sexta-feira, 26 de julho de 2013

Do blog O Cafezinho: Wanderley continua a desmontar os niilistas...

As raízes da revolta

Enviado por  on 26/07/2013 – 10:08 am2 comentários
O professor continua analisando as causas e consequências do levante niilista que se espalhou pelo país.
Democracia uma vírgula, anomia niilista
Wanderley Guilherme dos Santos, especial para o Valor
Milhões de pessoas foram projetadas a estações de consumo e lazer das quais nunca haviam tido sequer notícia. Passado o deslumbramento, expectativas ambiciosas cresceram em velocidade maior do que caiam taxas de juros e sinais inflacionários levando a audacioso endividamento das famílias. Por fim, a ressaca veio sob forma de aguda ansiedade sobre o futuro imediato, tornando-as vulneráveis aos anúncios de que crescimento econômico em torno de 3,0% significará desastre, desemprego generalizado e uma queda livre, sem rede de proteção, dos trapézios sociais alcançados.
Rápidos deslocamentos ascendentes desenraizam as pessoas da matriz societária original, provocando crises de identidade e desorientação quanto a valores, estando por serem substituidos os anteriores, desaprendidos. Max Weber apontou a reserva de ebulição aí depositada, tanto quanto nas crises de despenhadeiro, quando enormes contingentes de trabalhadores são despejados na escala social com destino à miséria e desesperança. E, ambos, períodos de extensa anomia social, insegurança quanto a rumos e subversão de critérios de avaliação e escolha social. Atração fatal à anomia, o niilismo, o negativismo militante candidata-se a acompanhante emocional, pacificador da insegurança dos segmentos desorientados.
Seqüência já conhecida de manifestação popular reprimida com violência próxima à selvageria propiciou as condições de uma mobilização de simpatias, solidariedades e protestos claramente motivados pelo episódio paulistano de repressão ao Movimento do Passe Livre. Eram os jovens universitários, seus pais e familiares, usuários de transportes públicos, o público de boa vontade, atingido em seu sentido de justiça e de equilíbrio, além das minorias insidiosas de sempre: um nazismo renascente, proto fascistas, partidos autoritários como o PSTU, ou dado a aventuras como o PSOL, mais os predadores da democracia. Rápido, bem sucedido golpe de mão, juntando acaso e virtude, seqüestrou a alma das ruas e infestou a evidente anomia com a inclinação niilista que a marcou desde então. Todas as palavras de ordem têm sido, a partir daí, pretexto para a desmoralização das instituições democráticas, assembléias, organizações sindicais, associações voluntárias específicas, partidos políticos, em nome de um alegado vanguardismo civilizatório.
O futurismo italiano foi um movimento revolucionário das artes gráficas no início do século XX. Dissolveu-se ideologicamente no fascismo gerado pela anomia decadentista da Itália dos anos 20, igualmente irmanado ao niilismo predatório. Assustados, os líderes institucionais do Brasil têm tomado a aparência pela verdade e multiplicado a tradução do que lhes parecem comunicar as vozes das ruas. Não existem, contudo, vozes das ruas, apenas alaridos. Não foram as cartolinas pintadas que levaram as primeiras multidões às passeatas, elas surgiram algum tempo depois das marchas em busca de um porquê das próprias marchas. A seco, melhoras genéricas da saúde pública ou da educação não estimulam o deslocamento de dezenas de milhares de manifestantes. Reforma política, então, nem em cartolina apareceu. Pesquisas de opinião durante ou logo depois do calor dos protestos são tecnicamente irrelevantes, não autorizam nenhum tipo de inferência confiável.
Do mar de gente em desfile pelos dias de junho já se ausentaram há muito os de boa fé, os lúdicos, os solidários com as iniciais demandas sobre transporte, até mesmo sobre saúde e educação, bem como os movimentos tradicionais organizados. Participam hoje dos protestos, fora os incautos e ingênuos que sempre existem e lhes emprestam ar de legitimidade, grupos anômicos de jovens de algumas posses, grupos neonazistas e pré-fascistas, organizações niilistas nacionais e internacionais, além das gangues ordinárias de ladrões e assaltantes. Os que agora se mobilizam e convocam sabem que são isso mesmo, portanto cúmplices entre si. Não há jovem do Leblon que ignore os saques e depredações que irão se seguir às suas intervenções ditas pacíficas. É a esta informal coalizão