domingo, 16 de junho de 2013

Os estranhos (e indispensáveis) ruídos da Democracia!

Oportunistas da oposição, jovens ingênuos e impulsivos (como devem ser), vaias, polícia, tiro, porrada e bomba, os centros da cidade em ebulição.

De tempos em tempos, há a impressão de que o mundo gira fora de seus eixos considerados normais.

Este é o problema. É uma impressão real, mas que justificada por premissas fabricadas.

Por tanto tempo acostumados a desigualdade, a segregação, a banalização da violência (física e simbólica), a mercantilização da vida, tragada como mero sinônimo de consumo, nos incomodamos quando insurgem formas de protestos que tentam realinhar as forças que empurram nossas sociedades para a acomodação das enormes assimetrias e injustiças, que colocam de um lado pequenas elites, e de outro, enormes contingentes de pessoas subordinadas aos humores dos instrumentos de perpetuação da exploração do homem pelo homem.

Em outras palavras, de tão expostos a anormalidade, a achamos normal.

Não é de hoje que o mundo dá sinais de que a História se prepara a nos pregar novas peças, algumas delas, trágicas.

O desalinhamento dos centros de poder hegemônico, com o desarranjo cíclico capitalista (expansão e retração de fluxos de capitais) em intervalos cada vez mais curtos, e com intensidades cada vez mais devastadoras, nos indicam o clássico processo de aumento da violência: primeiro dentro dos limites nacionais, e depois, dependendo do resultado dos embates destes grupos em disputa, passamos aos conflitos regionais, e por último, os de larga escala.

Não é por certo um caminho inevitável, embora sua reincidência, com contextos peculiares de cada tempo, diga-nos que não temos sido capazes de desembaraçar as armadilhas da História, que nós mesmos engendramos.

Como explicar então que por motivos aparentemente tão díspares, jovens de levantem na Europa, na Turquia ou no Brasil?

Primeiro, e como sempre, é preciso dar a correta dimensão de cada manifestação, sendo certo que se dentro delas mesmas (em cada país) há diferenças enormes de grupos e objetivos, quanto mais se avaliarmos estas disparidades entre as diferentes culturas e processos políticos. 
Esta não é uma tarefa simples, e não está ao alcance da superficialidade das análises midiáticas.

A mídia corporativa, claro, vinculada aos interesses de sempre, seja lá em que país for, sempre vocalizando a elite e os privilégios, tenta dar uma caráter de "unidade" que transforma estes movimentos e suas peculiaridades, justamente suas riquezas, em uma massa amorfa e manipulável.

E logo, rotulam os movimentos como um produto pronto ser veiculado e vendido: Primaveras, Occupy, MPL, etc. E os vendem como griffes, minisséries, "reportagens especiais", camisetas e souvenirs.

A indústria da ideologia capitalista se incumbe em dar a cada movimento político o contorno que lhe convém, mas no fim das contas, se estes movimentos teimam em não vestir os figurinos pré-arranjados, a principal maneira de identificá-los é como desordem!

Esta palavra mágica, ORDEM, não precisa guardar muita relação com seu sentido epistemológico.
Por que como imaginar que um sistema (capitalista) estruturado da desigualdade, da distorção da realidade pela manipulação e volatilidade de cirandas financeiras vorazes de riquezas nacionais, empregos, saúde, enfim, orçamentos públicos e a própria razão de existir dos Estados, a sua soberania, pode ser significação de ORDEM?

Mas esta construção, como dissemos, ideológica até a medula, se impõe como um limitador da realidade, que coloca toda forma de contestação não permitida, ou não previsível, como desordeira, para retirar-lhes legitimidade política, isto é, desordem não angaria apoio, desordem é igual a insegurança, e insegurança aterroriza o senso comum e ataca uma das razões de ser do Estado, e como conseqüência disto, para justificar o uso de toda e qualquer violência para restauração da ORDEM perturbada.

