil, quase que impensável.

Em seus primórdios, o arranjo capitalista global ampliou a perspectiva da necessidade de comunicação e disseminação de conhecimento (informação).

Antes do capitalismo tornar-se hegemônico, e sua classe (burguesa) ascender ao poder, o conhecimento e sua produção eram monopólio das classes nobres e do clero.

Na transição dos feudos, e dali para os Estados Absolutos, começaram a surgir formas avulsas de construção de saber, que coincidiram com a explosão de alfabetização proporcionada pela Reforma Protestante, que necessitava de mais leitores que interpretassem as escrituras de acordo com a nova ética religiosa que se anunciava, sem intermediários, propondo que cada homem fizesse de si mesmo merecedor das bençãos divinas.

Não é à toa que a prensa de tipos móveis, invenção de Joahannes Gutenberg, imprimiu a Bíblia como primeira obra, e é também um marco para a Imprensa.

É preciso anotar que houve, concomitantemente, uma intensa produção de conteúdos em outras formas de manifestação do conhecimento, seja nas ciências e/ou nas artes.

Demorou apenas um pouco até que a elite capitalista entendesse que a possibilidade criada por ela (a circulação de ideias, ciência, arte e conhecimento), conscientemente ou não, para disputar e combater o domínio ideológico do sistema que queriam derrubar, poderia trazer incômodos a necessidade de manter o domínio ideológico sobre as outras classes sociais quando assumissem o controle, naquela época e até hoje, a classe trabalhadora. 

Foi para trazer controle sobre a livre circulação de informação que se criou, de um lado, todo um aparato normativo específico (leis de propriedade intelectual, patentes, direitos autorais, crimes de opinião, etc) e de outro, empresas destinadas a sistematizar a indústria da informação, aniquilando formas marginais e alternativas de comunicação social.

É desta época, concomitantemente, o início do confinamento da produção do saber universal (holístico) em compartimentos estanques que especializavam este saber. Tudo para possibilitar uma uniformidade discursiva que garantisse mais facilidade de controle ideológico nas Escolas.

Foi em ambiente de livre circulação de ideias e conhecimentos, com produção de saber com bases universais que surgiram Da Vinci e outros.

Desde então, não por acaso, toda e qualquer ideia de liberdade de expressão está subordinada aos interesses das corporações de mídia, e toda ideia de livre pensar sempre esteve fora das escolas.

De tempos em tempos, o capitalismo, por sua imperiosa necessidade de extrapolar os limites físicos para a acumulação de riquezas, e para transformar estas riquezas em fonte de acumulação composta, ou seja, a riqueza reproduzindo-se por si mesma, criam inovações tecnológicas e outros meios de disseminação das informações que julga importantes.

Durante estes períodos, demandas por novos processos que sustentem a implantação destes novos meios são criadas, contingentes gigantescos de pessoas são colocadas à margem em algum lugar do planeta, novas fontes de energia e matéria-prima são exigidas, enfim, novos mercados surgem e destroçam os que sucederam.

Há reflexos na mídia e suas corporações empresariais. Foi assim com o telégrafo, o rádio, o telefone, a TV.

É assim com a internet.

Estamos assistindo mais uma transição, ou melhor, mais um ciclo de reciclagem das formas de acumulação capitalista, e a tão celebrada "liberdade" da rede mundial de computadores não resiste a uma análise mais séria sobre o assunto.

O episódio da NSA-PRISM, e a espionagem de governos, empresas e pessoas, denunciado por Edward Snowden, hoje exilado na Rússia é um bom lembrete sobre quem é que dá as cartas quando se trata de disseminação de informação.

A verdade é que as empresas que dominam o setor ainda não conseguiram dominar e ultrapassar, de forma coesa, o modelo anterior capitaneado pela TV. Também tem pesado a resistência que setores alternativos e avulsos (blogs, por exemplo) têm oferecido, juntamente com o hacker-ativismo, que ameaça estragos jamais imaginados quando se tratava de sabotar transmissões de TV ou de rádio, que exigiam uma logística muito maior e complexa.

No Brasil, o intenso lobby capitaneado pelo Deputado Eduardo Cunha (PMDB-RJ), conhecido por suas relações suspeitas com tudo que há de nefasto neste país, ataca ferozmente a ideia de neutralidade da rede, e vocaliza o desejo das empresas monopolistas do setor, que querem um acesso remunerado de acordo com o tipo de informação ou serviço acessado, criando assim, párias digitais ou excluídos cibernéticos.

Embora os meios mudem, a mensagem é uma só: Eles querem dizer para você qual é a imagem da realidade.

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