de celerados que se referem os acoelhados discursos pela modernidade, pelo avanço democrático em curso, pela radicalização da participação. Desde quando movimentos pela democracia difundem o medo e intimidam fisicamente os que divergem? Na verdade, a hegemonia da atual semântica política é niilista, reacionária, antidemocrática. Mesmo as manifestações em favor de teses populares adquirem conotação truculenta. Com todo o narcisismo de que são portadores, movimentos e personalidades de grande notoriedade não conseguem desfazer a impressão de que perderam o controle sobre o emocional da população. A conjuntura é fascistóide. A pauta trabalhista das centrais sindicais era a aparência para esconder uma real tentativa de retomar a alma das ruas. Foi uma manifestação chinfrim, o dia nacional de lutas, e não recuperou a hegemonia. Ficou apenas a impressão de que reclamava do governo a extinção do fator previdenciário e a realização de uma reforma política, entre outras bandeiras costumeiras, sem conseqüência significativa.
Há quem acredite no fundo da alma que alguma mazela nacional será resolvida por reformas nas instituições políticas. Esta é uma crença sem fundamento e, às vezes, como no momento, sujeita a exasperações histéricas. Só por circunstancial ausência de normalidade argumentativa pode-se entender declarações de inegável natureza controversa como se obviedades democráticas fossem. Em recente declaração em vídeo, ao final de um debate em um centro paulista, uma professora da USP, petista orgânica, afirmou que a estrutura partidária e eleitoral vigente, consagrada na Constituição de 88, foi elaborada em 1965 por Golbery do Couto e Silva, homem da ditadura. Sem dúvida, uma retificação histórica e tanto. Em texto na revista Carta Capital (17/julho/2013), um jornalista e paladino da democracia menciona um sonho em que assistia à convocação de uma Assembléia Nacional Constituinte exclusiva, integrada pelas melhores cabeças do País. Não ficou esclarecido, contudo, qual colégio eleitoral substituiria os 140 milhões de eleitores brasileiros na escolha de suas melhores cabeças. Pior ainda, figuras profundamente reacionárias em matéria social e econômica, como as lideradas por Marina Silva, re-editam o discurso de que a maldade da política se encontra na existência de mediações entre o público e o privado, cujas fronteiras deviam ser abolidas. É o discurso totalitário em estado puro. Buscando o aplauso de míticas vozes das ruas muitos não mais escutam a própria voz.
É incompreensível a ênfase do governo e do Partido dos Trabalhadores na realização de um plebiscito por uma reforma política cuja formulação é, no mínimo, divisionista, castradora de avanços, e omissa quanto à superação de resquícios da ditadura – por exemplo, garantindo elegibilidade aos analfabetos, tema sem nenhuma audiência entre nossos democratas radicais e digitais. Incompreensível, sobretudo, quando a pauta vital do País, no momento, está sendo disputada taxa de retorno a taxa de retorno nas licitações por vir nos setores ferroviário, aeroviário, rodoviário e portuário, além dos leilões do petróleo. Disso dependem renda, emprego, crescimento, políticas sociais e progresso tecnológico. Sujeito a um cerco infernal de pressões, lobbies e, quiçá, seu tanto de sabotagem por parte de alguns empresários e investidores, o governo substitui esta pauta por um prato diversionista, com o bônus de propiciar aos adesistas a esfarrapada desculpa de que o Estado, o modelo de crescimento (denominação presunçosa), os instrumentos de administração estão esgotados. Baboseiras de quem está costeando o alambrado do conservadorismo.
As forças sociais estão anômicas. Difícil saber em que medida a epiderme niilista reflete o sentimento majoritário da população (pesquisas, no momento, são inúteis para extrapolações), submetida a uma avalanche de informações sem fonte de credibilidade assegurada. As respostas oficiais, exceto em parte a dos parlamentares, acentuo, exceto em parte a dos parlamentares, têm contribuído para ratificar a ilusão de um aprofundamento da democracia que, de fato, em sua versão expressiva e comportamental, consiste em seu oposto, na intolerância, na destruição e no ódio que contamina as mensagens das ativas redes sociais. Quanto mais cedo se mobilizar a resistência democrática ao niilismo anômico, melhor.
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6 comentários:

