sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

A cidade e as possibilidades.

É comum enfrentarmos a rotina de fim de ano com o lançamento de olhares de retrospectivas e outros de perspectivas. Faz parte do nosso ritual, incorporado como cultura dos meios de comunicação, empresas, instituições, enfim, por todos os aspectos da vida em coletividade.

Chamamos isto de esperança ou de renovação!

Mas estes atos, supostamente destinados a romper paradigmas e inventar outros, carregam o pesado fardo dos fatos passados, que insistem em nos lembrar que a novidade está inexoravelmente atada àquilo que pretende superar.

Somos, no jargão surrado, processos, dialeticamente permanentes.

Assim são as nossas cidades, ou no caso que nos interessa, a nossa cidade, Campos dos Goytacazes.

Olhada de longe, sem o ruído das paixões políticas locais (que também parecem superficiais e artificiais), nossa cidade parece triste, vítima de uma acomodação de injustiças e conflitos, incapaz de sacudir-se por força de seus movimentos sociais, sendo que eles mesmos parecem fossilizados.

Já dissemos há tempos, blogs, pesquisadores, movimentos, políticos, etc, que a farta provisão de recursos advindos do petróleo pode ter contribuído para esta letargia cívica, mas creio que não é só isto. Esta seria uma redução simplista do problema.

É verdade que o clima de estabilidade e boa governança proporcionada pelas ações do governo federal contribuem para todos os arranjos regionais e municipais, sedimentando uma ideia de permanência ou continuidade.

Poderíamos chamar este momento de maturação institucional, onde aspectos da nossa Democracia, apesar de todos os pesares(como todas as demais Democracias ao redor do mundo), começam a indicar uma serenidade para enfrentar as disputas.

Este é um fenômeno nacional, e só não estão aproveitando esta onda favorável alguns casos raros e restritos, como o governador do Rio de Janeiro e seu grupo político.

Ainda assim, com a possível saída de cena neste ano, o prefeito do Rio de Janeiro poderá ter a distância necessária para recuperar terreno que perdeu, mas por obra do desgaste de sua proximidade com seu mentor, que pelas suas incapacidades.

Mas há algo mais neste sentimento de apatia que impede os moradores das cidades de enxergarem como os espaços urbanos têm sido violentados pela fúria rentista, e como o resultado deste estupro geográfico é que cada surgem mais e mais conflitos, injustiças e problemas, e claro, gastos públicos para remediar o que parece irremediável.

Um paradoxo para tempos de mais conforto econômico que experimentamos. Ignorar este paradoxo é fatal às lideranças que atuam no chamado campo progressista, como o PT.

Falta ao partido, PT, e suas lideranças municipais, falando da seara campista, por exemplo, traduzirem em linguagem um discurso que revele como a gestão da cidade utiliza os recursos públicos disponíveis para privilegiar uns (ricos) e desfavorecer outros (os pobres)!

Algo mais que dizer que a rua está com esgoto à céu aberto, ou que há um buraco ali, ou acolá, neste trabalho inútil de isolar estes fatos (esgoto e buracos) da sua relação de causa-e-efeito, dando ênfase só ao espetáculo da "denúncia", privada de qualquer reflexão. 
Algo como reunir associações de moradores e dizer:

"Olha minha gente, se tem esgoto correndo pela rua aqui, ou terrenos baldios, lixo, mosquito, enfim, se o bairro está uma merda, é porque há bairros onde há muito conforto e organização, utilizados por quem pode pagar pela valorização que faz muito dinheiro para quem vive da venda de imóveis." 
Ou,
 "se você mora em um bairro que não tem nada, ou quase nada, tem que apanhar três conduções para chegar ao trabalho, tem quatro ou cinco vezes mais homicídios, não pode pagar na proporção o mesmo IPTU de quem mora pertinho de tudo, rua arborizada, banco, e tem níveis de homicídios próximos da Suécia. É esta injustiça no pagamento de imposto que empurra você para o pior, como um círculo vicioso."
Por outro lado, é preciso dizer que não é uma coincidência que haja Shoppings Centers cada vez mais bonitos e praças e outros espaços públicos cada vez mais degradados, confinando as relações sociais públicas em  instalações voltadas ao consumo.

Não é um acidente que um estádio de futebol seja demolido, e com ele boa parte da memória da cidade seja  arrancada, e junto as chances de sociabilização de gerações inteiras, com o desterro das tradições entre pais, mães e filhos e filhas da diversão brasileira por excelência para algum canto remoto e inacessível da cidade.

Deveria existir algum partido ou liderança que dissesse em alto e bom som que a gestão da saúde das cidades, e da nossa cidade, abandona o cuidado primário, aquele mais barato, onde 60% dos casos são resolvidos na primeira consulta (dados OMS e DataSus), sem necessidade de exames complexos (e muito caros) de instalações superluxuosas, de super-especialistas com doutorado em Yale, mas ao contrário, o bom e velho médico generalista, o clínico geral, cada vez mais raro na indústria da doença que se transformou a prática médica e as políticas públicas de saúde, ou hospitalocentrismo!

Falta o médico de família!

O modelo de medicina pública praticado nas cidades, sob a direta supervisão dos gestores públicos, alimenta a indústria farmacêutica, a dos equipamentos e procedimentos complexos e de alto custo, e a construção superdimensionada e unidades hospitalares, em suma, um desperdício de dinheiro público permanente, movido por interesses financeiros, e conivência de gestores e da comunidade de profissionais da medicina.

