sexta-feira, 9 de novembro de 2012

Escândalo do HSBC: Como bancos "financiam" o crime ao redor do planeta!

Imagem do jornal The Independent

Estranhamente, ou melhor, propositadamente, nenhum veículo de mídia corporativa nacional ou regional será capaz de fazer uma análise que relacione fatos simples na questão criminalidade violenta e segurança pública. 

São evidências tão simples que "ardem" os olhos, e talvez por isto mesmo, ceguem-nos a visão.

Primeiro é preciso afastar um discurso cretino e criminoso da parte de uns, e ingênuo da parte de outros, que trata este assunto partindo de uma premissa falsa colocada no debate por eles mesmos:

Combater as modalidades criminosas consideradas mais perigosas na atualidade: tráfico de drogas, armas, e a conseqüente necessidade de "lavar" estes recursos para refinanciar estas atividades e outras correlatas, não significa abrir mão de adotar as medidas de emergência em casos extremos, onde temos como exemplo o Rio de Janeiro e agora, São Paulo.

Ou seja: Se por um lado o Estado TEM que impor seu império em áreas deflagradas, e restituir parte da ordem que foi substituída pelas "leis do crime", por outro, TEM a necessidade urgente de atacar as causas do problema que levam as armas e drogas para aqueles locais de varejo, sob pena de perpetuar soluções esporádicas, ou pior: de vivermos à espera dos surtos de brutalidade para que sigamos a estancar hemorragias com band-aids.

E mais: atacar só um lado do problema(sempre a mais pobre, é claro) é difundir a noção que a Justiça Criminal só funciona em alguns endereços.

A matéria, que a página eletrônica do jornal inglês The Independent (leia aqui) traz, choca por sua obviedade: 

Contas da agência do banco no paraíso fiscal de Jersey teriam sido utilizadas por traficantes de drogas e armas, onde 4.388 pessoas detêm 699 milhões de liras em contas offshore, de acordo com o jornal que repercute outra matéria do Daily Telegraph, que teve acesso a uma fonte que citou que boa parte destes recursos é movimentada pelo crime organizado internacional.

Pesa sobre o maior banco inglês as suspeitas de colaboração ou omissão, haja vista que já responde nos EEUU por esconder transações das autoridades estadunidenses, em montante de US$ 1.5 bilhão, relacionadas a ação de lavagem de dinheiro.

Bom, diante disto, como policial me pergunto: 
É possível que permaneçamos sob o signo da hipocrisia, arriscando vidas(policiais e dos demais cidadãos) e gastando pequenas fortunas em armas, veículos e propaganda oficiais, para perseguirmos, em uma metáfora ruim, o fiapo do rabo do elefante, enquanto o paquiderme se movimenta incólume entre países-piratas e pela cortina de ferro dos sigilos bancários?

Um país, estados e municípios poderão falar seriamente em "combater" o tráfico, atuando sem incomodar esta gigantesca escala de negócios que retroalimenta o ciclo de violência que nos atinge nas ruas?

A realidade que enxergo me faz crer que não.

Recentemente, em um debate no blog do Nassif sobre um evento de tecnologia de combate ao crime organizado, em SP,  tive a oportunidade de ter um comentário destacado para a página principal por uma sugestão boba, de tão simples:

Para "marcar" o dinheiro não precisamos de sofisticados softwares ou laboratórios de traquitanas. Basta colocarmos de volta a CPMF ou sob qualquer outro nome, um tributo sobre cada movimentação financeira, de qualquer natureza, quer seja compra de ações, debêntures, etc, saque, depósitos, etc, etc e etc. Quer seja em transações nacionais, ou nos casos de remessa ao exterior.
Para os que reclamam da "carga tributária" um alívio: a alíquota pode ser de 0.00000000000001%. O Interesse, como se vê, não é o volume fiscal, mas sim a possibilidade de confrontar dados com uma simples regra de três. 
Nada de computadores super sofisticados, basta uma calculadora, ou para os melhores da matemática, lápis e papel.
A forma mais elementar do controle estatal (e internacional, se assim entenderem as agências internacionais de combate ao crime organizado), celebrada pelo simples princípio de que não se pode proibir o fluxo, basta colocar um "pedágio". Uma solução medieval.
E aí, quem se arrisca?

