sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

Carro novo: O custo Brasil é muito menor que o LUCRO BRASIL.

Durante muitos e muitos anos, nós, brasileiros, educados à moda estadunidense, sob a cultura do culto ao automóvel, alimentamos mitos que trouxeram diversos prejuízos, desde as relações contratuais e negociais em si, até as políticas públicas, que neste país, infelizmente, se misturam perigosamente.

Não há nenhum maniqueísmo nesta afirmação, ou seja, não se trata de culpar (apenas) as montadoras de veículos pelas nossas escolhas.

Hoje sabemos de cor, mas fingimos ignorar, os efeitos da exclusividade do uso de veículos particulares sobre todas as outras formas de mobilidade:

Enormes parcelas dos orçamentos públicos são destinadas ao uso de veículo de passeio, quer diretamente, nas intervenções públicas, como ruas e avenidas, viadutos e pontes, quer indiretamente, no aparato de segurança(roubos e furtos), agentes de controle e fiscalização, socorro médico/urgência/emergência hospitalares, internações, serviços de remoção e medicina legal, pensões por indenizações e mortes pela previdência pública, etc.

Na esteira desta indústria, o transporte de carga por caminhões se impôs como modal majoritário, e as conseqüências são trágicas, além de anti-econômicas:  de 60 a 70% dos incidentes com mortes que acontecem nas estradas tem ao menos um caminhão envolvido.

Recentemente houve a retomada dos fortes incentivos a indústria, sob a forma de renúncias fiscais e incentivos diretos, com a doação de terrenos e outras vantagens logísticas oferecidas por estados e municípios para abrigarem as plantas das montadoras.

É claro que não podemos depositar na conta das montadoras a nossa vocação suicida para dirigir, nossa atávica necessidade de misturar álcool e volante.

Mas com certeza se entendermos que o trânsito é uma das principais causas de mortes violentas, e que extermina nossa força jovem, masculina produtiva, colocando em risco nosso bônus demográfico previsto para vinte anos, o aumento da oferta de veículos deveria ser pensada com mais cuidado, e não ser utilizada de forma indiscriminada como medida anti-cíclica para as crises capitalistas.

No campo logístico tudo isto é ainda mais grave, pois um país como o nosso, nestas dimensões e perfil econômico, não pode ser refém de uma modalidade de movimentação de cargas apenas.

Além de tudo isto, a indústria reserva a nós o título de imbecis. Já escrevi sobre isto aqui no blog, em outra matéria, sobre os preços praticados pela indústria.

Ora, preço é resultado de uma série de variáveis, mas basicamente obedece a lógica de demanda e oferta. Não há porque vender mais barato se o mercado "aceita" margens maiores.

Porém, o problema é esconder esta escolha gerencial sob o argumento de que é o governo o responsável pelo alto preço praticado, no que os cretinos chamam de Custo Brasil, vomitado por "especialistas de coleira" da mídia regiamente recompensada pelas campanhas publicitárias.

Eis o texto do Joel Silveira Leite sobre o tema, publicado no Viomundo. Leia também o que saiu sobre o assunto no Blog do Nassif.
Imprima-os, e leve contigo quando for comprar seu carro novo.


Joel Silveira Leite: Margem de lucro das montadoras no Brasil é três vezes maior que nos EUA

