sábado, 15 de junho de 2013

Afinal, quem são os indignados?

Já dizia o intelectual miolo mole, caetano meloso, em alguns dos seus raros momentos de lucidez: "alguma coisa está fora da ordem".

Há a algum tempo, li no blog do Roberto Moraes, algo que mencionava que os movimentos políticos de contestação deveriam começar nas cidades, nos temas urbanos, dada a quase impossibilidade de impor agendas universais, dada a crise de representatividade na qual o capitalismo mantém sob sequestro a democracia.

Creio que era em uma entrevista do ótimo geógrafo David Harvey, um dos melhores interlocutores do marxismo nos dias de hoje.

Bom, ao enxergar a pauta das manifestações de algumas capitais brasileiras, senão me engano, Rio, SP, Porto Alegre, Maceió, Brasília, Curitiba, Manaus, e BH, está claro que o estopim foi a mobilidade urbana, expressa na questão do preço e da qualidade do transporte público.

É um grande começo, e que possibilita um amplo questionamento dos usos dos orçamentos públicos municipais.

A truculência das forças estatais não deixa dúvidas que os grupos que estão no controle das administrações não hesitarão em sufocar qualquer chance de que a luta política lhes fuja ao controle, sob os métodos tradicionais da disputa.

E pelo que foi mostrado, nem interessa se há no meio gente pouco acostumada a violência policial, comumente destinada aos mais pobres e de cor.

Mas ainda que tenha esperança (afinal, ela é a primeira que adoece, embora seja a última a morrer), tenho certa prevenção a todo este oba-oba que alguns blogs têm saudado as manifestações juvenis, mormente as de SP, justamente as mais massacradas pela PM.

Não me refiro aos calhordas de sempre, que tentam embarcar no movimento, como forma de contrabandear uma insatisfação onde ela não poderia existir: afinal, há empregos, renda, vagas nas universidades, etc, como nunca houve neste país.

Eu falo dos setores sinceros (porém ingênuos) da esquerda e da blogosfera, que parecem observar os jovens em marcha como aqueles pais frustrados que nunca chegaram a protagonistas, ou falharam neste intento, berrando à beira do gramado, com técnicos, juízes e adversários.

É preciso cuidado, muito cuidado, porque amor demais sufoca, e expectativa demais atrofia.

Movimentos desta natureza são sobrevivem sem grande articulação com outras esferas orgânicas e POLÍTICAS da sociedade, embora todo espontaneísmo inicial, próprio dos hormônios imaturos sejam bem-vindos. 

É preciso DIREÇÃO.

Que faltou aos cara-pintadas, que não foram a lugar algum, por exemplo!

Que faltou na Primavera Árabe, engolida e sufocada!

Que faltou ao Occupy Wall Street, transformado em um bando de andrajos em parques pelos EEUU.

Um olhar mais acurado sobre os manifestantes dirá que não se tratam de usuários de ônibus os que estão nas ruas de SP, por exemplo, ao menos, não em sua maioria, o que não os desqualifica, mas nos deixa na boca aquele velho gosto amargo de um vanguardismo classe média, que pretende "iluminar" os pobres e incultos que eles julgam manipulados e domesticados.

É esta gênese autoritária, porém compreensível, destes movimentos que os matam no nascedouro: falta-lhes legitimidade, embora a agenda seja real, ou seja, o transporte público, o uso de dinheiro público em eventos desnecessários, etc, merece atenção e revolta.

Mas não é este pessoal que está nas ruas que mais sofre.

É mais ou menos como uma passeata de meninos e meninas brancos pintados de preto a lutar contra discriminação racial.

Justo, porém inacreditável.

6 comentários:

Anônimo disse...

Quatro opiniões, interpretações, conclusões, rigorosamente majoritárias sobre os acontecimentos de São Paulo e do Rio, que já repercutem no exterior, incluindo críticas duras e preocupadas da Anistia Internacional. E que ninguém sabe como vai terminar.

1 – As manifestações começaram de forma rigorosamente pacíficas, eram protestos não só quanto ao aumento inesperado dos preços. Muitas pessoas, em praça pública, diziam: “Até aceito o aumento das passagens, mas é preciso melhorar, e muito, a qualidade dos serviços”. Escorchados nos preços e negligenciados nos serviços.

Era vivível a boa vontade, mas o poder público não cobra das empresas pelo menos a prestação de um serviço razoável. Os trens, ônibus e metrôs, todos encarecem juntos, mas continua a superlotação, horas e horas a esperar um transporte, que não serve a ninguém, ou “serve” de forma inacreditável de tão precária.

2 – Podia ter começado um diálogo a partir daquela constatação, não havia ninguém para cuidar do assunto, governador e prefeito em Paris, ninguém para fazer uma intervenção não hostil. Manifestações, protestos, reivindicações são próprios da democracia.
3 – Estabanada, sem comando superior, a Polícia entrou logo com violência, agredindo, exorbitando, praticando um dos piores crimes, que é o “abuso do Poder”. Alguns dizem, “estavam desarmados”. A Polícia nunca está desarmada, sempre leva vantagem, usam e abusam do que chamam de “armas não letais”. Mas essas armas devem ser usadas contra partes inferiores do corpo, os policiais atiravam prazerosamente contra o rosto e a cabeça dos manifestantes.

