segunda-feira, 24 de junho de 2013

Debates necessários!

O blog do Pedlowski é inesgotável fonte de bons argumentos, com os quais, nem sempre concordo. Acho que de tudo o que tem acontecido, um dos ganhos fundamentais foi o reavivamento do intenso debate democrático, provocado, inclusive por aqueles que não têm a mínima noção disto, onde coloco aí até os golpistas e fascistas que rastejam pelas ruas.

Pedlowski hoje trouxe um texto-questionamento de um cientista político renomado e laureado. Eu, como leigo e arrogante que sou, topo responder aos seus questionamentos, que aliás, são retóricos, pois pelo tom já dá para perceber que o autor tem as respostas prontas. Um perigo, aliás, para um cientista! Mas como não há ciência neutra, vamos lá:

Por Carlos Eduardo Martins

"1) Muitos explicavam a moderação excessiva do Governos Lula e Dilma, expressa numa profunda subordinação ao capital financeiro, que se apropria de 40 a 50% do orçamento público...pela ausência de movimentos sociais que o empurrasse á esquerda. Não dava para avançar mais porque não existiam movimentos sociais. Pois bem agora que eles estão na rua, o que vai se fazer com eles? Desqualificá-los? Por representarem um massa que não está sob o comando da esquerda tradicional e nem dos seus aparelhos burocráticos? Mas como desqualificá-los se foram um dos únicos movimentos sociais vitoriosos no país nos últimos anos, derrotando todos os governos estaduais, municipais de qualquer partido?(...)"


Réplica: Então o doutor Carlos Eduardo Martins já mapeou, classificou e definiu manifestantes e seus manifestos como uma ampla base de esquerda, coesa e organizada, com uma pauta definida e capital político acumulado suficiente para permitir ao governo federal uma ampla guinada à esquerda? Olhem com mais atenção para o final da "sentença": "movimentos sociais vitoriosos" (a exceção do MPL, que já se recolheu, quem mais ganhou o quê?)..."derrotando todos...de qualquer partido" (ué, qual o sentido de um movimento de esquerda enfraquecer governos progressistas, permitir a reação?).


(...)Não deve a esquerda tradicional repensar profundamente sua prática? Sua aproximação das oligarquias econômicas e dos monopólios de comunicação? O seu afastamento dos movimentos sociais? Sua tentativa de desmobiliza-los através dos recursos que o Estado oferece? Sua aproximação da Igrejas católicas e evangélicas respaldando as posições mais reacionárias sobre aborto e união homoafetiva?(...) 


Réplica: Aqui, o eminente cientista tenta misturar o governo federal (de coalizão, como do da prefeitura de Macapá, com a improvável aliança DEMOS e PSOL, por exemplo) com o conceito expresso em partidos e movimentos sociais. Mas é claro que toda a esquerda (tradicional ou não...mas o que será isto, algum rótulo, como sabão em pó?) deve, SEMPRE, repensar suas práticas, inclusive aqueles que se colocam como portadores da "verdade sinistra(de esquerda, em italiano)". O cientista trata as questões religiosas como se fosse este governo que as inventou. Ora bolas, o conservadorismo religioso é um traço histórico das sociedades brasileiras, e deram 20 milhões de votos a Marina Silva (dentre outros motivos) e foi, talvez, o único ponto de inflexão na campanha de 2010, com çerra em ofensiva até que sua mulher fosse cruelmente desmascarada em sua hipocrisia sobre aborto. É neste governo que este conservadorismo está sob os holofotes do debate como nunca antes, tanto pela disposição de fazê-lo, quanto pelo fato de que classes menos privilegiadas que não tinham voz, hoje estão visíveis, pela ação, justamente, do governo. E o que devemos fazer? Continuar a ignorá-los, ou manipulá-los, em nome do nosso vanguardismo bem intencionado?


(...)2) Se O PT desde 2003 vem gerenciando com certo êxito uma ordem, a ponto de seus lideres afirmarem que os banqueiros nunca ganharam tanto dinheiro, seria estranho que o grito contra a desigualdade e exclusão respingasse também em lideres do PT? Como emergir um movimento social contra a a desigualdade que não respingue nas lideranças políticas máximas do país? Esse movimento por isso é de direita,? Ou essas lideranças devem repensar suas práticas...voltar as suas origens? Não é estranho que os mesmos que gritam abaixo a Rede Globo, gritem contra os aliados locais do governo federal? Será porque não se fez nada para quebrar a força das emissoras de TV? Será porque 80% das verbas de publicidade o governo gasta na grande mídia? Será porque não há nada aqui parecido com a "Ley de Medios da Argentina?(...)

