sábado, 13 de julho de 2013

Quem dá o pão, dá o castigo!

Para parafrasear Nelson Rodrigues, autor da peça que é a última moda nos debates do feicebuquistão
"O gestor público nem sempre sabe porque está batendo, mas o artista campista sabe porque está apanhando!"
Não sou destes que defende um ambiente cultural dominado pelas regras do mercado, ou da indústria de produção de bens culturais de massa, embora não despreze a necessidade de alguma escala neste setor, haja vista que há na indústria cultural algumas virtudes a serem consideradas.

Tampouco sou daqueles que imaginam a cultura como um bem estatal monolítico, ou seja, dirigido pela lógica do financiamento público, e subordinado aos humores da classe que controla o Estado.

Por fim, afasto a ideia de uma arte neutra, ou seja, da possibilidade de qualquer intervenção que se pretenda alheia a uma escolha política transmitida pelas escolhas estéticas, até quando dizem, explicitamente, que não querem fazê-lo.

Feito este preâmbulo, vamos ao tema em si.

É preocupante que um gestor público determine a agenda de um espaço público pela lógica ou filtros religiosos. Isto é fato!

No entanto, a agenda religiosa parece impregnar todos os aspectos que  deveriam ser laicos, aí incluídas as concessões de rádio e de TV, e mesmo assim, somos inundados com propaganda católica, textos de articulistas que reclamam que o governo deveriam pagar os 90 milhões de reais gastos com esta baboseira de jornada mundial de não sei o quê, e todos parecem satisfeitos, porque não ouvi reclamações.

Na "semana santa", uma plêiade de artistas de teatro vão a praça encenar a "paixão do carpinteiro bastardo", bancados pelo dinheiro e recursos públicos, e neste caso, a mistura religião, arte, mídia e política parece não incomodar!!!

Portanto, os auto-denominados "artistas" (locais ou "estrangeiros") não são as vítimas desta situação, como querem parecer, atuando como canastrões!

Esta promiscuidade (arte, política mídia e religião) é permanente, o problema é reclamar dela apenas quando prejudica alguns interesses!!!

Alguém imagina encenar ou obter uma cobertura gratuita em uma peça que desancasse a mídia corporativa, ou algum jornal local, principalmente se algum destes órgãos fossem os patrocinadores? Pois é...

Me recordo que em 1999, sob a batuta do batuta Artur Go(u)mes, o I FESTCAMPOS DE POESIA FALADA, executado pela Fundação Cultural "Jornalista Oswaldo Lima", passou a ser solenemente ignorado por um jornal local depois que um dos herdeiros daquele veículo teve seus "poemas" jubilados pelo júri do concurso, que incluía, além do Artur, a ilustre Professora Edinalda, Silvia Paes, dentre tantos outros.

É disto que se trata: Quem sustenta, manda! Quem dá algo, quer algo em troca!!!!

Ou será que os papas mecenas mandariam pintar imagens do Inferno na Capela Cistina?

O que são os "artistas locais" senão um bando de pedintes, que reclamam, mas não sabem outra coisa senão arrumar um trocadinho público?

É preciso fazer, levar sua arte aonde ela seja necessária, romper o cordão umbilical com a verbas públicas, com os espaços confortáveis, criar um mercado cultural alternativo, que se imponha pela sua força, e que faça a população, esta mesma que elegeu os fundamentalistas da lapa, dobrarem a espinha de seus eleitos pela demanda popular por arte e cultura verdadeiramente independentes, embora nunca neutras!

Alguém ousaria encenar Nélson Rodrigues em algum centro comunitário da periferia? Caso afirmativo, por que ainda não foi feito?
Quantas cooperativas de criação e produção existem nesta cidade de 500 mil habitantes para fomentar cultura à margem do extremismo religioso da prefeitura, ou das exigências do mercado?

Quem responde a esta pergunta?

O problema então, como sempre, é que ficam chorando pitangas como crianças mimadas, aliás, como a maioria dos que se dizem "artistas".

A briga é para ocupar o espaço "de sempre", e atender a demanda dos "de sempre": a classe mé(r)dia que lê "óia" e o g(r)obo, e outras porcarias locais, e se acha "intelectualizada"...

E neste arranjo já "garantido", tudo é igual: favores da mídia, favores do governo, e um público domesticado!

