sábado, 29 de junho de 2013

Os médicos e a epidemia da mentira!

Tenho enorme apreço pela categoria dos médicos, e tenho alguns deles na conta de minha estima pessoal, uma vez que com estes a relação médico-paciente extrapolou para sentimentos como solidariedade política, admiração intelectual, etc.

Estou certo de que os médicos, ainda que sejam uma das categorias mais bem remuneradas no país, e ocupem o topo da pirâmide social brasileira, sofreram um processo de proletarização de sua profissão, precarização das condições gerais de seu exercício, dentre tantos outros males daí advindos, que vão desde a privação do sono, o aumento da possibilidade do erro fatal, a sobrecarga desumanizadora do atendimento, uso e abuso de álcool e drogas, etc.

Nossos governos, e aí incluo os governos Lula e Dilma, pouco ou nada fizeram para alterar a estrutura de desigualdades que constituem as políticas públicas de saúde, ou ausência destas, sacrificando os que mais delas precisam, em o privilégio daqueles que precisam menos.

Mas os médicos não foram só precarizados e vitimizados neste processo. Eles também têm boa parcela de culpa, quer seja pela omissão individualista, que desmobiliza a categoria, quer seja pela ação quase criminosa como prepostos dos esquemas das industrias farmacêuticas, como fornecedores de recibos falsos para sonegação fiscal, ou até pela prática nefasta de se portar de um modo inadequado no setor público, e agir com extremo profissionalismo para os patrões privados!

Se houve precarização da medicina e da saúde pública, houve também a mercantilização. Como em todas as relações, há vítimas, e há cúmplices.

No caso dos médicos que serão trazidos do exterior, outra vez os médicos escolhem a defesa corporativa ao invés de debater todo o cenário.

Sim, sabemos que o financiamento da saúde é o principal problema, mas os médicos preferem dizer que o problema é de "gestão", engordando, ironicamente, o caldo de argumentos (neo)liberais, que, justamente, acabam com a medicina pública e de qualidade.

Talvez, os médicos não queiram discutir financiamento da saúde pública mais à fundo, porque é o governo, isto é, o orçamento público federal, que banca boa parte da medicina privada através das deduções no imposto de renda. 
Uma saúde pública, DE VERDADE, deve priorizar que o dinheiro público vá para o atendimento público, e não para financiar planos de saúde e consultas particulares!

Será que os doutores defendem o fim, ou diminuição, deste privilégio da classe média para melhorar a qualidade da saúde pública para os pobres? O silêncio em relação ao tema nos autoriza a dúvida!

Como vemos, a questão é bem mais ampla que trazer ou não médicos do exterior para suprir falta de médicos. 

O governo disse isto: é uma medida de emergência!

A formação dos médicos é outro ponto grave, e estamos cientes que o governo tenta se equilibrar entre aumentar vagas nos cursos existentes, e coibir a indústria de diplomas, que têm nos legado médicos de qualidade duvidosa, que engordam as estatísticas de erro médico, que aliás, encontram nos conselhos de medicina uma barreira corporativista intransponível que gera impunidade.

Enfim, os médicos dizem que o problema não é a falta de médicos.

É mentira: Temos 1,9 médicos por cada mil habitantes no Brasil. Cuba, por exemplo, tem 6 a cada mil habitantes.

Nenhum país com economia parecida com a nossa ostenta proporções tão baixas.

Destes 1,09 a cada mil habitantes, mais que 60% estão no eixo Sul-Sudeste, nas cidades com mais de 200 mil habitantes!

Para concluir, vou repetir uma pergunta que faço sempre quando discuto esta questão:

Se algum dos médicos manifestantes for a Cuba, ou a outro país de onde traremos médicos, e lá sofrer um acidente ou um infarto, e for levado a um hospital, pedirá que o colega daquele país que lhe atender apresente uma "revalidação" do diploma, ou mandará levar um médico brasileiro para lhe atender em solo estrangeiro?

  

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