domingo, 14 de outubro de 2012

Respondendo ao leitor...

Recebemos pelo correio eletrônico, que reproduzimos, e como a "variável tempo" nos permitiu, vamos a resposta...

Eis a questão do leitor:

"Companheiro Douglas, bom dia.


Sou leitor assíduo da rede blog e fiquei muito satisfeito quando soube

que retornaste ao meio.

Quando a variável tempo lhe permitir, gostaria que comentasse sobre

política X redes sociais e o impacto que cada uma tem sob as várias
camadas da sociedade sob o recorte geração.
Penso que o assunto pode render frutos, pois sob a minha limitada
leitura, vejo que cada geração (x,y,z) tem uma visão/ação
diferenciada. Hoje a distorção das informações via mídia venal, somada
a alienação via redes sociais da geração "Y e Z", aliada ao
abatimento/descontentamento da geração "X" fratura o engajamento
social, a participação política e o cumprimento de deveres cívicos dos
mais simples.
Permita-me a crítica/constatação, mesmo reconhecendo seus cabíveis
argumentos, mas me preocupou profundamente o seu voto nulo. Respeito
tuas razões, mas não podemos nos furtar ao direito de análise mais
aprofundada desse "fenômeno" social (mazela mesmo!) que nos assola e
nos faz caminhar a passos largos para a alienação social/política.
E como linkar esse assunto com o individualismo exacerbado de hoje? É
possível, mestre? Será isso causa ou consequência?
Será que o momento econômico que permite aos pais ter um quarto para
cada filho, com tv "muderna", parafernalhas tecnológicas que
direcionam o cidadão ao mundo virtual em detrimento do real tem
contribuído para o "fenômeno" citado acima?
Quando puder, traga luz ao tema como sempre bem fazes, companheiro.
Saudações classsistas, L..."


Nossa opinião sobre o assunto:

1. Caro L, como toda forma de comunicação, ou seja, como toda ferramenta de sociabilidade, as redes e outros meios virtuais cumprem um papel determinado por seus atores, papel este sempre mediado pelos múltiplos interesses de cada agente social, que seja considerado como indivíduo, quer seja considerado como um grupo.

Há vários recortes em todas as sociedades contemporâneas, e e no caso da sua proposta de debate, os cortes de escolha foram o geracional e o de classes.

Tudo o que falaremos está no campo da hipótese e do empiricismo. Não há estudo científico apurado para determinar com alguma precisão estas questões colocadas por você.

Alcance e impacto das diversas mídias, e destas mídias sobre as classes e gerações.

Constatação óbvia: todas as classes são multi-geracionais e todas as gerações são trans-classistas, daí a dificuldade de encaixá-las todas sob a mesma perspectiva, mas vamos lá:
Um dado histórico remete que as tecnologias mais recentes atraem, de início, os mais jovens, para depois vencerem as barreiras geracionais em ordem ascendente, os seja, dos mais novos para os mais velhos.
Logo, não seria incorreto imaginar que as redes sociais e outras formas virtuais sejam mais "jovens", quer dizer, sejam as formas prediletas de interação dos mais jovens.

O que isto significa, é necessário apurar, como já disse, mas um dos efeitos que percebo é que as redes sociais, que são comunidades "fechadas", pois necessitam adesão e aceitação, carregam em si o ethos de boa parte dos jovens de hoje(19-25 anos):

Comportamento de manada com individualismo exacerbado, pouca afeição ao debate político lato sensu e as formas "tradicionais" de representação e ação política (partidos, grêmios, sindicatos, etc), necessidade de afirmação pelo consumo, leitura fragmentada, etc.
Claro que este sintoma não é só desta geração, mas uma herança do terreno que foi semeado pelas gerações anteriores, exortadoras do neoliberalismo e da teoria da competição e do "sucesso" a qualquer preço.
Talvez, se olharmos dentro de uma perspectiva histórica, nem seja uma exclusividade dos jovens de hoje, mas um traço peculiar de todas as "juventudes".
O que muda, então, é que a conectividade permitida pela rede mundial de computadores alça estes comportamentos a uma escala global nunca vista, nem experimentada.