Este é o traço característico dos defensores da ORDEM, seja em Istambul, seja em SP, mesmo que saibamos que os jovens de lá reivindicam coisas absolutamente distintas.

Como já dissemos aqui, os jovens de SP e de outras capitais, uma ínfima minoria ruidosa frente aos milhões de pessoas que são esmagadas por transportes públicos quase assassinos, de fato, não detêm a legitimidade representativa, e a articulação orgânica que a precede, para romper as estruturas de expulsão dos mais pobres para os territórios mais distantes das cidades, para depois submetê-los aos liquidificadores de carne humana com rodas, ou sobre trilhos.

Todavia, é inegável que há em suas ações, inclusive, aquelas de contestação das forças políticas que estão representadas no governo federal, e no establishment que se configurou com a dicotomia PT x PSDB.

Isto não é indesejável para a Democracia, muito ao contrário, ainda mais quando esta agenda rejeita o figurino imposto pela mídia (tomates e corrupção), e passa a debater a cidade, a mobilidade urbana, e como em Brasília, a prioridade nos gastos orçamentários, ainda que enxerguemos também aí uma tentativa (oportunista) de desgastar governos do PT.

É nesta inflexão que reside uma situação interessante, que deveria merecer atenção. 

Se é verdade que, em nível pessoal, nenhum governante foi mais atacado que Lula, pelo viés da sua origem dentro do espectro da luta de classes, e o que o bombardeio de preconceitos representavam nesta luta, na maioria das vezes, desleal e mesquinha, é no governo Dilma que o sistema parece ter acordado  para o enfrentamento político da gestão do Estado, porque perdeu fragorosamente a batalha da comunicação e da popularidade para Lula, e agora, para Dilma, a despeito do cerco permanente.

Embora acanhado e frustrante para a expectativa dos mais exaltados da esquerda, o governo Dilma tocou no principal aspecto da engenharia capitalista de acumulação, o fluxo de capital, que os países emergentes responde pelo nome de taxa de juros, dentre outros instrumentos de política econômica.

É neste governo que começou a se ensaiar a retomada de uma política industrial autônoma, com o manejo das ferramentas tributárias, o afrouxamento do câmbio, por anos sobrevalorizado e que soterrou nossa indústria com importados, acompanhado da manutenção dos programas sociais e do aumento da renda e da demanda interna. 
Tudo isto lastreado por um pool de empresa estatais capazes de dotar o país de certa independência energética, e capacidade de atiçar investimentos.

É neste governo que os ataques da mídia, como a exceção feita ao aspecto pessoal que já citamos em relação a Lula, procuram mais desestabilizar a condução do Estado brasileiro.

Naturalmente, as parcelas historicamente desfavorecidas, vão começar a usar seu protagonismo e empoderamento para aprofundar a discussão sobre os modelos de desenvolvimento, geração e distribuição de riquezas no país, e mais, o papel desta nação frente aos demais países do mundo.

Estamos caminhando para uma instância onde os consensos não poderão ser mais angariados pela sublimação dos conflitos, que estão latentes há anos.

Não é tempo para o alarde calhorda dos editorais da mídia golpista, ávida por buscar nos ruídos da Democracia as justificativas para a imposição da "ordem" que lhes convêm.

Também não é o caso de mitificar os ruídos da rua como os sinais da revolução anti-capitalista, ou como um grito de desaprovação dos avanços conquistados, que beneficiam inclusive, os jovens militantes, como o pleno emprego e as vagas nas universidades.

Negociar e avançar, estimulando a renovação da capacidade juvenil de contestar, associado ao olhar de quem detém a experiência que só a maturidade traz, com o único objetivo de aprofundar as mudanças necessárias para superação do modelo que não deu conta dos efeitos da desigualdade que gera, pela sua essência, e que por isto mesmo, acabou por sequestrar a Democracia em uma crise de representatividade sem precedentes, que sempre nos ameaça com o espectro do autoritarismo, que toda vez é usado como restaurador da "ordem" capitalista.

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