terça-feira, 30 de outubro de 2012

Uma kenya racista....uma ironia? Não, triste e dura realidade!

Quênia é país africano de onde imagino vir a inspiração para o nome Kenya. Não deixa de ser irônico que alguém que envergue o nome de um país com maioria negra publique frases de cunho racista em um diálogo em uma rede social.

Mas a ironia termina aí. 

O fato é trágico, e ao contrário do que imaginamos, não é apenas um comportamento anormal, ou uma aberração tresloucada de uma mulher branca e que se diz, "empresária", logo, de condições financeiras privilegiadas.  

Ele é a expressão de nosso ethos social e político, e quem duvidar basta visitar as periferias e as cadeias da cidade.

Se tiver mais interesse científico, pode olhar os dados do Censo e do PNAD(pesquisa nacional de amostragem por domicílios), e lá poderá enxergar(se quiser) o corte de raça da pobreza, das vítimas de violência letal, além de outros indicadores clássicos, como escolaridade, diferenças salariais para mesmas funções, etc.

Quem quiser buscar razões históricas pode ir ao site da Biblioteca Nacional, e lá clicar na sua hemeroteca, e nas publicações ali digitalizadas estão os almanaques publicados em Campos dos Goytacazes, nas últimas décadas do século XIX, às vésperas da abolição.

Verá que nossa cidade era a que tinha o maior número de escravos do BRASIL, algo em torno de 37 mil cativos para 53 mil homens livres, e poderá concluir, se também assim desejar, que tamanha "pressão" social provocada por um ajuntamento tão grande de pessoas submetidas à infâmia fomentou um caldo de violência de gênero que ultrapassou a forma física de punição dos pelourinhos reais, para a violência ideológica dos pelourinhos virtuais através dos séculos.

Então, a "empresária" Kenya não é uma aberração, ou melhor, não é só uma aberração racista: Ela é o pensamento abafado de nossa "elite branca" que às vezes soluça com inconveniente sinceridade.

Não tardará que os ideólogos "do racismo inexistente" ou da "democracia racial" se levantem a dizer que isto é um caso isolado, desmerecedor de tanta polêmica,  haja vista que a própria agressora se desculpou, e inclusive disse que tem amigas negras, e teria sido um "momento de revolta", etc e tal. 

No entanto, nem "as relações inter-raciais de amizade" foram capazes de demover o ódio racial que lhe foi dado como maldita herança cultural, que veio à tona nas discussões públicas (e políticas)sobre direito de ir e vir, ocupação de espaço público, em suma, convivência social urbana.

Seria impensável manter uma amizade se lhe dissesse na cara o que imagina da sua raça, mas com estranhos e em uma rede social, o preconceito de raça falou mais alto.

Em nenhum momento a "empresária" parece se questionar sobre o que traz como conceitos, mas sim o fato de que se "excedeu" ao revelá-los, em suma: nada demais em ser racista, desde que ninguém saiba!

Enfim, o crime foi cometido, e deve ser punido exemplarmente, ainda que a delinquente se mostre arrependida.

A sociedade deve parar e pensar o porquê do acontecimento, para que não nos arrependamos cada vez mais.



2 comentários:

Anônimo disse...

essas seriam também as suas justificativas pelas cotas raciais?

douglas da mata disse...

Caro comentarista,

As políticas afirmativas, erradamente chamadas de "cotas raciais" englobam um conjunto de iniciativas que visam integrar conceitos de acessibilidade a Universidade públicas aos que historicamente sempre estiveram alijados por motivos que não são acadêmicos, mas puramente de étnicos e econômicos, em outras palavras:

Em um sistema socialmente e economicamente injusto, as vagas das universidades públicas (custeadas com impostos de todos, inclusive e majoritariamente dos pobres) serviam a um público restrito e que detinha condições de arcar com seus estudos.

Eu costumo dizer que as políticas afirmativas étnicas são o reconhecimento pelo Estado que negros e brancos têm oportunidades diferentes determinadas por este corte racial.

Aos negros e brancos são dados a cada um a tarefa de cortar árvores em uma floresta.

O negro com um canivete e o branco com uma motosserra.

Ainda assim esperamos resultados iguais para ambos.

Esta é, na minha rasa opinião, a justificativa.