sexta-feira, 16 de novembro de 2012

Suicídio coletivo?

A Europa parece caminhar a passos largos para um conflito de proporções inimagináveis até bem pouco tempo.

Não me refiro apenas aos efeitos sócio-desagregadores da crise econômica.

Mas ao desmantelamento de todo um sistema político construído no pós-guerra, meticulosamente engendrado para equilibrar assimetrias regionais, ódios étnicos, minorias, autonomias nacionalistas, etc.

Neste contexto, a situação mais grave é a da Espanha, cujos povos reunidos sob a soberania madrilenha ameaçam partir o reinado de Juan Carlos em pedaços, dada a incapacidade do poder central de Ravoy(primeiro-ministro do PP, conservador) em responder aos anseios da população de ter na ação do Estado um alívio (proteção) para o que a omissão deste mesmo Estado em relação ao mercado financeiro causou.

O desequilíbrio espanhol parece refletir-se na União Europeia, e por lá não se esconde mais que alguns países membros podem desertar daquela comunidade. 
Pior, para os países em "melhor" condição esta segregação é desejável. 
Como se pudessem continuar fragmentados. A História recente nos mostra que não podem!

Seria injusto debitar esta auto-flagelação apenas nas costas de Angela Merkel e sua ortodoxia pró-austeridade, que nada mais é que tentar curar a doença com doses tão fortes que podem matar o doente.

Há por trás deste aparente e insolúvel impasse, um paradigma sobre o qual costumamos escrever aqui recentemente: Uma crise da percepção ocidental de que o capitalismo é o melhor sistema para gerir a Democracia.

Claro, não há revoluções socialistas em curso, nem sequer capital político e intelectual para apresentar ao mundo outro sistema que gerencie a produção de bens, serviços, e em suma, para geração de riquezas.

O que é, a meu ver, um tanto quanto assustador. 
Li no blog do Roberto Moraes dois textos: Uma entrevista com o sociólogo Domenico De Masi e uma matéria do jornal espanhol El País, sobre a tentativa do governo em frear os despejos dos mais pobres pelos bancos credores.

Hoje pela manhã, antes de escrever este post, li no El País que um homem suicidou-se em Córdoba quando estava prestes a ser despejado.

Imediatamente, tive minha atenção chamada para o que disse o sociólogo em sua entrevista ao jornal Valor, a tentativa tímida do governo espanhol e o ato suicida.

Sem exageros dramáticos, eu fico a matutar: 

Afinal, este é o sentido da vida? 
Matar-se quando não enxergamos mais saída? (desculpem, mas a rima pobre foi acidental).

Ora, se os sistemas econômicos são feitos por pessoas para pessoas, e os sistemas políticos, idem, o que impede que pessoas pensem alternativas que as afastem do fatalismo capitalista, que, de tempos em tempo, mastiga e tritura milhões e milhões de vidas, quer sejam vítimas da desigualdade e da fome, quer sejam das guerras, quer sejam das hipotecas e do desemprego?

Parece tão óbvio que ninguém enxerga: Não é mais possível um sistema político democrático que esteja subordinado as demandas financistas, submerso no caldo ideológico que produzem para justificarem a si mesmas como instâncias "naturais" da evolução humana, porque não são!
Como não é mais possível que o dinheiro concentrado e produzido às custas do sacrifício de milhões de pessoas alimentem a contabilidade dos partidos e esferas de poder que decidem a vida de todos de acordo com a necessidade de pouquíssimos em detrimento dos outros tantos, um círculo vicioso e mortal.

Orçamentos públicos submissos aos investimentos privados, finanças públicas pautadas pelos bancos, decisões estratégicas adotadas para ampliar a promiscuidade entre interesse particular e coletivo, tendo o último sempre uma posição de inferioridade.

Porém, o problema mais agudo não é apenas a crise conceitual filosófica dos pensadores, mas a inércia catatônica dos setores progressistas da política mundial, e aqui incluo o PT, de enxergarem um pouco além da noção pueril de "esforço e recompensa", quando o mercado nos "dá" conforto e bens quando "fazemos o dever de casa".
A gestão democrática do Estado, estruturada em regras jurídicas e representatividade não pode ser apenas a gerência dos humores, fluxos e influxos capitalistas.
Não se trata de desprezar os grandes avanços dos últimos 10 anos, e os outros tantos mais que vêm por aí, mas aproveitar a chance(como disse o italiano) para ousar imaginar algo além desta gangorra bipolar econômica mundial, que ora nos enche de euforia, ora nos enche de desespero.

O capitalismo e o mercado financeiro foram geniais em um aspecto ideológico-chave: Como o capitalismo não muda NUNCA, estruturalmente, nos convenceram que o mundo não pode mudar e abandonar o capitalismo e suas regras cíclicas.

A manutenção desta lógica, que parece por demais "ilógica", faz todo sentido se o que esperamos é a nossa hora para o gesto final.

Mas se fazer política é construir um expectativa(ainda que "falsa", e ela sempre é até que se "realize") de que o penhasco não seja a única alternativa.

2 comentários:

Anônimo disse...

Concordo com você Douglas. Mas não vejo sinais de que faremos a transição para a sociedade pós industrial a que se refere Domenico de Masi.
O modelo atual de que podemos produzir e consumir infinitamente já dá claros sinais de esgotamento e ainda assim o que se quer cada vez mais é consumir. Mesmo nos colocando diante do grande desafio ambiental, não retrocedemos. Como mudar isso?
A concentração (de bens, oportunidades, recursos, conhecimento etc) é cada vez maior. A regulação necessária para mitigar estas desigualdades simplesmente não existe ou é incipiente em alguns países.
Caminhamos sim, para o penhasco. O segredo (eu acho) é não ir correndo...

douglas da mata disse...

Pois é,

Eu temo concordar com você, e até trabalho para diminuir a velocidade.

De todo jeito, novos sistemas surgem após a queda.

Eu, ingenuamente, pensei que pudéssemos construir esta nova etapa sem "dor".

Não...não...não é possível.