Anônimo disse...

Uma boa parte do texto do professor fala da nossa velha vocação para o atalho. Se não esta dando certo ou não está muito bom, seja o que for, propomos a criação de algo que o substitua sem pensar em discutir o aperfeiçoamento do original. Em quase todos os casos, o novo já chega com os mesmos vícios do velho. Só troca de roupa. Ou fica mais caro.
Ao invés de melhorar o modelo representativo, propomos uma reforma política divisionista como escreve o autor. Para investigar crimes em que a polícia "não é eficiente" atropelamos a CF com um seletivo Ministério Público. Para a indignação com a política que "não nos representa" propomos menos política e execramos os partidos. Para um transporte público de merda propomos o aeromóvel. Para o estudante da cota que entra na universidade despreparado, propomos um cursinho de "nivelamento". Para o engarrafamento, propomos viadutos. O atalho, sempre o atalho.

São medidas que equivalem a jogar fora o sofá, sítio do adultério.


As micro revoluções surtem mais efeito...

douglas da mata disse...

Apenas um senão:

As políticas afirmativas, reduzidas a você por cotas, não são um atalho!

São o reconhecimento do conflito(desigualdade) e a compensação necessária.

Não há dados que autorizem a dizer que os beneficiários são hipossuficientes, ao contrário:

Seu desempenho médio é igual ou superior aos não-beneficiários.

Os números estão lá, no MEC, e no IBGE.

Anônimo disse...

Tens razão e eu me referi ao cursinho como atalho. No IFF, o cotista tem chegado muito desnivelado, embora alguns se recuperem ao longo do curso. Não sem grande esforço dele e dos professores. O que acontece, e que tem influenciado nas estatísticas, é que muitos abandonam o curso e isto passa a ser classificado como evasão. Seria interessante cruzar estes números porque a formação da maioria dos cotistas infelizmente é inferior. E isso não é um problema dele, mas da qualidade de nossa educação que precisa avançar muito. O atalho, quase inevitável a esta altura do campeonato, é justamente o remendo na formação deles quando o cerne da questão está lá atrás, antes do seu ingresso.

douglas da mata disse...

Novamente sua visão está errada:

O índice de evasão do beneficiário das políticas afirmativas não é superior ao não-cotista, ao contrário.

O problema não é possuir cota ou não, mas definir a quem serve a educação pública e gratuita, enfim, o Estado.

E no Brasil, o Estado ainda serve melhor a quem menos precisa: classe médias e elite.

O acesso não pode ser um funil, como têm sido, onde só aqueles que podem pagar pela indústria do cursinho pré-vestibular ocupam as melhores vagas no ensino gratuito superior.

Nem tampouco as melhores escolas públicas devem continuar reservadas a minoria mais rica, como é o caso, em nossa cidade, de Liceu, Isepam, e outras, enquanto as escolas de periferia ficam à míngua.

O gargalo no ensino superior tem sido duplamente atacado pelo governo federal: mais vagas e politicas afirmativas.

É bom lembrar que a formação média, fundamental e básica são de responsabilidade constitucional de estados e municípios.

Mas repito: o desempenho do cotista é muito satisfatório, ainda mais se considerarmos as desigualdades a que esteve submetido!

Anônimo disse...

O lixo da Rede Globo

Em setembro de 1962, Jango começou a movimentar o plebiscito, que finalmente marcou para 6 de janeiro de 1963.

Coordenou e conseguiu formidável apoio de banqueiros e empresários.

Nunca se viu tanto dinheiro circulando, um assombro.

O SIM, maioria enorme para a volta ao presidencialismo, não só pela fortuna investida, mas também porque o povo nem sabia o que era parlamentarismo.

Jango tomou posse e imediatamente começou a trabalhar pela permanência ininterrupta no Poder.



Em junho (tudo em 1963), Brizola telefonou para Jango, dizendo: “Precisamos conversar”. O diálogo deles não era de, muito difícil. Jango marcou.

Brizola foi, disse logo a ele: “Jango, venho de uma conversa de 3 horas com o marechal Lott, que apoia a proposta que vou te fazer.

Você me nomeia ministro da Fazenda, se eu fizer alguma maluquice, você me demite, com apoio do marechal”.

Jango pediu um prazo, Brizola disse, “mas não pode demorar”, o presidente concordou.

Tinha conversa agendada para dentro de alguns dias, com Roberto Marinho e o embaixador dos EUA, Lincoln Gordon, que por ser de Harvard tinha a simpatia até de esquerdistas que apoiavam Jango.

Contou a conversa com Brizola, os dois responderam com se fossem um só: “Se você nomear o Brizola ministro da Fazenda, não termina o mandato”.

O presidente telefonou para Brizola, disse, “não tenho apoio para nomeá-lo”, comunicou isso a Roberto Marinho.

No dia seguinte, O Globo publicou na página 3 uma foto enorme de Jango, com a legenda: “O presidente estadista”.

Não nomeou Brizola ministro e não terminou o mandato.

ganhar seguidores no instagram disse...

Muito bom o post gostei !