terça-feira, 4 de junho de 2013

Bombardeio de saturação e guerra total!

Inaugurados no conflito de 1939 como tática sistemática, os conceitos de bombardeio de saturação se uniu ao conceito de guerra total, onde os repetidos ataques não poupavam populações civis, e ao  contrário, colocavam-nas sob o alvo, como forma de esgotar o moral adversário.

É esta a tática da mídia golpista atualmente (e desde 2002), desta vez, em relação aos temas econômicos.

Neste tipo comunicação, e não por coincidência, também nas guerras, a verdade é a primeira vítima.

Aparentemente, alguns dados correspondem a realidade, mas são descontextualizados propositalmente, desconectados de suas relações de causa e efeito, com o objetivo puro e simples de vender opinião partidária e torcida política como notícia.

Como destacado por Roberto Moraes, o ótimo texto do Saul Leblon (ler aqui) dá a dica: Não se trata apenas de definir quem será o próximo governante do país, mas qual modelo de desenvolvimento estará em curso, e quais as formas de decidir sobre estas escolhas sobre estes modelos.

Há outro texto muito bom do mesmo Saul Leblon acerca do tema, que você também pode ler aqui, e também trata de escolhas, das nossas escolhas!

Mas hoje, este blog traz outro texto para a página central, porque nesta disputa ideológica e política pelos modelos a serem adotados, é a mídia um fator importante a ser considerado, como já dissemos aí em cima.

E se Leblon pergunta quem dará coerência ao desenvolvimento, então, perguntamos: Quem dará coerência a mídia?

Leia o texto e reflita:

Crise: Classe média condenada a fazer hidratação facial em casa

publicado em 4 de junho de 2013 às 1:21

A inflação da carteira assinada
. Que dó, que dó!
Por Luciano Martins Costa em 03/06/2013 no programa nº 2075 do Observatório da Imprensa
A série de reportagens pintando um cenário de apocalipse na economia brasileira, que marca as edições recentes dos principais jornais genéricos de circulação nacional, traz como pano de fundo uma tese perigosa: a de que a plena oferta de empregos seria uma das principais causas de aumento dos preços no Brasil.
Observe-se que a imprensa brasileira não questiona se estamos de fato imersos no perigoso jogo inflacionário, embora os aumentos de preços tenham se mostrado pontuais e randômicos, não lineares, o que indica a ocorrência de causas múltiplas e não necessariamente um processo consistente de inflação.
Há apenas dois meses, os jornais e os noticiários da televisão e do rádio martelavam a tese da inflação de alimentos; depois, com o tomate voltando ao molho com preços 75% inferiores, a imprensa passou a ressaltar o custo de produtos eletrônicos, depois das viagens aéreas e agora o vilão é o setor de serviços.
Nesse período, artigos e reportagens tentam impor a seguinte teoria: se o crescimento econômico é insatisfatório, o pleno emprego torna-se fator de inflação porque a disputa por bons funcionários aumenta o custo das empresas, o que acaba se refletindo no preço final dos produtos.
Por outro lado, dizem esses teóricos, o crescimento da renda dos trabalhadores aumenta a procura, porque há mais gente com dinheiro para as compras e, apesar do aumento recente dos juros, a oferta de crédito segue em alta.
Os defensores dessa tese consideram que, para fazer a economia crescer sem inflação, é preciso manter um exército de trabalhadores sem renda, ou dispostos a ganhar pouco, para que os preços se mantenham estáveis e o Produto Interno Bruto possa crescer a níveis chineses.
Para eles, a boa política econômica é aquela que preserva os “bons fundamentos da economia”, e não aquela que produz bem-estar para a maior parcela da população.
O pensador francês Edgar Morin já observou que “a economia é, ao mesmo tempo, a ciência humana mais avançada matematicamente e a mais atrasada humanamente”.
No caso do Brasil, os especialistas mais apreciados pela imprensa são os que se apegam a fundamentos que se justificam mais por ideologia do que por evidências científicas, e se recusam a considerar a nova  complexidade da sociedade brasileira.
Esse novo contexto social se baseia no ingresso de uma nova classe de renda no mercado, que permite a milhares de produtos e serviços alcançarem uma escala nunca antes vista.
Durante alguns anos, esses novos protagonistas irão realizar alguns sonhos de consumo que acalentam desde a infância, o que certamente produz desequilíbrios nas cestas do mercado
Que dó, que dó!
Foi assim com biscoitos recheados e iogurte, nos primeiros anos do  Plano Real; foi assim com os calçados esportivos e vestuário até 2005, o que estimulou a maior frequência a shopping centers, que proliferaram por todo o País; depois vieram os carros populares, as viagens aéreas, os cruzeiros marítimos, os computadores, e, mais recentemente a TV digital, tablets e smartphones.
O enigma que os economistas devem decifrar é: quais setores do sistema produtivo precisam de uma injeção de produtividade para atender essa demanda sem aumento abusivo de preços.
O pleno emprego e o aumento da renda dos trabalhadores, ocorrendo em curto prazo num contexto de desigualdades históricas, baixa renda e trabalho informal, tendem a produzir distorções de preços, em parte,  porque a economia estava organizada para os padrões estáveis de uma classe média tradicional e de pouca escala.
De repente, essa classe média, que nunca passou de 15% da população brasileira, tem a companhia dos emergentes, que representam mais de 55% da população e formam um novo país de 105 milhões de consumidores.
Mas jornais e revistas são feitos para a classe média tradicional, o que justifica a reportagem de capa da revista Época desta semana.
O texto é um primor de falácia jornalística: “O arrocho da classe média”, diz o título da reportagem, com a chamada de capa em tom de manifesto: “A conta sobrou pra você”.
Com uma série de exemplos de famílias com renda superior a R$ 8 mil mensais que agora precisam conter custos,Época faz coro aos lamentos da dona de casa que se vê obrigada a reduzir seus gastos com cabeleireiro, de R$ 800 por mês – e agora tem que fazer hidratação facial em sua própria casa!
Também há o exemplo dos brasileiros de classes A/B que não aguentam mais pagar o preço do vinho nos restaurantes, porque não dá para manter esse hábito essencial e ao mesmo tempo custear o médico particular. Eles são obrigados a reunir os amigos para beber em casa!
A reportagem nota, com espanto, que na última década a renda dos 10% mais pobres subiu 91,2% acima da inflação, enquanto a dos 10% mais ricos subiu apenas 16,6%.
Há outras referências, mas bastam esses exemplos do que a revista chama de “calvário” da classe média tradicional.
O texto termina com um recado para seus leitores: “Eu era feliz e não sabia”.
A frase poderia ser bem outra: “É a distribuição de renda, cidadão”.

2 comentários:

Anônimo disse...

Douglas, qual a sua opinião sobre a divulgação nominal de vencimentos de servidores públicos calcada no "acesso à informação", publicidade e afins?

Abs.

douglas da mata disse...

Sou contrário.

A população deve ter acesso aos vencimentos dos cargos e categorias dos quadros funcionais, mas individualizar esta informação é uma agressão ao seu sigilo fiscal, sem que haja nenhum processo e ordem judicial para tanto.

Partindo desta premissa, todos os contratos (empresas), todas as pessoas porventura recebam recursos do Erário (direta ou indiretamente) deverão ter seus ganhos divulgados.

Senão parecerá uma ação dirigida a boa e velha demonização do servidor público!

Um abraço.