quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

Açu e o sal que não é da terra!

Eis a repercussão da entrevista do professor doutor Carlos Rezende, da UENF, sobre o processo de salinização promovido, ao que tudo indica, pelas intervenções das empresas X na região do Açu:


quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

Entrevista com Prof. Carlos Rezende esclarece o processo de salinização em curso no V Distrito de São João da Barra


Em função da grande repercussão da matéria publicada pelo Jornal Folha de São Paulo e do pronto desmentido emitido pela Assessoria de Comunicação da LL (X), procurei o Prof. Carlos Eduardo Rezende, chefe do Laboratório de Ciências Ambientais, para que ele fornecesse uma entrevista que esclarecesse de vez as evidências de que o processo de salinização em curso nas águas e terras do V Distrito de São João da Barra não tem nada de natural e têm sim uma ligação direta com as obras realizadas na região para a construção do porto e do estaleiro que são até agora as únicas coisas concretas do outrora grandioso projeto intitulado "Complexo Industrial Portuário do Açu" (CIPA). 

Vejamos abaixo o que respondeu o Prof. Carlos Eduardo Rezende:



Entrevista para o Blog do Pedlowski

Blog do Pedlowski: Recentemente temos acompanhado uma discussão sobre a questão das águas na região e gostaríamos de iniciar nossa conversa com a seguinte questão: Como esta situação se iniciou?


CER: Há alguns meses atrás fomos procurados por pessoas da região que afirmavam que em uma região não inundada passou a ser inundada, e pior, as plantas que estavam naquela região estavam morrendo. Pois bem, estas pessoas trouxeram uma garrafa com uma amostra desta água. No entanto, nosso procedimento analítico no laboratório consiste em usar frascos que foram previamente limpos com nossos protocolos analíticos internos, mas como as pessoas já se encontravam nas dependências da instituição fizemos uma medida expedita chamada de condutividade elétrica. Este parâmetro, amplamente utilizado pelos cientistas, possui uma correlação direta com a conhecida salinidade. A água encaminhada para o laboratório apresentava uma condutividade de 4.400 µS/cm valor este que chamou atenção. Em seguida, a Dra. Marina S. Suzuki juntamente com dois pesquisadores assistentes foram ao campo e fizeram um levantamento da condutividade em vários pontos e novamente observamos números que chamam atenção.

BP: Estes valores não seriam esperados uma vez que estamos em uma planície costeira?

CER: De fato esperamos que nestas regiões os valores de condutividade sejam mais elevados do que em áreas continentais, pois estão mais afastadas da região marinha. No entanto, na Lagoa de Iquipari aonde a Dr. Marina Suzuki vem trabalhando há anos, notamos através de uma série histórica que ocorreu um aumento que consideramos razoável nos resultados da condutividade, a saber: 1996= 2.910 µS/cm; 2011 até abril de 2012= 4.840 µS/cm e agora outubro e novembro de 2012= 24.890 µS/cm. Um dos processos que poderiam aumentar a condutividade das águas desta lagoa seria a abertura da barra, mas neste período isto não ocorreu e, portanto, mesmo se considerássemos que houve uma baixa precipitação atmosférica no período dificilmente chegaríamos a este valor final. Assim, as mudanças na fisiografia da região devido ao grande empreendimento (o CIPA) no local nos chamou a atenção e de certa forma tem se apresentado como uma componente fundamental neste processo que estamos estudando.

BP: Em relação à situação dos agricultores quais seriam suas considerações?

CER: A situação que encontramos na nossa última visita de campo demonstrou que precisamos de um esforço maior do que o desprendido até o momento. Em vários alagados na região da restinga encontramos valores que variaram de 24.000 a 41.000 µS/cm e claramente observamos que as plantas não estavam tolerando estes níveis de condutividade, ou seja, encontramos bolsões de água com elevado teor de sais e vegetação morta. Inclusive nas áreas mais secas notava-se a precipitação dos sais na superfície dos sedimentos. O canal do Quintigute também apresentou valores que variaram de 2.000 a 4.430 µS/cm, e a informação que temos é que alguns agricultores usam as águas destes canais em suas plantações.   Por outro lado, alguns poços de pequenos proprietários apresentam valores que variaram de 60 a 250 µS/cm, o que possibilita o uso destas águas nas suas atividades agrícolas, porém são necessárias mais informações para o uso domiciliar.

BP: Então, diante do cenário atual quais seriam suas considerações sobre este processo de salinização?

CER: O que está acontecendo na região é diferente dos processos de salinização descritos na literatura, porém, não há a menor sombra de dúvidas de que estamos presenciando uma forte transformação na dinâmica das águas superficiais da região. Portanto, precisamos intensificar os estudos e contar com a colaboração de todos os envolvidos e por isto temos apresentado nossos dados publicamente. Iniciamos este estudo com a demanda de um cidadão, e entendemos que para todos os usos devemos zelar pela qualidade da água, não existe neste caso uma situação que possa se sobrepor em prioridade ou importância, principalmente no acesso a água e a preservação dos ecossistemas costeiros regionais. 

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