domingo, 21 de julho de 2013

A verdadeira linha do Metrô de SP: Estação psdb-propina!

Os blogs como Viomundo trazem a repercussão do escândalo psdb-Siemens-Metrô/SP.
De cara ressurgem várias questões, como a hipocrisia dos demotucanalhas, o silêncio do PIG, e enfim, o conto de fadas que dizia que empresas privadas e neste caso, empresas da Alemanha (tida e havia como um dos símbolos de civilização e "honestidade") não se envolvem em "coisas deste tipo", deixando aos trópicos a primazia do mapa da corrupção mundial, em um determinismo geográfico digna da maior estupidez...
Este é o comentário que deixei por lá e que compartilho com vocês:
Ando meio macambúzio.
Fora a alegria de ver os sacripantas do psdb e afins atolados em esquemas que eles praticam há tempos, mas que querem nos fazer acreditar que começaram em 2002, eu me ponho a refletir:
Desde a ascensão dos (neo)liberais na década de 80, nos EEUU, GBR e depois, no resto do mundo, montanhas de recursos públicos vem sendo carreadas rumo a concentração mais brutal de riquezas jamais vista em outras épocas, transformando as agendas públicas e as administrações estatais em meras agentes ou leões-de-chácara deste fluxo de expansão e retração de capitais, que se auto-recicla e varre enormes contingentes de riquezas nacionais, empregos, vidas, enfim, sociedades e seus ambientes.
E sempre há um sofisma, uma premissa falsa que se transforma em bastião ideológico para justificar a prevalência destes interesses restritos sobre os da vasta maioria.
Foi assim que criaram a “War on Drugs”, que tinha o triplo sentido de dar conta do excedente de negros que seriam segregados política e economicamente com o Consenso de Washington, dar vazão as rotas de narco-financiamento dos para-militares na América Central, e por último, alimentar a indústria da militarização das polícias ao redor do mundo, que sugariam trilhões de dólares dos já combalidos orçamentos públicos dos países ricos, mas principalmente dos mais pobres.
Como não se podia mais discriminar os negros “legalmente”, criou-se o discurso “lei e ordem”, e depois, elegeram-nos os inimigos públicos.
Convenientemente, a população carcerária saltou para 2 milhões de pessoas, a enorme maioria de negros e latinos (e outros indesejados), que nunca mais votarão (assim como tem uma série de restrições de acesso a determinadas facilidades públicas), e passaram a incorporar uma massa de subempregados em condicional (parole), com salários sob medida para aumentar o lucros das grandes corporações.
O sistema prisional dos EEUU revelou-se um ótimo negócio. O sistema de justiça estadunidense era a mola propulsora de condenação (convictions) cada vez mais severas, que enredavam um número cada vez maior de pessoas em uma espiral de violência, prisão, e mais violência, e mais prisão.
Este sistema é chamado pela ativista e advogada Michele Alexander de “New Jim Crow”, em seu livro The New Jim Crow, mass incarceration in the age of colorblindness (O Novo Jim Crow, encarceramento em massa na idade da cegueira racial).
Para quem não sabe, Jim Crow deu nome ao conjunto de leis e regras segregacionistas que duraram até o fim da década de 60, como o Ato dos Direitos Civis.
A política neoliberal de enfrentamento das drogas atendia a necessidade econômica de “enquadrar” os fracassados, que já o eram antes mesmo de tentar qualquer reação, na medida que um sistema de exclusão não traz oportunidades iguais para todos.
Como não se podia enfrentar abertamente o desejo de dizer que se há poucas chances, que se danem os negros e latinos, criou-se uma “armadilha legal e jurídica” para enjaulá-los, tudo sob o argumento que não se tratava de discriminação, mas apenas de cumprir a lei e manter a ordem contra grupos que “se negavam” a obedecer.
Depois da onda “War on Drugs”, que começou a ser questionada inclusive domesticamente, dada seu gigantesco custo e pífio resultado (a não ser para as corporações e certos grupos políticos sustentados por elas e vice-versa), veio a Guerra ao Terror.
Engana-se quem imagina que o petróleo foi o único alvo das corporações para empurrar a maior máquina de guerra do planeta ao Iraque, Afeganistão e arredores.