Dizer também que há um rombo provocado pela subvenção pública a indústria dos planos de saúde, pois as prefeituras quase nunca são reembolsadas pelos atendimentos feitos aos usuários dos planos de saúde, como manda a LEI! Sabe-se lá porquê (ou sabemos?).

São coisas simples, que poderiam trazer algum ânimo e vida social a este amontoado de gente que se transformou a cidade.

Gente conformada. Não necessariamente feliz, mas acima de tudo, conformada.

8 comentários:

Roberto Moraes disse...

Boa avaliação.

douglas da mata disse...

Grato pelo comentário generoso.

Anônimo disse...

Esta conivência dos gestores de saúde reflete o modelo de formação atual da medicina. Eles aprenderam assim, este é o modelo. Desde a faculdade.
O assédio de laboratórios e fabricantes de equipamentos de exames ditos 'complexos' é brutal sobre os médicos, que, é claro, gostam muito de ir a Congressos e não pagar o avião ou o hotel.
O modelo de ética rasa está impregnado na saúde de Campos e na saúde brasileira como um todo. Como disse o senador Lobão Filho, filho do ministro Edison Lobão e da deputada Nice Lobão, a que mais faltou o trabalho nos últimos 4 anos: Ética é uma coisa muito subjetiva...
Pois é.
E o pior é que os cubanos não nos salvarão.

douglas da mata disse...

A busca de uma "ética" universal para nortear as disputas políticas que mediam nossas relações sociais é bobagem, e a frase descontextualizada do senador Lobão Filho tinha este sentido, ou seja: são os interesses que prevalecem.

Sendo assim, só a ação cotidiana (e política) consegue determinar o quanto de interesse coletivo prevalecerá sobre interesses particulares.

A banalização ou criminalização da política sob a chantagem da "ética alta" ou "profunda" é tão nefasta quanto os atos criticados.

Médicos cubanos não nos salvarão, porque esta nunca foi a intenção do governo.

Mas um pouco da lógica (ética?) praticada por eles já ajudaria um bocado na mudança dos paradigmas da prática da medicina e da saúde pública brasileira.

Anônimo disse...

Dê uma olhada nisso:

http://www.sul21.com.br/jornal/bancada-religiosa-a-mais-ausente-inexpressiva-e-processada/

douglas da mata disse...

Caro amigo, olhei e só pude confirmar o que já sabia, ou seja, a construção de uma visão preconceituosa contra parlamentares evangélicos, pois veja:

Se considerarmos que 80% dos parlamentares se confessam católicos , ou de forma mais ampla, se eu disser que quase todos eles acreditam em deus, e que boa parte dos deputados e senadores respondem algum processo, e em média comparecem pouco às sessões em plenário, eu poderia dizer:

Todos os parlamentares que acreditam em deus são corruptos e faltosos.

Mas estas estatísticas de nada ou pouco servem para balizar algo.

Com o nível de judicialização da política (e sua criminalização), para deleite dos moralistas hipócritas, será muito difícil que um parlamentar (ainda mais se tiver exercido mandato executivo) não responda a processo, o que não quer dizer que seja culpado (presunção de não-culpabilidade).

Quanto a questão da presença, é bom lembrar que boa parte do processo legislativo se faz fora do plenário(comissões, reuniões de bancada, de líderes, etc), e as votações no plenário são quase sempre por voto de liderança.

Já em relação a iniciativas parlamentares, prefiro deputados compondo blocos parlamentares(até para que defendam o que eu pessoalmente possa discordar) que propondo leis absurdas ou folclóricas.

Um abraço.

Anônimo disse...

Douglas, a prefeitura fez o Cepop, que é um centro de eventos populares e que nada tem de local voltado para o consumo. Existem críticas, mas apesar de tudo é uma obra popular e para eventos populares. A prefeitura está fazendo a Cidade da Criança, local destinado à crianças, um verdadeiro parque popular, e que nada tem voltado para o consumismo, como você disse na postagem. A prefeitura está reformando várias praças e jardins e ainda este ano vai inaugurar várias vilas olímpicas.
Douglas, acho que sua análise e avaliação sobre a prefeitura não está totalmente correta.

douglas da mata disse...

Caro comentarista,

Se você olhar o texto com atenção vai entender o que eu digo.

O CEPOP e as vilas olímpicas têm uso específico, como você mesmo disse.

Enquanto o primeiro se destina a eventos, as vilas estão mais vinculadas as práticas esportivas, mormente relacionadas a estrutura das escolas municipais do entorno.

Mas ainda assim, são iniciativas louváveis.

No entanto, quando eu falo da privatização da cidade, falo de um processo maior que isto, e que nem pode ser combatido com projetos como o Cidade da Criança, algo centralizado em uma cidade que não possui capilaridade de transporte público, e nem qualquer qualidade neste serviço, ou seja, a cidade da Criança tem tudo para atender as crianças de sempre: as mais ricas, cujos pais têm carro, ou morem próximas.

Eu falo da ocupação da cidade pelo público, com a destinação de espaços de convivência simples a este público, sem tanto dinheiro gasto em obras complicadíssimas (e caras).

Falo de bibliotecas municipais integradas com redes digitais gratuitas.

Se a prefeitura está reformando praças e jardins, ótimo.

Mas o problemas de que trato não é "cosmético", é na estrutura, no DNA da cidade.

É verdade que este processo não é só responsabilidade desta gestão, mas ela também tem a sua parcela, porque, afinal de contas, estão no poder há mais tempo e não foram capazes de reverter este processo de privatização urbana, ao contrário, só o alimentaram.

Um cordial abraço, e grato pela participação.