terça-feira, 9 de abril de 2013

Dengue: A lenda urbana do pratinho!

Imagine você, leitor, que para diminuir os índices de criminalidade de seu bairro, as campanhas institucionais de propaganda governamental atribuíssem a você a tarefa de patrulhar seu quarteirão ou sua rua, sem lhe dar porte de arma, ou sem dividir com você o monopólio estatal do uso da força.

Ou imagine ainda que a ausência de escolas em determinada localidade fosse atribuída a preguiça dos moradores, ou a leniência deles em construir, eles mesmos (os moradores), e com recursos próprios, as unidades escolares.

É isto que acontece quando você acredita que a responsabilidade da endemia de dengue, e as mortes dela decorrentes são uma responsabilidade que você deve compartilhar com os gestores públicos.

Na polícia e na segurança pública chamamos este processo de criminalização da vítima, quando por um costume cultural, transfere-se ao comportamento da vítima o peso maior na relação de causalidade!

Mais ou menos, com no passado, e em alguns casos, dizíamos que os trajes femininos ou seus modos "provocantes" incitavam estupros!

O Estado, como organização política, social e econômica, de forma genérica, obriga, permite e veda alguns comportamentos dos seus cidadãos.

Você pode contribuir com a segurança de seu bairro, avisando a polícia de práticas e movimentações incomuns, ou testemunhando voluntariamente fatos de interesse da administração da justiça criminal? 
Claro que pode! 
Mas você deve? Lógico que não!
Você pode ser voluntário e ajudar da manutenção, construção e/ou reforma das escolas do seu bairro? Óbvio! 
Mas é culpa sua se isto tudo não for feito? Pensamos que não!

É mais ou menos o raciocínio em relação a dengue e a outros temas de saúde pública.

Desejamos que todos adotem cuidados preventivos para evitar a proliferação dos vetores transmissores, mas quando as campanhas (des)educativas passam a impor ao cidadão a obrigação de fazê-lo, e mais grave, quando condicionam o sucesso das políticas públicas sanitárias a esta suposta obrigação, temos mais uma MENTIRA CRIMINOSA!

A saúde pública é direito do cidadão, e DEVER do Estado, e não o contrário! E na noção de DEVER está implícita o obrigação de implementar todos os meios necessários para evitar que aconteçam MORTES em decorrência da incapacidade estatal, que se repete todos os anos!

Se o Estado vai invadir domicílio, autuar (multar) moradores, ou como em outras oportunidades, vai pagar pela captura das larvas do inseto hospedeiro (como já fez com ratos, gerando até um "mercado" de criação dos roedores, no início do século XX) é outro debate!

É o Estado que está por todo o lado, e que transcende o esforço individual e particular, e mais, que o disciplina e vincula a ações de amplo espectro!

Chega desta lenga-lenga protelatória e falsa de dizer que é o pratinho de água das plantas que é o culpado pela endemias mortais!

São a ausência do Estado e/ou sua omissão, que PERMITEM os pratinhos e outros depósitos especiais artificiais, logo, como causa e efeito, são os secretários de saúde, prefeitos, governadores e presidentes que estão nesta linha de responsabilização objetiva!

Nenhum comentário: