sexta-feira, 10 de maio de 2013

O beijo gay é (grande) família!

Ontem, no episódio da interminável e cansativa série global, A Grande Família, uma cena, um fato passou despercebido, haja vista que hoje não li, até agora, nenhuma repercussão.

Talvez esta tenha sido a intenção: tornar tão sutil que ninguém perceba, e assim fugir a polêmica. Mas o efeito colateral é também fugir da reflexão.

O personagem Lúcio Mauro Filho, o Tuco, no fim do programa, recebe um beijo de Thiago Lacerda, em cena de um filme onde o primeiro aceitara atuar, pressionado junto a família, amigos e a nova namorada pela sua atávica inapetência ao trabalho.

O tão debatido e disputado beijo gay na TV acontece com a encenação de uma tomada do Beijo no Asfalto, de Nelson Rodrigues.

O problema:

A Globo, incapaz, como todas as demais empresas de mídia, de desafiar seu público, reforçando tabus que, cinicamente, chamam de respeito a este público, isolou o beijo gay de tal forma que escolheu a ficção dentro da ficção, e escolheu outras formas narrativas de expressar seu preconceito:

01- Tuco é assumidamente hetero, ou seja, sua opção sexual não se manifestaria em beijos em outro homem, logo, é uma farsa dentro de outra farsa, como dissemos;

02- Não tinha outra opção se quisesse emprego, logo, seu beijo não foi um gesto que representava uma relação homo-afetiva, mas uma obrigação contratual;

03- Todo o tempo, para demonstrar a modernidade da classe média suburbana carioca, a mãe e irmã diziam: "que  mulher não gostaria de estar em seu lugar", isto é: homem nenhum poderia ter tal desejo!

E enfim, durante parte do programa, explora-se o conflito de Tuco, que não teria lugar em um mundo, ainda que fictício, onde o beijo entre homens não fosse tratado como preconceito, ainda que travestido de tolerância.






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