quarta-feira, 11 de setembro de 2013

Há 40 anos...quase nada aconteceu no Chile.

O Chile mergulhava em sua mais longa noite, sem que no céu apontasse uma única estrela, um raquítico facho de lua...Um eclipse total e permanente...

As trevas eram tão completas e densas, que podia-se tocá-la, ou pior, ser tocado por elas...que sufocavam, torturavam, espremiam, estraçalhavam, estripavam, estupravam, sequestravam, emparedavam...

Sombras escorriam pelas ruas como a perseguir qualquer resto de luz, ainda que viesse das velas acesas por aqueles que choravam seus mortos, afinal, não havia corpos, apenas o silêncio e a memória roubada...Não deveria sobrar nada, apenas os nadas...

No Chile, há quarenta anos, assim como em todas as outras franquias de morte da América Latina, não havia sequer a dignidade da morte como um ato único e final...Foi inventada a não-existência permanente: nasciam os nadas!

Os nadas deveriam deixar de ter um antes, um agora, mas principalmente, NUNCA deveriam ter um depois...

Os nadas pouco importavam se estavam mortos, desaparecidos, ou se eram mantidos em não-locais, onde eram submetidos a todas as formas de não-humanidade...

Para virar um nada, bastava uma coisinha de nada, um breve não-entendido, ou um suspiro de nada...

Até hoje, os cavaleiros do abismo insistem em dizer que os nadas nada eram, que não sofreram nada, que nunca foram levados a lugar algum, e que nada de mal poderia ter-lhes acontecido, justamente, porque não eram nada...

E nada parece curar esta ferida, que une estranhamente os que morreram por nada e os que sobreviveram a tudo...

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