  • Réplica: Voltar às origens? Como assim, devemos andar como os nenderthais? Como um cientista político pode defender uma "volta as origens" e desconhecer a dinâmica da História? De sinal trocado, defender a "volta as origens" é como defender o fim da História. Santo deus, é este governo que possibilitou, ainda que de forma tímida, a maior distribuição de renda da História, e o maior corte dos juros. Nosso gasto com juros em relação ao PIB caiu quase pela metade em dez anos. O cientista político não é bom de economia, pois ele deveria saber que os bancos no Brasil se beneficiaram pela expansão da economia, aumentando sua carteira de financiamento, desde o consumo até a aquisição de bens de capitais pelas empresas. Por isto os bancos têm ganhado tanto, mas de uma forma diferente. Ganharam aí, inclusive, os bancos estatais, que possibilitou um amplo programa de subsídios a habitação popular e saneamento básico, melhorias no transporte, e inclusão de pessoas que nunca antes tiveram condições de entrar em um banco, ter uma conta, um  cartão magnético. Eu sei que para quem sempre teve isto, parece tolice, ou uma distração para o "povo idiota". Mas não é...
  • Quanto a questão da comunicação e monopólios, eu acho que um governo se define por prioridades. Em dez anos, teve que decidir e atacar aquilo que imagina ser fundamental. Não creio que, estrategicamente, uma guerra com a mídia (além da que já existe) seja indispensável para um governo que têm enfrentado tantos conflitos e gargalos e inclusive, dentro de sua própria "casa". Como disse, é uma questão de escolha, e como dizer a uma presidenta que mesmo sofrendo ataques diários da mídia, junto com Lula, consigam tamanha aprovação, favoritismo para as próximas eleições (inclusive Lula, que elegeu Hadadd em meio ao ataque do mensalão)? Será que somos nós que entendemos de "comunicação"? Afinal, queremos nos comunicar com quem? Coma população ou com o que acreditamos que ela deve ouvir?


(...)3) Finalmente a tese da iminência de um Golpe da direita, que esta sendo usada para esvaziar as ruas que teriam sido sequestradas pela direita. Em primeiro lugar qual o fundamento de que a as manifestações foram sequestradas pela direita? Na Avenida Paulista a manifestação da direita teve 30 mil pessoas. Nada perto de outras manifestações. E qual o problema da direita ir pras ruas? Hugo Chavez desistiu das ruas porque a direita estava nelas? Não venceu a direita todas as vezes organizando um movimento de massas de esquerda nas ruas. Ou será que o governo federal não quer mobilizações de massa? Qual a chance de um golpe de direita? Quem o daria? Um parlamento desmoralizado? Na linha de tiro da população? Um parlamento onde o governo tem maioria parlamentar? Onde qualquer processo de impeachment teria que ter 2/3 de um parlamento sob controle? Os militares? com o desgaste histórico que acumularam? Passando por cima do parlamento? O que não ousaram fazer em 1964, pois o golpe partiu do congresso? (...)

Réplica: Bom, este último capítulo aqui dá vontade de chorar. Dizer que reivindicar cuidado com as manifestações anti-partidárias e anti-democráticas, justamente aquelas que têm obtido maior visibilidade (porque como sabemos, a agenda progressista não repercutirá na mídia) é esvaziar as ruas é de doer. Então esta ultra-mega-super força emergente de esquerda que vem das ruas está sujeita a tais manobras? Como assim, não já são (eram) vitoriosas, como disse o cientista lá em cima, no início de sua fala?

O professor quer o modelo de enfrentamento e cisão da Venezuela? E lá não houve golpe (tentado em 2002), com desdobramentos graves, inclusive para os avanços conquistados, e uma enorme fratura social que drenou boa parte das forças do governo, e centralizou tudo em uma só pessoa (Chavez), que depois de morta, quase permitiu nas urnas o retrocesso, com uma vitória de menos de 1%?Eu não sei quem daria o golpe, e nem sei se é o caso de nos preocuparmos, mas repito sempre o que aprendi com um velho amigo: "não é por ser paranoico que não estejam me perseguindo".Esta postura triunfalista (ou cega mesmo) de alguns setores de esquerda, é mais ou menos a que fez Allende acordar com tiros no La Moneda, e Jango ter que fugir para o Uruguai.Desconhecer as inúmeras injunções e interesses,  e que o sentimento autoritário é permanente, e tudo isto sempre ameaça as democracias progressistas, é de um ingenuidade tola.


(...)Não vejo a menor possibilidade.(...)

Réplica: Vindo de um cientista, esta sentença parece mais uma fatuah de algum imã, ou uma bula papal.


(...)Está mais que na hora do governo dar meia volta rumo à esquerda e ter de fato uma estratégia para aproveitar sua energia extraordinária para fazer as grandes transformações que o Brasil precisa. 

Como parte da esquerda buscar sua unidade para lançar uma agenda de transformações profundas no campo econômico, politico, social e cultural ao nosso povo elevando o seu nível de consciência."

Réplica: wishful thinking, slogans e nada mais...."elevar o nível de consciência", é o quê, alguma "revelação" espiritual? Então quer dizer que a consciência popular só merece elogio quando converge com as nossas?....Hu-hum, entendi.



Carlos Eduardo Martins é chefe do Departamento de Ciência Política da UFRJ e autor da obra "Globalização, Dependência e Neoliberalismo na América Latina".

Nenhum comentário: