quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

A UENF somos nós, nossos dilemas e paradoxos!

Certa vez ouvi de um artista local, que sempre se queixava da sua situação humilhante de ter que esmolar para receber pelos seus serviços culturais prestados a prefeitura local, onde dizia: "Os governos adoram música e espetáculos, mas detestam músicos".

Aquilo ficou martelando na minha cabeça desde então, e já faz tempo. De quando em vez, utilizo esta figura de linguagem para tratar de outros assuntos relacionados a gestão do Estado.

Governos adoram falar de educação, mas detestam educadores.

Adoram falar de segurança, mas detestam policiais. 

Adoram falar de saúde mas detestam os profissionais desta área, e por aí vai...

No caso das Universidades, os governos adoram expor seus resultados como se fossem uma prova do iluminismo pessoal do gestor público, e na outra ponta, encaram qualquer fracasso como uma ofensa pessoal ao governante.

Adoram "a ciência", como um rótulo de distinção e superioridade e, ou de confirmação do "acerto" de suas políticas públicas,  mas detestam cientistas e servidores das atividades-meio destas instituições.

O caso da UENF, que a partir de hoje encontra-se novamente em greve, é sui generis.

A UENF, por suas razões históricas e seu "frescor institucional", pois conta apenas 18 ou 19 anos, teria todos os requisitos para se tornar uma das maiores Universidades do país, e a efeito se tornou.

No entanto, desde seu surgimento a UENF gastou boa parte da energia de seus pesquisadores(os melhores do país, e em alguns casos, do mundo) para se tornar autônoma, sob o tacão da administração da família garotinho que, como a maioria dos governantes de seu estilo, detestam qualquer chance de que um ente público, ou de qualquer setor da sociedade, possa gerar conhecimento que desafie o império da vontade sobre o qual estruturam sua ação política.

Bons anos da UENF foram empenhados nesta luta, e deixaram marcas em seu tecido institucional. Mas também deixou muito amadurecimento que permitiu a jovem Universidade ter uma boa noção de si mesma.

Embora tenhamos a vocação de apressar os ciclos históricos, por vezes queimando etapas, é certo que o processo de "adoção" da UENF pela nossa comunidade ainda não se completou. Não seria errado dizer que a UENF não ocupa o patamar de preocupações principais de nossa sociedade, o que é um erro grave.
Lógico que isto não significa abandonar outras preocupações mais urgentes, mas este dilema em si é falso, porque é na Universidade que encontraremos, em boa parte, o estofo teórico para travarmos a luta necessária por dias melhores.

Desde o começo, a UENF ameaçou não só governos, mas também um certo establishment intelectual local, e outras elites acostumadas a ditar o consenso ideológico que seria consumido por classes médias e classes menos afortunadas, e por isto sofreu, como era de se esperar, os "ataques de estranhamento".

Confesso que eu mesmo tive certa dificuldade de entender o papel de uma Universidade, afinal, é meio difícil de considerar que pessoas "de fora" produzam ciência para dizer a nós quem somos.

Porém, felizmente,  este processo de incorporação não é de mão única, e hoje podemos enxergar alguns "cacoetes campistas" na Universidade, uns positivos, como o surgimento de um time de pesquisadores com raízes locais com o "sotaque" necessário da conterraneidade, e outros nem tanto, principalmente no que tange as contratações de obras e serviços e o aparelhamento parcial da Universidade por este ou aquele grupo político.

Em uma redução simplista, a UENF deu aos nossos bichos de goiaba a visão cosmopolita necessária, como deu aos "de fora" a dose de provincianismo necessária para entender nossos processos.

Recentemente, a UENF deu mostras da sua importância para a comunidade local quando alertou-nos sobre os perigos de danos ambientais irreversíveis junto ao complexo do Açu, que se juntou a outros trabalhos de ciências sociais que questionavam a diáspora promovida pela desapropriação de terras para instalação do complexo.

Qualquer governante inteligente utilizaria estes dados para confrontar os empresários responsáveis, unindo esforços da ciência e administração pública para regular e fiscalizar a ação privada sobre os bens públicos, ainda que concordemos com a importância de tais empreendimentos para a região.

No entanto, conhecimento científico que não ratifique decisões políticas temerárias são um atentado, um ato de lesa-majestade.

Talvez esteja aí a raiz do processo de desmonte da UENF, que recusa a "domesticar-se". Inexplicável que professores da UERJ e da UENF, servidores de mesma escolaridade, mesma função, mesmo cargo, ganhem proventos diferentes em carreiras estruturadas de forma diferente!

Uma situação que beira a improbidade e desafia a impessoalidade que obrigatoriamente reveste o ato administrativo, como se dissesse: Eu escolho quem beneficiar!

Como se dois fornecedores ganhassem uma licitação para prestar o mesmo serviço, e no fim, o governo remunerasse um deles com um plus, em detrimento do outro!

Como disse lá no título, a UENF somos nós a enfrentar o desafio de desafiar com independência quem imagina que nos "alimenta" por favor, e não porque seja este nosso direito.

Somos nós a enfrentar o paradoxo de tentar debater democraticamente com quem entende que Democracia é apenas um mero instrumento para satisfação de seus caprichos e reafirmação de sua visão de mundo sobre os demais.

Pensando bem, a UENF está onde deveria estar...

2 comentários:

Anônimo disse...

Prezado Lamacento,

A diferença é que a UENF está sempre entre as melhores, o grupo que a administra a 10 anos tem trabalhado muito para coloca-la como algo bom para e de Campos. Alguns grupos internos é que trabalham para ela ser rabo de cavalo, gente que não ajuda. Parabens a UENF, que nada tem a ver com as derrotas educacionais e de desenvolvimento de Campos...não cabe comparação, nem no orçamento.

douglas da mata disse...

Caro comentarista.

Eu enxergo o sucesso acadêmico de uma Universidade pela dedicação de seu corpo docente, discente e dos funcionários.

Administrar uma Universidade não tem nada a ver com sua atividade-fim, inovação, pesquisa, ensino e extensão. Ou muito pouco.

No máximo, uma boa administração não atrapalha, o que já é grande coisa.

Eu não preciso falar do descaso do governo estadual com a Uenf, este desrespeito se expressa na diferença de tratamento com a Uerj(outra importante entidade), que se revela com mais dramaticidade na folha salarial.

Esta distinção é inexplicável, inconcebível, e nem vou usar o argumento quantitativo da excelência da Uenf frente a sua co-irmã. É uma questão de princípios. Ou pior, da falta de...

Talvez o que você considere uma "habilidade" deste grupo decenal, seja, justamente, sua pouca disposição de enfrentar institucionalmente esta injustiça, contentando-se com migalhas e dilapidando o "moral" da Universidade, suplicando favores ao invés de lutar por direitos.

Mas como eu disse, respeito todas as escolhas.

Já em relação aos fatos, per si, que tocam as incapacidades e desvios das administrações, o bandejão é um monumento a "campistice incorporada" da Uenf: desperdício, superfaturamento e ineficiência!

Quanto a existência de grupos de oposição, salve, salve!!! Bem vindos e longa vida a eles.

Estranho seria se uma casa de produção de conhecimento e ciência produzisse só um senso comum e único (como este péssimo hábito de desqualificar o adversário).

Um abraço, e grato pela sua participação. Volte sempre.