A maioria dos feridos, no rosto e até nos olhos. E pasmem, existem testemunhos e imagens das câmeras flagrando policiais derrubando simples cidadãos e anulando-os implacavelmente. Era o mais forte, pelo físico, treinamento e armas, massacrando os cidadãos que pagam impostos, só não queriam pagar esses aumentos indiscriminados de preços.

4 – Os manifestantes cometeram então provavelmente o único erro: a depredação, chamada de vandalismo. Nisso eles perdem em qualquer avaliação. Foi exagero, patrimônio público e privado não pode ser destruído. Mas queriam o quê? Que a multidão continuasse sendo agredida, violentada e espancada, e “desse a outra face”? Nesse item, não há justificativa, mas atenuante para os manifestantes.

E agora, como terminará o episódio provocado lamentavelmente pelas Polícias de São Paulo e do Rio? E que já se espalham por 6 ou 7 capitais.

douglas da mata disse...

Vão se contidos pelo cansaço, e pelo despreparo, frente ao uso autoritário da violência policial.

Em metrópoles onde existe um carro para quase duas pessoas, boa parte dos chamados "(de)formadores de opinião" nem se lembra qual a última vez que usou transporte públicos, incluídos aí, boa parte dos manifestantes.

Transporte público, invariavelmente, é o símbolo da fratura da cidade, ou seja, do apartheid urbano que exila pobres para as franjas da cidade.

Se fosse nas periferias, o que é muito pouco provável de acontecer, não teríamos jornalistas feridos nos olhos, porque não haveria jornalistas, a não ser os que se dedicam as páginas policiais(e estes contam com o beneplácito e compadrio da polícia). Como não haveria muitos jovens presos: boa parte estaria nos hospitais e alguns nos necrotérios.

Os cidadãos (quase sempre os mais ricos) não são apenas vítimas da mercantilização da cidade e suas ferramentas, são cúmplices, e seus maiores beneficiários.

Os pobres? Ora, danem-se os pobres.

Anônimo disse...

Douglas, penso que pensar fazer política exclusivamente com os guindados das sombras por este governo é um erro. E os números não seriam tão expressivos fossem só eles...

Mesmo porque, essas pessoas já engendram novos anseios.

Não é coerente admitir o pragmatismo que permite a governabilidade, ao passo que se deslegitima um movimento porque não comporta a assepsia de uma homogeneidade impossível.

Sua postura beira um esquerdismo conservador, se é que isso existe.

Não deu pra ser e fazer governo puro sangue, nem com algumas questões antes inquebrantáveis...

Não dá pra exigir, também, que o movimento congregue apenas "pretos para pretos"; "usuários de transporte público para usuários de transporte público"; órfãos de qualquer pensamento de próceres do lume à massa amorfa refém "das bolsas".

Esses movimentos não parecem congregar a revolta com a inflação das pedicure e da massagem capilar...

Não parecem um novo "Cansei"...

Não se limitaram ao ajuntamento de meia dúzia nos Jardins ou Ipanema...

Nem refletem a uma dúzia dos extrema esquerda nanicos. Juntos.

Os Jabores e os Reinaldos da vida já visualizaram a oportunidade e trabalham o sequestro da "pauta".
Com "mea culpa" e tudo...
Desagravo no JN, também...
Isso, somado ao discurso de demonização da classe política, que já colou, traz uma mistura glicerinada...

douglas da mata disse...

Caro comentarista,

Eu posso estar errado, mas continuo a ter minha opinião singular sobre os fatos:

A evidência revelada nas mídias corporativas, e assumida por você, de que estas procuram, seja lá no planalto ou aqui na planície, adotar o "movimento" e dar-lhe uma pauta, já mostra a que veio.

Este processo de "incorporação" em manifestações ou movimentos que têm alguma direção, e ligação orgânica com as causas que dizem defender, é quase impossível.

Ou você acha possível que militantes jovens do MST sejam mostrados como griffe-estação-primavera-outono-protesto na TV?

Imagina que os jovens sem-teto, e os seus solidários com teto, do Pinheirinho, recebessem este tipo de atenção?

Ou os jovens índios e não índios do Mato Grosso?

Pois é...

A artificialidade que ressaltei, e que usei a metáfora dos pretos pelos pretos, do trabalhadores pelos trabalhadores, reside nesta falta de direção.

Claro que sei que o espírito juvenil dá corpo e densidade a várias movimentos históricos. Eu mesmo já participei deles.

Pode parecer que não, mas eu também já fui jovem um dia, rsrs.

No entanto, como disse, tínhamos direção, debatíamos a política, e não a anti-política.

Ao contrário do que você imagina, não sou um fatalista do pragmatismo. Sei o limite, tanto da busca pela governabilidade, quanto da ousadia.

Mas outra vez, quem dá a medida e as soluções para equilibrar os dois é a política, e não a anti-política.

É isto que falta a estas manifestações, e com certeza, as tornará uma lembrança estética em breve, como foram os cara pintadas e outros fenômenos do gênero.

