sexta-feira, 13 de setembro de 2013

Amarildo e blackbobocas: Uma triste realidade, comemorada pela ultra-esquerdalha...

Uma das maiores dificuldades que sempre enfrentei após ingressar na Polícia Civil, sendo um militante de esquerda, além das óbvias contradições pessoais sobre as quais não cabem citações, é a miopia de boa parte da esquerda no enfrentamento das questões relativas a segurança pública, polícia, criminalidade e enfim, a estrutura normativa do Estado brasileiro nas questões criminais ou de conflitos sociais.

Hoje, defrontei-me com mais um momento de decepção, aqui...

Claro que o dissenso com o professor Marcos Pedlowski é quase sempre inevitável, e ainda bem...

Mas neste caso, acima de qualquer sentimento corporativo que tento guardar lá nas últimas gavetas do armário da minha incoerência, é fato que o simplismo, a retórica comum e vulgar me deixam, além de perplexo, triste...

A decepção sempre é maior de quem se espera mais...é fato.

Desde 1988, quando raiou a Constituição Brasileira, nosso sistema jurídico-criminal é pontuado por graves contradições, que já nomeamos aqui de esquizofrenia institucional...e que definimos mais ou menos assim:

Temos um sistema jurídico protetor de uma série de direitos individuais, conflitando com um estamento jurídico conservador, patrimonialista, que valora com mais ênfase os bens jurídicos totalmente opostos a noção garantista...Este estamento está, por sua vez, inserido em uma cadeia sócio-política-econômica igualmente patrimonialista, exclusivista e vertical...As duas realidades se relacionam como causa e efeito, e tanto o sistema jurídico existe para legitimar as diferenças e injustiças sociais, econômicas e políticas, quanto o contrário, tais diferenças são normatizadas nos regulamentos jurídicos.

O caso mais clássico é a chamada "guerra às drogas", e não cabe maiores detalhamentos neste texto, mas via de regra, imaginamos ser impossível aplicar leis draconianas sobre uma escolha individual (usar ou não drogas), montadas sobre um sistema altamente repressor e segregador, e ao mesmo tempo promover os direitos e liberdades da pessoa humana.

Paradoxo semelhante se dá com aborto...

Em suma, dizemos que você é soberano frente ao Estado, desde que não lesione interesse de terceiros (coletividade), e criminalizamos sua escolha...em metáfora já usada aqui, vendemos carros e proibimos a venda de combustível...

Estas decisões políticas do Estado brasileiro, e da sociedade brasileira, assumem contornos mais dramáticos quando enxergamos que a vida no Brasil vale menos que um automóvel ou um aparelho de telefone celular, pois há muito mais ladrões presos que homicidas, ou pior, os crimes contra o patrimônio detêm uma taxa de resolução exponencialmente maior que os crimes contra a vida... 

Dentro desta nossa tragédia cotidiana, a dos homicídios dolosos, temos outra tragédia ainda mais aguda: A seletividade da eficiência e da punição do Estado, com um corte de classe e de cor já bem definidos, cuja repetição é exaustiva, mas necessária: Ser preto, e ser preto e pobre significa uma probabilidade de morte por arma de fogo 4 vezes maior de que a de um branco e pobre...Se for branco e rico, nem dá para calcular direito, tamanha é a distância...

E por fim, dentro desta aberração, temos outra, de sinal inverso: Quanto mais rica for a vítima, maior a chance de que seu algoz seja preso!

Diante de todo este quadro, o que fez a esquerda, tanto aquela que chegou ao poder, quanto aquela diz que a esquerda não chegou ao poder, porque são eles a "verdadeira esquerda"?

Nada...absolutamente nada!