publicado em 14 de dezembro de 2012 às 13:10
14/12/2012 – 03h30
Tendências/Debates: O “lucro Brasil” das montadoras
JOEL SILVEIRA LEITE, na Folha
Os dirigentes das montadoras disseminam há décadas a tese de que a causa do alto preço do carro no Brasil é o imposto. O mantra pegou e é quase senso comum que a carga tributária é que faz o brasileiro pagar o carro mais caro do mundo.
Outro fator que costuma ser citado é o custo Brasil, um conjunto de dificuldades estruturais e burocráticas, destacando-se a falta de qualificação profissional e uma estrutura logística cara, insuficiente e arcaica.
As enormes dificuldades que o empresário enfrenta para produzir no Brasil explicam, em parte, o alto preço praticado –não apenas do carro, mas de em qualquer produto.
Mas impostos nem o custo Brasil justificam os US$ 37.636 que o brasileiro para por um Corolla, enquanto o seu colega americano paga US$ 15.450. Na Argentina, país mais próximo tanto geograficamente quanto em relação às dificuldades e problemas, o Corolla também custa mais barato: US$ 21.658.
No Paraguai, o consumidor paga pelo Kia Soul US$ 18 mil, metade do preço no Brasil. Ambos vêm da Coreia. Não há imposto que justifique tamanha diferença. O Volkswagen Jetta custa R$ 65 mil no Brasil, menos de R$ 40 mil no México e R$ 30 mil nos EUA –a propaganda do carro, aliás, tem como protagonista não um executivo, mas um… universitário sofrido (youtu.be/gqDUV-rHQe4).
Há vários outros exemplos. Cito mais um: o Hyundai ix35 é vendido na Argentina por R$ 56 mil. O consumidor brasileiro paga R$ 88 mil.
Se o custo Brasil fosse um fardo pesado nas costas do empresariado, seria impraticável a redução da margem operacional. A crise de 2008 revelou, porém, que havia gordura pra queimar: os preços despencaram.
O índice AutoInforme/Molicar indicou queda média de preço de 10,1% desde a crise de 2008. Carros de algumas marcas tiveram queda de preço de 20%. Não se tem notícia de que essas empresas tenham entrado em colapso por causa disso.
O Hyundai Azera, que era vendido por R$ 100 mil, passou a custar R$ 80 mil após a crise de 2008. Descontos de R$ 5.000, até R$ 10.000, foram comuns no auge da crise, revelando a enorme margem com que algumas montadoras trabalham: em 2010 a GM vendeu um lote do Corsa Classic com desconto de 35% para uma locadora paulista, conforme um ex-executivo da própria locadora.
A chegada dos chineses desvendou o mistério. Equipados e baratos, ameaçaram as marcas tradicionais.
O QQ, da Chery, chegou recheado de equipamentos, alguns inexistentes mesmo em carros de categoria superior, como airbags, freio ABS, sistema de som e sensor de estacionamento. Preço: R$ 22.990. Mas daria pra vender por R$ 19,9 mil, segundo uma fonte da importadora, não fosse a pressão dos concessionários por uma margem maior.
Em março de 2011, a também chinesa JAC Motors começou a vender no Brasil o J3 por R$ 37,9 mil. Reação imediata: a Ford reposicionou o Fiesta hatch, passou a vender o carro pelos mesmos R$ 37,9 mil e instalou nele alguns dos equipamentos que o chinês trazia de série, mas apenas em São Paulo, Rio e Brasília –onde o J3 ameaçava o concorrente.
Mesmo assim, as montadoras instaladas no Brasil se sentiram ameaçadas e, argumentando a defesa do emprego na indústria nacional, pediram socorro ao governo, sendo prontamente atendidas: medida editada em setembro de 2011 impôs super IPI às empresas que não têm fábrica no país. Pela primeira vez, a Anfavea (associação das montadoras), cujos associados não foram atingidos pelo imposto extra, não se rebelou contra nova carga tributária.
A maioria das importadoras absorveu parte dos impostos adicionais e praticou um aumento inferior ao que seria necessário para manter a margem de lucro, indicando que havia muita gordura.
A grande diferença de preço do carro vendido no Brasil em relação a outros países chamou a atenção do Senado. A pedido da senadora Ana Amélia (PP-RS), a Comissão de Assuntos Econômicos do Senado convocou audiência pública para “discutir e esclarecer as razões para os altos preços dos veículos automotores no país e discutir medidas para a solução do problema”.
Realizada na semana passada, com a presença de representantes do Ministério da Fazenda, do Ministério do Desenvolvimento, do Ministério Público Federal, do Sindipeças (Sindicato Nacional da Indústria de Componentes para Veículos Automotores) e deste jornalista. Lamentada ausência da Anfavea, a audiência revelou (por um estudo apresentado pelo Sindipeças) que a margem de lucro das montadoras instaladas no Brasil é três vezes maior que nos EUA: no Brasil é de 10%, nos EUA é 3% e a média mundial é de 5%.
A discussão deve continuar, enquanto houver tanta gordura pra queimar!



2 comentários:

Anônimo disse...

Recomendo o que o Canal do Otário disse sobre isso, de forma mais irreverente:

https://www.youtube.com/watch?v=ifp3L0xYmF4

douglas da mata disse...

Comentarista,

tirando a simplificação sobre impostos e a ação política, que resume tudo a uma questão de "voracidade dos governos" e corrupção da política, é um bom vídeo.

Carros DEVEM pagar muito imposto porque são bens que IMPACTAM de forma importante a estrutura sócio-econômica.

Em suma: quem quer ter este privilégio que causa tantos estragos no resto da população, devem SIM arcar com os custos necessários para mitigação/reparação destes impactos:

Ambiental/sanitários/criminais, etc.