A geração "X", neste sentido não está fragmentada das gerações "Y" e "Z"...estas últimas são o resultado da derrota da anterior.
Esta geração "X" espremeu-se entre a rebeldia vanguardista dos jovens guerrilheiros de 64, e o fatalismo da geração pós II Guerra, que experimentou a escuridão quando se preparava para governar o país, e depois, entregar este país, justamente, a esta geração "X".

É bem verdade que a vitória de um partido de esquerda, com a repetição deste projeto em sua reeleição e atual aumento de seu poder municipal não podem ser considerados símbolos de fracasso completo, mas é verdade que no campo dos valores, filosoficamente falando, nossas vitórias foram alimentadas pela "sociedade de mercado" e seus paradigmas, pois os símbolos de atraso  e conservadorismo deste país, e porque não dizer, de boa parte das democracias ocidentais estão intactos, expressos por você no último parágrafo de seu texto-questão.

Pode ser porque a ditadura de 64 interrompeu este ciclo "natural" da tradição (entrega) do bastão de uma geração para outra. A geração pós 64 teve que recuperar seu protagonismo perdido pelo golpe, o que tolheu a nossa geração "X" da possibilidade de exercitar o seu no campo político.

Bom lembrar que o nosso desafio (de todas as gerações) ainda é gigantesco, pois não alcançamos sequer o mínimo de justiça distributiva, e já incorporamos boa parte dos vícios de consumo exagerado e fútil, junto a escala de valores descartáveis que estes vícios trazem.

Daí a necessidade de reciclar as velhas formas de fazer política, retirando ou diminuindo o domínio do debate econômico sobre o processo democrático, disputando e desmascarando cada tentativa de isolar as novas mídias como territórios "apolíticos" ou "neutros", e enfim, tendo a sabedoria de incorporar novos integrantes neste amplo campo humanista, sem esquecer a necessária (e tão odiada) delimitação ideológica para que não nos transformemos e uma grande massa de nadas.

Quem defende que acabaram a luta de classes, as ideologias, etc, é porque pretendem manter as coisas como estão: uns poucos com tanto, e outros tantos com pouco.
Estes são os adversários, em quaisquer mídias, em qualquer classe ou idade.

2. Voto nulo.
Caro L, não se trata um voto de desilusão ou de negação da política, mas uma afirmação que o quadro atual de representação, neste caso expresso nos candidatos, não contempla aquilo que entendo por política e democracia.
Na medida que entendi que todas as candidaturas representavam o aprisionamento do processo democrático pela agenda dos interesses financeiros, movidos à royalties, em maior ou menor medida, decidi por dizer não a todos.

Ora, seria muito mais fácil e individualista escolher um candidato sem chances como o do PSOL, com o discurso moralista e tascar o voto. Mas eu enxergo a realidade de uma perspectiva menos "particular", e muito menos moralista.

O "não" que disse a todos os candidatos é uma (talvez ingênua) tentativa de apelar para a construção de um debate pautado por premissas diferentes. Inclusive diferente dos "moralismos fáceis".

Mesmo assim, não fiz campanha pelo voto nulo, nem o faria. Apenas declarei meu voto.

2 comentários:

Anônimo disse...

Obrigado camarada, pela excelente leitura do tema. Caminhamos a passos largos para uma sociedade do culto a futilidade, em etrimento das questoes politico-sociais. Saudacoes classistas, Leo Ferreira!

douglas da mata disse...

Leo,

Não sou tão pessimista, embora minha leitura possa estar "carregada" neste sentido.

Mas eu imagino o contrário: o aguçamento de nossa capacidade analítica, que pode sim ser proporcionada por blogs e outras esferas, não só pela quantidade, mas antes pela disponibilidade, apontam na superação desta etapa de culto a futilidade.

Todas as épocas padecem desta "aparente leviandade ou superficialismo".

Na "bella epoque" foi assim, nos loucos anos 20, nos anos dourados, etc.

Mas depois, e em alguns casos, provocadas por tragédias geopolíticas (guerras) ou econômicas (crash de 29), as sociedades retomam seus rumos de percepção da necessidade de tratar de temas mais "sérios".

O desafio é evitar as tentações autoritárias (como o fascismo e nazismo pós 29) e a desilusão com a Democracia.

Não percamos o foco, mas não sejamos tão exigentes conosco...