Blackwater é o nome da maior empresa privada de mercenários do mundo, que tinha mais gente no Iraque na segunda invasão que as tropas regulares.
Sua meteórica ascensão se deu durante o ciclo bush filho, mas seu embrião já estava semeado na administração bush pai.
Só a título de exemplo, não havia legislação que regulamentasse suas ações em solo estrangeiro.
O Massacre de Falujah, descrito no livro Blackwater: A ascensão do exército mercenário mais poderoso do mundo, de Jeremy Scahill, é um exemplo claro da falta de controle, isto é, da perda de controle do Estado sobre o mundo privado.
Pela primeira vez na História, mercenários agiram em solo estadunidense, durante o Furacão Katrina, em Nova Orleans e outras regiões próximas, para impedir que as propriedades fossem esbulhadas pela horda de refugiados famintos e revoltados com o abandono do governo central.
Mas o que isto tudo tem a ver com escândalos repetidos no Brasil?
Ora, a frequência com a qual governos de orientações políticas aparentemente diferentes, e com objetivos distintos, se envolvem com estruturas de financiamento eleitoral que se alimentam no superfaturamento de obras e serviços públicos, mas que têm como principais (e ocultos) beneficiários grandes corporações nacionais e não raro, transnacionais, nos mostra que o assédio do poder financeiro sobre os processos democráticos ao redor do mundo, e neste caso, no Brasil, já ultrapassou qualquer medida do aceitável.
Inclua-se neste jogo as corporações de mídia, causa e efeito deste estamento, que tem em sua outra perna o sistema judicial, que proporciona uma judicialização (às vezes policialesca) dos conflitos sociais e políticos).
E não se trata de uma questão moral, apenas. Porque acusar-se mutuamente é uma idiotice sem par.
É uma questão estratégica crucial dotar os sistemas políticos nacionais de antídotos capazes de mitigar e/ou diminuir a influência do capital e seus interesses sobre os rumos e escolhas políticas feitas pela população.
Estranhamente, estes setores que fortalecem seu poderio com a cooptação de governos, partidos, e sociedade inteiras, ficam à salvo dos questionamentos morais feitos pela população, onde à representatividade e o exercício da política cabem todo o ônus, girando com mais força um círculo de desgaste da Democracia, acenando com convites a soluções de força (anti-democráticas os proto-democráticas).
Em países como o Brasil, com pouca maturidade institucional, macaqueamos e digerimos todos os libelos ideológicos com “ingênua crueldade”:
Nos EEUU a segregação prende e alija do sistema eleitoral, aqui matamos os pretos e pobres, e só os que sobram mofam nas cadeias.
Até bem pouco tempo, se é verdade que não chegamos ao ponto de termos um apartheid racial legalmente instituído, como EEUU e África do Sul, também tivemos enorme dificuldade de enxergar os cortes segregacionistas e as clivagens sócio-raciais para podermos implementar políticas afirmativas que destruíssem o mito da “democracia racial”(colorblindness).
Nossa “guerra as drogas” não é(foi) uma metáfora inofensiva.
Se mito da supremacia privada sobre o setor público já causa estragos ao redor do mundo, no Brasil destroçou e devorou enormes aparatos estatais e patrimônios públicos, soterrou médicos, policiais, professores e toda a cultura do funcionalismo estatal em idiotices baseadas em “accountability”, “planos estratégicos”, “reengenharias”, e outras baboseiras repetidas como mantra pelos dementes de RH.
Não raro, diante de qualquer impasse, a solução era simples: troque salário por gratificação, e se não der certo, terceirize, se ainda não der certo, “quarteirize”.
A conta, caro amigo, geralmente era mais alta, e o saldo de ineficiência sempre maior.
O paraíso que o mercado nos prometeu não chegou a Terra. A História não acabou, e só nos resta juntar os cacos.
O caso Siemens, Metro SP, daniel dantas, privatarias tucanas, o caso da ação 470, o caso globo-Receita-Ilhas Virgens não são pontos “fora da curva”, que sirvam para delimitar vantagem ou desvantagem competitiva entre nós.
Mas de tudo, se não nos servir para nada, ao menos ajuda-nos a combater a hipocrisia…de todos nós.

2 comentários:

Roberto Moraes disse...

Oportunas reflexões.

douglas da mata disse...

Oportunas e incômodas...