Esta medida poderia ser aplicada em escala global entre os países comprometidos com o esforço internacional de combate o crime organizado.

Mas aí que está o cerne do problema.

Na verdade, eu temo acreditar que não há(nem nunca houve, nem haverá) o mínimo interesse em atacar o problema onde ele realmente pode ser atacado.

Então, se é para fingirmos que agimos, o melhor seria um acordo mundial para descriminalização de todo tipo de comércio de qualquer droga.

Ao menos não criaríamos o Talebã, que foi alimentado pela CIA com a proteção das rotas de heroína quando lutavam contra a ex-URSS no Afeganistão, os cartéis mexicanos e outros narcos da América Latina, resultado direto da proteção da CIA das rotas de cocaína para o financiamento das guerrilhas de direita, como os contras da Nicarágua e El Salvador na década de 80 do século XX, ou os nossos conhecidos "comandos de comandos submundo de comandos": PCC, CV, TCP, ADA e etc, resultado da cópia mal feita das guerras contra drogas, que entulhou nossos depósitos de pessoas(nossas masmorras)colocadas ali só para ficarem, via de regra, muito pior do que eram quando entraram.

Mas eu desconfio que acabar com o tráfico nunca foi, de verdade, o interesse de quem lucra com ele: seja politicamente, seja financeiramente, ou em alguns casos, das duas formas.

3 comentários:

Anônimo disse...

Muito bem Douglas.
E é isso mesmo: matando o elefante, o fiapo de rabo não mais será irrigado e por conseguinte, apodrecerá.
O problema é que o elefante é muito grande e muita gente precisa dele. Se ele morrer, deixará muitos desamparados e se tombar, cairá em cima de outros tantos.
Talvez o mais viável seria estabelecer uma dieta para ele, diminuindo seu tamanho...
Parabéns por trazer a matéria do The Independent!

douglas da mata disse...

Caro comentarista,

Li em algum lugar que na crise de 2008-2009 foram os ativos "sujos" que tornaram a crise mais suportável.

Alguns países se serviram(mas nada comentaram) destas "reservas" do tráfico internacional para não quebrar de vez...

Veja, eu não tenho uma opinião definida sobre o tema, mas sei de uma coisa:

Ou se combate de verdade, se acharmos que é um crime que mereça tanta atenção;

Ou paramos com esta hipocrisia sanguinolenta que custa a vida de tantos, e a entulha cadeias de gente que de lá de dentro se torna mais perigosa que aqui fora.

O consumo de álcool nos fins de semana mata tanto ou mais, e ainda assim ninguém fala em proibir a bebida.

E creio que está correto, desde que o Estado fosse severo com os crimes praticados sob influência do álcool.

Enquanto estiver restrito a esfera da pessoa, sem produzir incômodos, prejuízos ou comportamentos antissociais, não há de se falar em punir, até porque, tradicionalmente, não punimos a auto-lesão, salvo no aborto(outra aberração).

Mas se a conduta sob influência de drogas ultrapassar a esfera pessoal e atingir terceiros, creio que o Estado deveria ser rigorosíssimo, inclusive com multas e reparações as vítimas.

Anônimo disse...

É uma boa tese.
Ou achamos que é crime e combatemos, ou deixamos de lado e cada umaiu que faça o que quiser com seu corpo (desde que não atinja terceiros).
Aliás, com relação ao alcool x marijuana tem um gordinho nos estados unidos que demoniza o primeiro e defende arduamente a segunda. O estado dele (Colorado) já está para mudar a legislação da maconha. Saiu no blog do Nassif hoje...
abraços