sexta-feira, 8 de março de 2013

O fim do Muda Campos, ou como desperdiçamos a era do ouro negro!

Nem sempre, na História, ciclos econômicos coincidem com ciclos políticos. 

Os períodos de maturação de movimentos econômicos tendem a ser mais perenes, enquanto os ciclos políticos tendem a ser mais curtos.

Mas, paradoxalmente, em nosso país, esta lógica se apresentou de forma distinta. 

As eras políticas mais siginificativas de nossa História, como o período do Império, a República Velha, o Estado Novo e toda Era Vargas, JK, ditadura e o período da redemocratização recente, desde Sarney até Dilma, coincidiram com estágios econômicos demarcados, respectivamente:

Os ciclos exportadores de mão-de-obra escravista imperiais, o "café-com-leite" da República Velha, o nacional-desenvolvimentismo de Vargas, o desenvolvimentismo substituidor de importações de JK,  e seus planos quinquenais (50 anos em 5), o "milagre" da ditadura, e por fim, o neoliberalismo de Sarney até FHC, e agora o retorno a uma orientação mais intervencionista de Lula e Dilma.

Campos dos Goytacazes não foi diferente. 

O ocaso político da elite local, associada a uma pequena burguesia urbana, e estratos reduzidos de uma classe média, composta majoritariamente de profissionais liberais, castas de servidores públicos, dentre outras profissões, coincidiu com o declínio da lavoura monoculturista.

Desnecessário revisitar o fenômeno da migração das camadas excedentes de mão-de-obra do campo depauperado, que encheu as periferias das cidades, aumentando a demanda por serviços públicos, e pela interlocução com os representantes políticos, que não raro representavam os interesses antegônicos daquela imensa massa de gente sem emprego, sem casa, sem escolas, sem saúde, etc.

Atingida também, a classe média e a pequena bruguesia adensaram este grupo de apoio ao movimento que se autodenominou Muda Campos.

Couberam ao deputado Anthony Garotinho, e seu grupo político, fazerem a leitura do momento: redemocratização, alteração na correlação de forças e dos grupos de interesses, aumento da insatisfação, etc, que forneceram as bases da plataforma de seu projeto político vitorioso.

Vinte e quatro anos se passram, e a cidade experimentou um ciclo econômico invejável, mas que ao contrário das outras épocas, não se deu como resultado da dinâmica das forças econômicas, ou seja, como resultado da produção de riquezas e de processos vulgares de acumulação, mas artificialmente produzido por um espetacular injeção de recursos nos cofres públicos, de forma direta e sem mediações, impactos, contrapartidas.

Como se diz, um dinheiro que "veio de graça".

Nenhuma outra região do país, eu arrisco a dizer, do mundo, foi acometida de tamanha concentração de recursos per capita em período tão curto!

E arrisco a dizer também que nenhuma apresentou resultados tão pífios. 

Talvez a Nigéria, ou outro país africano, mas é certo que a legislação daquele país refém da British Petroleum, uma das 4 irmãs (BP, Royal Dutch Shell, Chevron-Texaco e Exxon Mobil) e dos outros, não contemplem tamanha "generosidade" no pagamento de royalties, e muito menos os governos daqueles países permitem que muncipios ou outro ente federativo de lá recebam a maioria das indenizações.

Mas voltando a vaca fria, é certo dizer que um ciclo político começa a se encerrar, junto com o ciclo econômico.

O deputado e sua entourage não ultrapassam mais os limites regionais, e ainda que se reestabeleçam no governo do Estado do Rio, o que é improvável, não mais conseguirão manter esta cidade como plataforma indevassável de seus domínios políticos, até porque, com o aperto no caixa, haverá uma total reformulação do quadro local, das demandas, dos interesses, tal e qual aconteceu no fim da década de 80 do século XX, quando o beneficiário foi, justamente, o grupo que está prestes a cair.

Ainda assim, com um Estado destroçado pela mesma irresponsabilidade orçamentária praticada por aqui, sem as as receitas de royalties, inlcuídas aí as que foram dadas em garantia de sua dívida pública, com o esvaziamento do caixa pelos gordos e criminosos subsídios concedidos aos empresários "amigos", não é de se esperar um céu de brigadeiro para quem sentar na cadeira do Palácio das Laranjeiras.

Se é verdade que dinheiro não traz, e não nos trouxe felicidade alguma, também não nos ajudou a sofrer com nenhum estilo!

Ironicamente, as partes mais visíveis desta era de opulência estejam na saída da cidade rumo a SJB, e em frente a rodoviária velha: O Cepop e um valão de côco embrulhado para "presente"!



3 comentários:

Fernando disse...

Boa leitura Douglas. Também acho que a era do Muda Campos está chegando ao fim.
Mas o que virá depois, se quase todo quadro político da cidade tem ou teve relação com este grupo?
Pode se dizer como se fala nas ruas: quase todos são "crias" do ex-radialista e seu estilo.
Perdemos uma grande chance e vamos nos lembrar dela para sempre. Ficará na memória o tempo em que tínhamos dinheiro para tudo e escolhemos fazer um Cepop por exemplo.
É como se um gênio da lâmpada nos concedesse três desejos e tudo que pudemos pedir foram bugingangas com a volatilidade de um show.

Fracassamos em quase tudo que uma cidade pode fracassar, mas, na minha opinião, o pior legado deste grupo político foi ter aniquilado toda e qualquer cérebro que os fizesse sombra. Seja cooptando ou sufocando por diversas maneiras toda e qualquer liderança, o grupo Garotinho fez muito mais mal à cidade do que se imagina.
Destroçou também os empresários sérios que, segundo a cartilha da Lapa, aprendeu que só há sucesso por vias tortas.
Humilhou o cidadão ensinando que para conseguir uma casinha ou um empreguinho, tem que defender o político amigo com unhas e dentes.
Cravou uma estaca no coração da juventude já tão desnorteada, com a anestesia dos shows e um ensino deprimente, último colocado.

Desperdício enfim, de um monte de recursos que poderiam ter sido utilizados, (no sentido de nos ser ÚTIL) mas que na verdade foram USADOS com extrema incompetência e imprevisão.

douglas da mata disse...

Fernando, seu comentário me deu ideia para outro post, mas desde já adianto um pouco dele:

Garotinho não é uma aberração, é antes uma escolha política nossa, do nosso povo!

Não se pode colocar o eleitor, mesmo que o mais jovem dele, como uma vítima desamaparada.

Somos todos cúmplices dsa escolhas.

Não há problema em votar em um governo que dê casa, renda mínima ou outro benefício qualquer.

Na essência, exercer política é disputar a atenção do Estado para nossas demandas, umas mediatas e outra imediatas.

O problema do modelo foi, aí sim, concordo contigo, condicionar a satisfação da demanda como um favor e não como direito universalizado.

Mas até aí, nós nos acomodamos e assistimos a tudo acontecer.

Um grande abraço.

Fernando disse...

Verdade Douglas. A escolha foi nossa. Não acho que não faço parte disso. Faço sim.
O lugar comum de culpar os outros por tudo não me atinge. É tudo culpa minha (nossa) latu senso.
Por isto disse que fracassamos.

Abraços,

Fernando