O que, afinal, é uma pena: tanta energia desperdiçada, e tanta coisa por fazer.

Anônimo disse...

Sim, mas, até que ponto o espaço da não-política tem a medida exata do hiato que a política, dos partidos organicamente, deixou de ocupar e encampar?

Quem dava a direção, ainda dá hoje?

Os caras pintadas "não deram em nada" e foram apenas um "movimento estético", ou foram, de fato, a última movimentação orgânica partidária na história política brasileira?

De lá saíram, talvez, as hoje última lideranças nacionais jovens. Em grande parte progressista e encaminhada para a base.

De lá saiu o que hoje representa a importante demarcação política que o PT nunca teve no Estado do Rio, e que também conseguiu, empunhando a bandeira cara pintada, a maior votação da história do nanico PSTU.

Eu sou bastante cético com esse tipo de saudosismo da pujança que realmente tiveram as gerações passadas. Me lembra, no filme do Allen, um Buñuel que remói o cinema de outrora, esse sim, de grande valor.

Continuo a acreditar que a densidade possível desse tipo de movimento, como você aponta, é a mesma, ontem ou hoje.

A domesticação ou sequestro do movimento não parece pacífica, ou a turma da Globo não precisaria gravar sem os cubos da emissora e mandar que seu repórter diga, do helicóptero, querer "frisar que esse movimento é também contra a PEC-37" (exatamente nestas palavras), enquanto mostra a imagem de um solitário manifestante com tal cartaz em meio a turba sem direção.

O que parece ter mudado é o ímpeto de dar direção. E é neste vácuo que ganha corpo o apartidarismo, a apolítica, a cooptação por parte de um PSOL, e sua incoerência de dissidente petista enquanto governa com a oposição, ou de qualquer novo partido que nem como tal se nomina...

É este vácuo, também, que diminui o poder de aglutinação do partido, pulveriza a base e concentra a necessidade de mais acordos, contemporização de interesses e esperas, maiores, para algumas mudanças mais estruturais.

Este vácuo também ocasiona, no plano local, que um sobrinho do Turco desça o cacete no partido no Facebook. Pois é.

Certeza que tenho é de que, quem sempre virou a cara e desceu a bordoada nesse tipo de movimento, termina com a eterna dobradinha Serra/Alckimin, que vem perdendo espaço. E ficando velha!

douglas da mata disse...

Ninguém tem a medida exata de nada. Mais importante de alcançar a "medida" é construir a conjuntura que permita sua busca.

Parece chavão, e é. Porém, não deixa de ter coerência com o que vivemos.

Há de se fazer uma clara distinção entre os momentos históricos reivindicados por suas declarações:

O fato do movimento cara-pintada ter possibilitado alguns surtos localizados, e a expressão de setores politizados contidos naquele oceano de manipulação midiática e anti-política, não significa que tais exceções possam ser elevadas a categoria de regra.

O próprio Lindbergh é um exemplo de maior "sucesso".

Tanto como efêmero, localizado e datado sucesso do PSTU.

De um lado, o lindinho como manifestação da política tradicionalíssima, e o PSTU, junto com psol e outros nanicos, hoje, vocalizadores da macartismo udenista.

O último movimento juvenil de deflagrou alguma mudança, de fato e de direito, está nas gerações que encamparam o projeto desde 89, e que desembocou em 2002, atuando desde os grêmios estudantis, os diretórios acadêmicos, junto as sindicatos e associações.

E isto não foi exclusividade da militância petista, pois tínhamos a UJS (PC do B), a Juventude Brizolista, etc.

E elas estavam nas ruas como um processo político mais amplo, e não como uma febre terçã.

Todos incorporados pela solidariedade, e uma direção política clara de derrotar um modelo, carregando o legado que lhes foi entregue pela geração que combateu a ditadura, recebendo a tradição (entrega).

Se foram (fomos) mais ou menos bem sucedidos, eu creio que só o distanciamento do tempo permitirá tal análise, mas é certo que pelo tanto de ataques que sofremos todos os dias, é certo que estamos no caminho, embora muitos, como você, enxerguem que estamos "sem direção", ou "frouxos" demais, pelo vício do pragmatismo.

O que eu digo é que este movimento atual não recebeu nada, e não porque não houvesse o que herdar!

E se é verdade que havia um vácuo, é porque as direções se omitiram tanto quanto os que necessitavam desta direção!

A domesticação, violenta ou não, é sempre um processo de mão dupla!

Mas talvez porque as facilidades conquistadas por nós (um país muitíssimo melhor do que enfrentamos, em todos os níveis), e com todo o sedentarismo ativista proporcionado pelas mídias eletrônicas, a juventude de hoje esteja mais sujeita a explodir sem nada que dê causa a esta explosão, ou pior, por causas que não sabem definir.

Por certo a domesticação pode não ser pacífica, concordo, mas não muda o nome e o resultado.

Eu não tenho certeza de muita coisa, mas não hesitaria em descer a bordoada em qualquer movimento fascista que ameaçasse o que foi conquistado até aqui.

Não negocio democracia com anti-democráticos, nem discuto o menu com canibais.

Um abraço.