domingo, 26 de maio de 2013

Cultura e ideologia: Afinal, tudo está à venda?

Como prometido ao comentarista Marcos Fernandes, que se identificou como estudante, aqui, este texto se dedica a analisar as relações entre mercado cultural, bens culturais e ideologia, a partir das considerações do Marcos acerca do documentário Marcelo Yuka no caminho das setas.

Para quem não se recorda, Marcelo Yuka é músico, compositor e baterista, que atuou na banda O Rappa.

Yuka foi vítima de um disparo de arma de fogo, durante um assalto, e ficou paraplégico.

Não assisti o filme, mas a proposição de alguns trechos é estimular um debate sobre o principal motivo da saída de Yuka da banda, ou seja, a discordância sobre o tipo de mensagem que Yuka deseja implementar, de cunho político, vinculado as manifestações dos setores organizados da sociedade, como MST.

O próprio comentarista Marcos Fernandes traz uma boa parte da solução do debate.

Geralmente, a hegemonia do mercado capitalista sobre a indústria cultural de massa, com não poderia deixar de ser, faz-nos crer que é errado ou censurável a vinculação da manifestação artística com determinados conteúdos político-ideológicos (sempre os que contestam a hegemonia capitalista), e incutem a (falsa) ideia de que esta vinculação já não esteja impregnada nos produtos culturais que ela "permite" que sejam colocados a disposição do grande público.

Assim como o mito da mídia imparcial, há o mito do artista "livre", da "arte neutra" ou da "arte apolítica".

Então, o que temos é uma discussão baseada em premissas falsas, onde a indústria e alguns "artistas livres" partem para estigmatizar a "arte engajada" como símbolo de submissão que prejudicaria a estética, sendo eles (os "livres" ou "apolíticos") os depositários da "estética da liberdade", única forma possível de se fazer arte digna de tal nome.

Claro, dentro desta construção (ideo)lógica estão inseridos, de forma mais ou menos visíveis, todas as classificações e cortes de classe, que legitimam algumas manifestações e deslegitimam outras, tanto pelo conteúdo, pelas escolhas políticas dos artistas, sua localização geográfica e público alvo!

Um sistema de classes e valores que te dizem, desde criança que:
"(...) o pato vinha cantando alegremente quén, quén(...)" 
é lindo, é cool, é up to date.

E que:
"(...)eu só quero é ser feliz, andar tranquilamente na favela onde eu nasci/ E poder me orgulhar/E ter a consciência que o pobre tem seu lugar(...)" 
é música de bandido, lixo cultural!

Mas o que a mídia "especializada" e os "intelectuais" não dizem é que o mercado determina também, de acordo com suas intenções (e sua POLÍTICA), quais serão as manifestações artísticas que serão "domesticadas", e onde cada uma delas será disponibilizada.

Deste modo, eles dizem que música clássica é chique, e funk é lixo, e dizem ainda que deve ouvir música clássica e quem deve ouvir funk, como forma de reproduzir na cultura as formas de segregação e verticalização (elitização) que mantém as coisas no estado de coisas que julgam apropriado.

Teremos inclusive definido por estas instâncias que se dizem "apolíticas", quais serão as formas de rebeldia toleradas!

É em nome disto que Falcão atua, como bom garoto rebelde-de-encomenda, que talvez nem se dê conta do papel que exerce, como a maioria dos "artistas livres".

Não se trata de desconhecer as possibilidades de veiculação oferecidas pela indústria cultural, ou defender o isolamento cultural, mas a ditadura desta indústria, por outro lado, não traz possibilidade do exercício da diversidade, legando aos movimentos culturais que se negam a submissão, o caminho da produção independente.

Esta cena alternativa, com a realidade da internet, e dos avanços tecnológicos que baratearam e aumentaram as chances de produção do tipo faça-você-mesmo, tem representado uma interessante contraposição a hegemonia midiática.

Nomes como Racionais Mc, os festivais de rock e outros gêneros pelo Nordeste tem revelado que é possível sobreviver fora dos circuitos dos jabás e de outros esquemas de divulgação da mídia.

