sexta-feira, 12 de abril de 2013

Porto do Açu, Julius Caesar e os Gauleses: Lições.

Este blog, salvo algum engano, foi o primeiro a usar a paródia do notório quadrinho criado pela dupla Uderzo e Goscinny.

Para quem não conhece, vai um pequeno resumo: 

Os gauleses são um povo rebelde, acuados e sitiados pelas legiões romanas, comandadas por ninguém menos que Julius Caesar.

São a última cidadela a repudiar Roma, e dia após dia, surram sem dó, nem piedade, mas com muito humor, os soldados de Roma, tudo à base de uma mágica e secreta poção que lhes dá força descomunal, e preparada pelo Druida.

Com exceção do Obelix, um enorme e fortíssimo gaulês, que caiu no caldeirão da poção quando pequeno, e que por isto, prescinde do aditivo.

Os enredos giram em torno de fatos e eventos históricos, claro, sem nenhum rigor, mas que trazem boa diversão.

Sacaneiam os povos nórdicos, tiram sarro dos egípcios e sua rainha Cleópatra, tripudiam da arrogância grega, seus mitos e a Olimpíada, etc.

Logo que começaram as disputas políticas das populações locais, despejadas de sua localidade, o 5º Distrito de SJB, este blog associou este drama real com a obra.

Neste sentido, lembremos a epigrafe que apresenta todos os quadrinhos:

 "Estamos no ano 50 antes de Cristo. Toda a Gália foi ocupada pelos romanos ... Toda? Não! Uma aldeia povoada por irredutíveis gauleses ainda resiste ao invasor. E a vida não é nada fácil para as guarnições delegionários romanos nos campos fortificados de BabaorumAquariumLaudanum e Petibonum ..."


Trata-se de uma imagem poderosa, e que contextualizada no século XX e XXI, simboliza a luta que se trava no interior dos impérios, ainda que pareça loucura, onde a poção mágica usada, o druida, os costumes nos mostram a tentativa de resistência ideológico-cultural dos povos frente a suposta globalização.

O assédio ao  5º Distrito compara-se ao cerco romano, e embora em SJB não haja druidas, há outras "poções".

Há uma consciência ancestral de pertencimento à terra, que funciona como alimento a luta contra-ideológica que se trava ali.

Foi este sentimento que tem funcionado como "poção mágica".

Analisando de longe, o principal efeito desta luta de pequenos agricultores, uns poucos cientistas biológicos e sociais, um ou dois promotores e alguns blogueiros malucos, não pode ser percebido no primeiro momento.

Refiro-me ao conjunto de eventos que, de forma caótica, acabaram por dotar este pequeno grupo de agricultores de alguma forma de poder, ainda que relativamente pequeno em relação ao domínio dos esquemas de mídia, capital e governos, para enfrentar os dogmas que justificam e movem empreendimentos desta natureza, seja aqui no Açu, seja em Pernambuco ou Santa Catarina.

A vila gaulesa de SJB conseguiu mostrar a população que os processos de ocupação territorial por grandes empresas. que por sua vez representam grandes fortunas, não são virtuosos e pacíficos, muito menos organizados, eficientes, e principalmente, inevitáveis sob estas formas sob as quais se apresentam.

Todos, eu digo, TODOS os problemas apontados pelos agricultores, blogs, cientistas, etc, foram se comprovando diariamente, sem que nenhum destes quixotes fossem dotados de poderes paranormais de clarividência.

Uma boa dose de bom senso, associada ao senso de observação histórica, cominada aos postulados da ciência e tecnologia, dotaram este grupo brancaleônico de uma capacidade razoável de acerto nos diagnósticos.

Mas não é só isto: Há, por trás de cada um destes envolvidos, um compromisso ideológico, que é tácito, mas que orienta e vincula todos na luta por algum tipo de Justiça dos mais fracos frente aos mais fortes. 

Esta noção é fundamental para entendermos que o direito (em amplo sentido) dos mais fracos deve ser observado com lentes diferentes das que analisam os direitos dos mais poderosos, na lógica consagrada em nossa Carta Magna, mas cinicamente esquecida: 

Nossa igualdade consiste em tratar os desiguais na proporção de suas desigualdade, e os iguais na forma de sua igualdade. 

Os efeitos desta luta, e desta capacidade adquirida pode ser lido nos órgãos de mídia corporativa locais, que tentam rebolar de todo modo, como forma de manter seus acordos econômicos com o capital, e ao mesmo tempo, tentarem assumir uma postura "crítica", ma non troppo, que preserve o restinho de credibilidade que ainda julgam possuir.

E o que aprender com isto?

Importa muito pouco se o Porto do Açu será implantado pelo senhor x ou pela ambulância-Petrobras. 

Com certeza será!

O que não pode ser deixado de lado é o capital político acumulado por este pequeno grupo de gauleses, onde desenvolveram ferramentas de enfrentamento que serão indispensáveis para tudo que vem por aí. 

O porto é só o começo.

É este o centro do interesse deste blog. 

Como se portarão as forças políticas que se mantiveram marginais a este processo, como partidos, sindicatos, entidades de classe (OAB, associações de imprensa, etc)?

Afinal, onde estavam o PT, PSOL, PSTU, e outras denominações políticas e personagens que se arvoram na condição de lideranças regionais "progressistas"?

Qual é o debate possível, ou melhor, qual é o debate imprescindível para que o esforço desta vila de gauleses não seja engolida?

Cumpre dizer que a pauta dada pela mídia de coleira, desde o princípio até agora, foi destroçada, e o que se revelou a um público que não tinha acesso a tais informações, foi a promiscuidade do capital privado nos orçamentos estatais, realimentando nosso ciclo patrimonialista, e de forma simultânea, temos a domesticação a imprensa, que manipula dados, tudo com o intuito de justificar práticas inaceitáveis.

Esta troica, capital, governo, mídia, subestima a condição da população em decifrar o que se passa, e quando questionada passa de um ponto a outro na mistificação: 

Antes tudo era explicado pela fatabilidade do deus-mercado e seus dogmas, e quando tudo sai mal, foi por culpa das "forças poderosas, malignas e ocultas", ou como disseram por aí, entre um delírio ou outro, um "poderoso lobby".

Em suma, algo bem parecido com um culto religioso, que despreza a razão, decorrente da ação política, da ciência, mas que se destina, não se enganem, a impor a razão deles, a política deles, baseadas na crença de que o dinheiro tudo pode e a tudo submete.

Vamos precisar de muita poção mágica.






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