Não imaginam que cultura é um direito, e que como tal, deve ser ampliado e democratizado para fora dos limites que conhecem, ou do alcance dos chiliques e desabafos que alimentam o fascismo do feicebuquistão!

Esta é a cena:
Romper a lógica do dirigismo cultural, quer seja o Estado, quer seja do mercado (que não raro se confundem), caso contrário, vão continuar a parecer o que são: uns poucos e exóticos gatos pingados, vistos pela população em um misto de estranheza e comiseração, ambos habitando um grande cenário de senso comum com duas polaridades: eles (os artistas) achando que os prefeitos, os gestores e o povo são uns ignorantes, e a população, os gestores e os prefeitos enxergando na arte um bem supérfluo e nos artistas, porras-loucas inúteis!

Temo que nenhum "dos atores" deseja sair do roteiro, e cada um vai cumprir à risca o seu papel: "artistas" que se acham os portadores da "verdade estética", gestores públicos que precisam afirmar "suas verdades políticas", e a mídia corporativa, como sempre, levando o dinheiro público, e manipulando as demandas alheias, apenas e unicamente, para vender suas meias-verdades!

Então fica combinado assim: aguardemos mais algum ato despótico do governo, e a encenação da tragédia pelos "artistas", propagandeados pelos bobos de mídia locais!!!!

4 comentários:

Anônimo disse...

Fantástico!


"Na 'semana santa', uma plêiade de artistas de teatro vão a praça encenar a 'paixão do carpinteiro bastardo', bancados pelo dinheiro e recursos públicos, e neste caso, a mistura religião, arte, mídia e política parece não incomodar!!!"


Anônimo disse...

Seus últimos parágrafos são muito lúcidos na análise. Este é o Douglas que eu curto ler.

Difícil, cara, é romper a lógica do dirigismo cultural imposto pelo dinheiro. Seja público ou privado.
Artista tem que viver e como sabemos, precisa de dinheiro. Só o mais porra-louca dos porras-loucas para romper com isso. E temos poucos exemplos assim.
Deste modo, os produtores de cultura daqui sempre estarão correndo atrás dos caraminguás da prefeitura pois, mesmo com tapa-olhos, é quem ainda "investe" no setor.
Agora, com a proibição do Bruxo do Cosme Velho e com a substituição da orquestra pela palestra a administração da Lapa nada mais fez do que escolhas. Como assim tem feito quando decide por contratar este ou aquele artista. Inclusive os que reclamam...
É como dizia Taiguara: enquanto não pudermos consertar (com S) vamos concertando (com C)...

douglas da mata disse...

Veja bem, meu caro:

Eu não desconheço o estágio atual de indigência das políticas públicas de cultura, em TODOS os níveis: Federal, estaduais e municipais, como raríssimas e honrosa exceções.

E não recrimino os artistas que desejem ser financiados pelo dinheiro público. Longe disto.

Reconheço no Estado mais possibilidades de avançar na democratização da cultura que no mercado!!!

Mas há contrapartidas políticas de engajamento que o Estado cobrará, e isto é óbvio: até porque o dinheiro do contribuinte não é para concentrar bens culturais.

Será que o produtor que reclama da interdição do Trianon aceitaria que lhe impusessem a encenação da peça nas periferias?

É esta a discussão que devemos ter, quando se trata de bens púbicos e de recursos públicos, e de políticas públicas...

Só que este debate leva a escolhas, e estas escolhas trazem consequências, e não dá para chorar uma "autonomia" que já foi entregue quando se assumiu opções!!!

Quem quer liberdade e autonomia, que promova ou produza sua arte desta forma, isto é, do seu próprio bolso!!!

Estão aí as cooperativas produtivas, estão aí a internet e as melhorias de custo da tecnologia que baratearam processos!

Para se criar uma demanda democrática pela cultura, é preciso democratizar o acesso a arte e aos bens culturais para mais gente, e esta ação sempre vem de fora para dentro do Estado, e nunca ao contrário, porque, como eu disse: quem paga, quer mandar (com raras exceções)!!!

Um abraço.

Anônimo disse...

"Agora, com a proibição do Bruxo do Cosme Velho e com a substituição da orquestra pela palestra a administração da Lapa nada mais fez do que escolhas."

Bruxo do Cosme Velho: Machado de Assis.