Marcelo Yuka, por toda sua biografia, inclusive sua resistência a ceder a mágoa e ao ressentimento vingativo e violento, a partir da tragédia que vivenciou, lhe dá as credenciais para estar sempre de cabeça erguida em relação a idiotas como Falcão!

Se Marcleo foi condenado a ficar sentado, Falcão escolheu viver de joelhos frente aos patróns!

11 comentários:

Anônimo disse...

Valeu Douglas, ótimo texto!

Abs,

Marcos Fernandes

douglas da mata disse...

Grato a você pela confiança.

Anônimo disse...

O Rappa começou tão bem...

Está em declínio, decadência...

É o resultado da saída do que eles tinham de melhor: conteúdo.

Anônimo disse...

Tudo é política, se engana quem pensa o contrário. Algumas pessoas acreditam que estampar um marca ou frequentar determinados ambientes não é escolher um caminho político a seguir. Quem não acredita nisso está longe de entender nosso tempo.
Arlindo Cruz presta um desserviço ao samba ao frequentar a rede globo.

Anônimo disse...

A FIFA criou algumas leis que proíbem e punem o jogador de futebol que faz determinadas manifestações na comemoração dos gols.
Lembra das comemorações do Reinaldo do Atlético?
Agora nada proíbe que as camisas dos clubes virem determinados Outdoors!

douglas da mata disse...

Pois é, o REInaldo imitava o gesto dos Panteras Negras, nos EEUU.

Anônimo disse...

Os comentários acima só refletem preconceito!
Arlindo Cruz e Falcão, assim como outros artistas que vieram de baixo querem apenas o melhor para eles e para seus familiares. Eles vieram de um mundo de dificuldades e agora querem conforto. Todo mundo é assim, quem diz o contrário é hipócrita.
“Quem diz gosta de pobreza é intelectual, o pobre gosta de luxo”, já dizia o mestre Joãozinho Trinta.
Arlindo Cruz disse semana passada, que “a Globo hoje está muito mais negra”. Ou seja, o que ele disse é que a emissora atualmente está aberta aos discursos contra o preconceito racial e a favor da diversidade sexual. E o programa da Regina Casé, que ele participa, é um retrato disso.
Eu visto roupa de marca e quero sempre o melhor carro do ano, e isso é sinônimo de querer qualidade, não de não me preocupar com os outros.
As formas de se lutar por um mundo melhor são diferentes daquelas do século passado.

Anônimo disse...

Analisando a situação mais detalhadamente, inclusive após o seu texto, percebo também que algumas empresas, num descarado comportamento político/ideológico, utilizam-se de peças publicitárias que propositalmente não se parecem com peças publicitárias, e aí eu incluo a contratação até de alguns artistas, que às vezes nem precisam participar de propagandas propriamente ditas.
Isso é muito comum em vídeos na internet, onde as agências de marketing digital tentam cooptar o natural anseio das pessoas por dividir o que os chama atenção, digo isso nas redes sociais, para promover marcas e lançar produtos no mercado, mas também ocorrem em festivais de música e com a utilização da imagem de jogadores de futebol.
Marcos Fernandes.

douglas da mata disse...

Eu vou tentar ser o mais "calmo" possível para analisar o comentário acima, vamos a autópsia:

"Os comentários acima só refletem preconceito!"

Resposta: Não há preconceito algum nos comentários acima. Há a exposição de um visão sobre mercado cultural e a produção de bens culturais de massa dentro de uma perspectiva da luta pelo controle ideológico das classes sociais.

"Arlindo Cruz e Falcão, assim como outros artistas que vieram de baixo querem apenas o melhor para eles e para seus familiares. Eles vieram de um mundo de dificuldades e agora querem conforto. Todo mundo é assim, quem diz o contrário é hipócrita."

Resposta: A origem e o desejo de prosperidade não foram atacados neste texto e nem nos comentários.

Ao contrário, citamos exemplos de artistas que vivem no conforto, conseguem propagar seus produtos culturais, sem se portarem como prostitutas da indústria cultural de massa, ou sem desconhecer as manobras ideológicas promovidas por esta indústria, inclusive para sufocar qualquer manifestação que não vista o figurino que ela determina.