Os estamentos normativos estão intactos, e sequer sofreram a menor fissura por alguma pressão dos chamados "verdadeiros esquerdistas" ou os "falsos"...O máximo que conseguem é diagnosticar as ações organizadas de grupos secundários dentro do Estado, como milícias, fazendo um "oba-oba" típico, portando-se como "vingadores solitários", esperando que toda a comoção causada lhes sirva de algum capital social e político para tirar-lhes do ostracismo, como aconteceu com um deputado estadual do piçol, recentemente... 

Quando confrontados com os "limites" da sua estratégia, saem a "chorar e pedir arrego", clamando pela proteção coletiva para suas escolhas pessoais...

Qual o debate sobre o papel da polícia que consiga ultrapassar o lugar comum, já batido e rebatido da "denúncia" da violência e corrupção policial, seu "despreparo", etc?

Nada...absolutamente nada!

O máximo que conseguem é um avanço na sociologização do crime e da violência, o que não é pouco, mas é quase nada para dar respostas a demanda inadiável de definir o papel, o valor, enfim a finalidade do aparato policial brasileiro, que se resume a responder: polícia para quê e para quem...

Neste sentido, muito me entristece ler a posição do ilustre professor Pedlowski em seu blog, desfiando a mais chula provocação ao aparato policial, especificamente a Polícia Civil do Estado do Rio de Janeiro, e sua chefa, Martha Rocha (que, em verdade, na maioria das vezes a merece)...

Não é a provocação em si que nos deixa cabisbaixos, mas o seu sentido de revelar a total ignorância por parte de quem deveria saber algo sobre o assunto...

No país que eu gostaria de viver, como policial inclusive, não há espaço para "sumiços" de "amarildos", que nos mostram que a nossa leniência em dar respostas às abduções estatais que aconteceram na ditadura e a reincidência destes episódios nos dias atuais não é mera coincidência...

Nossa comissão da verdade não é urgente apenas para dizer o passado, mas para alterar o presente...disto ninguém deve duvidar.

Porém, neste país também não há espaço para tratar com reverência e coroar com "liberdade" os atos de vandalismo, formação de bando armado, uso de explosivos, lesão corporal, etc, só porque se trata de filhos da classe mé(r)dia bem nascida e que se acha "politicamente instruída", condição que lhes confere "imunidade"...

Assistir ao professor Pedlowski comemorar a soltura de marginais do andar de cima da sociedade é aterrador, porque é este sistema que traga "amarildos"...

Se os jovens que estavam presos fossem de outra classe social, com certeza ficariam presos um bom tempo, ou teriam "sumido antes"...

Assim foi feito quando jovens mascarados passaram a queimar ônibus, danificar patrimônio, etc no entorno nas comunidades pobres, no Rio, SP, e Florianópolis...alguém ouviu alguma repercussão sobre a situação deles, se estão presos, soltos, mortos?

Ahh, mas dirão os ultra-esquerdalhas que agora os bob cuspes do feicebuquistão têm uma "causa"!!!! 

Eu não sei bem qual é esta "causa"(até porque, pelo jeito, nem eles sabem bem qual é), mas tenho para mim que a violência coletiva contra o Estado, quando dirigida para fins "políticos", e que não tenham uma direção bem definida, tem uma repercussão muito mais grave que a violência coletiva contra o Estado que se movimente por solidariedade criminal comum... A História nos revela isto com tristes resultados...

No entanto, para tornar este país mais justo, não podemos reivindicar que a barbárie, hoje tratamento dedicado aos mais pobres, se estenda de cima a baixo, mas tampouco a impunidade, privilégio do blackbobocas e outros pit-boys zona sul, seja universal...

Assim, comemorar a liberdade dos "batcoxinhas" é como jogar mais uma pá de terra em cima da vala clandestina onde Amarildo deve estar enterrado, ou mais um pneu dentro do microondas onde foi incinerado.

Olhando o sentimento de júbilo frente a impunidade que urge de gente como o Dr Marcos e seus aliados, eu digo: Não sei onde está o Amarildo, mas respondo com outra pergunta: Quem serão os "os novos amarildos", e quando sumirão?

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