“Quem diz gosta de pobreza é intelectual, o pobre gosta de luxo”, já dizia o mestre Joãozinho Trinta."

Resposta: Não discutirei o mérito artístico de Joãosinho(seu nome é com s).
Ele teve muitos.
Mas sua frase, aliás como todas as frases de impacto, foi retirada de contexto e passou a ser usada para justificar qualquer asneira dita(como foi o caso aqui).

Ora, Joãsinho Trinta se referia justamente a inclinação da indústria cultural em segregar os gostos, partindo da premissa que a pobreza só deveria ter acesso a determinadas manifestações de viés estético menos apurado, o que não tem nada a ver com riqueza material somente.
Sua maior obra, o desfile da Beija-Flor(que inclusive foi censurado pela indústria cultural religiosa)falava de pobreza com uma elaboração estética sofisticada.

Neste sentido, sua crítica era a paradoxal inclinação de certos setores da intelectualidade em utilizar a pobreza como objeto de suas digressões, sem, no entanto, comprometerem-se com a mudança do estado das coisas.

Mas como todo gênio, Joãosinho também cometeu uma injustiça, ao incorrer na generalização.

Continua no outro comentário....

douglas da mata disse...

Continuação do comentário anterior...


"Arlindo Cruz disse semana passada, que “a Globo hoje está muito mais negra”. Ou seja, o que ele disse é que a emissora atualmente está aberta aos discursos contra o preconceito racial e a favor da diversidade sexual. E o programa da Regina Casé, que ele participa, é um retrato disso.

Resposta: Um traço comum da síndrome de Pai Tomás é a domesticação dos negros e de outras minorias pela suposta exposição, que chamo de exposição controlada. Ou seja, embora a visibilidade seja um fator importante de auto-afirmação, na forma como é colocada dentro da globo passa a ser um fetiche, e só, sem qualquer carga simbólica de desconstrução das injustiçam que lhes negavam o acesso até bem pouco tempo.

É quase um milagre: Não havia negros na TV, e agora os há! E quem é o "deus" deste milagre: A Santa Mídia!
Mas nas novelas, nos produtos jornalísticos, etc, todos considerados mais "nobres"(do ponto de vista comercial), a globo continua a destinar a estes gêneros e raças o mesmo desprezo e massacre ideológico-simbólico, embora para um consumo específico(sempre por questões de mercado) separe um espaço onde, aparentemente, as diferenças e cortes de classe são tratadas de forma mais justa.

"Eu visto roupa de marca e quero sempre o melhor carro do ano, e isso é sinônimo de querer qualidade, não de não me preocupar com os outros."

Resposta: O problema, meu filho(a) não é só o que veste, ou o que consome, mas sim se estas coisas te consomem antes.
Afinal, o que é o "melhor carro do ano"? Quem define o que é melhor? O uso, a utilidade do bem, ou uma série de valores incutidos para fazer crer que o mais caro é sempre melhor?
O nome disto é cultura da opulência e da obsolescência programada.
Tomara que as roupas que você usa não tenham sido tingidas com o sangue das vítimas de Bangladesh ou de outro desastre humano-trabalhista qualquer.

"As formas de se lutar por um mundo melhor são diferentes daquelas do século passado.".

Resposta: É...assista Regina Casé, frequente o feicebuquistão e abra uma Coca-Cola...deve ser, embora o hábito da Coca-Cola nem seja tão recente assim.
É bom lembrar que as formas de dominação, de exclusão, enfim, a manipulação ideológica dos bens culturais continuam iguais as do século passado, e temo que continuarão assim, enquanto houver gente pensando como você.

douglas da mata disse...

Marcos, sua percepção sobre este uso subliminar da imagem é correto.

Nestes tempos de "diluição incorporada"(Como diz o bandleader Fred Zero4, da Mundo Livre S/A), esta tática é fundamental para mascarar os usos ideológicos e interesses da indústria cultural e do establishment.