segunda-feira, 8 de outubro de 2012

Outras análises da eleição local...

Um dos leitores que comentou no texto A festa das urnas solicitou uma análise pormenorizada acerca de dois fenômenos distintos desta eleição: as vitórias de Rafael Diniz/PPS, e do único candidato do PT eleito.

Desnecessário avisar que sendo este um blog-militante, dedicado a análises e leituras da realidade conforme seus princípios e crenças ideológicas, é impossível emitir uma opinião isenta destes filtros políticos já citados.

Mesmo assim, vamos lá:

O candidato off-PT enterra a oligarquia partidária.

Durante algum tempo, observei na rede local uma série de comentários em outros blogs acerca de um suposto afastamento do candidato recém-eleito da estrutura partidária e da própria campanha.

Desde já é preciso dizer que minhas observações estão a uma distância grande, tanto da vida interna do partido, quanto do candidato em questão, pelos motivos já sabidos por todos que leem este blog. O candidato é herdeiro político de um grupo com o qual este blogueiro sempre fez questão de manter suas diferenças, e não raro, estes limites foram marcados por debates violentos, na mídia PIG local e nos blogs.

Como herdeiro principal deste grupo político representado pelo finado vereador barbosa, o candidato eleito manteve-se próximo ao mandato da vereadora sucessora, mas ao que parece, houve um tremendo racha.

No entanto, o mais relevante nesta análise é que, de fato, a proximidade entre a vereadora e os herdeiros do vereador finado, pelo menos a esta distância, nunca significou uma incorporação destes herdeiros ao habitat político interno do PT local, principalmente quando os herdeiros do finado passaram a enxergar que detinham um cacife tão ou maior que o daqueles que mantinham o PT sob seu domínio.

O resultado foi o que os comentaristas perceberam nas placas e material do vereador eleito pelo PT, e no seu afastamento das atividades mais intensas de campanha do candidato majoritário, ao menos, pelo que nos foi narrado.

O que seria apenas uma tática para atrair aqueles eleitores mais arredios ao PT, que estivessem alinhados com outras candidaturas majoritárias, o que não é nada demais em campanhas municipais para vereador, era na verdade o reflexo de um isolamento do candidato que se elegeu para o lugar da até então vereadora.

A eleição do vereador do PT pode significar, como imaginam alguns, que uma nova configuração interna do PT local aparecerá. 

Eu discordo. Pelo histórico da atuação do vereador finado que inspira o grupo, não houve nada que autorizasse esta esperança, ao contrário. O curto mandato do vereador foi marcado por ações personalíssimas, e pouca ou nenhuma submissão ao interesse coletivo interno do partido e suas instâncias.

Não acredito, portanto, que o vereador eleito vá construir novos consensos partidários, e romper a segregação na qual foi construída sua eleição.

Mas como dissemos, uma coisa é certa: é o fim da oligarquia partidária que dominou o PT até agora.



Rafael Diniz, quem não sai aos seus são monstros...


Rafael não é uma novidade política, embora seja um nome inédito na Câmara. 

Explico a aparente contradição:

Como a margem de 30% de votos majoritários, que desta vez não foi alcançada pelos chamados partidos que fogem ao binômio arnaldistas e garotistas, a eleição de vereadores outsiders sempre foi uma constante em Campos dos Goytacazes, com raros intervalos. 

Este fenômeno também tem eleitorado cativo em outros níveis, estadual e nacional, com amplitude maior ou menor, de acordo com cada época.

O pai do vereador eleito pelo PPS foi um exemplo, que também já teve Ivete Marins e Antônio Carlos Rangel como outros exemplos.

Campanhas sem a estrutura econômica e máquina administrativa disponíveis a maioria, e que por isto mesmo funcionam como exceção à regra, sempre obtiveram uma certa quantidade de votos por aqui.

O comentarista que solicitou a análise perguntou se o voto em Diniz era um voto ideológico, ou a revanche da classe média, e eu respondo:

A agenda moralista e neoudenista herdada por Rafael, empunhada pelo PPS, que funciona como satélite menor dos demotucanopatas,  não pode ser considerada um voto "ideológico", embora valores como ética e da construção de uma moral anti-corrupção sejam sempre desejáveis, ela (a agenda) já revelou seus limites como única plataforma política disponível, quer seja porque ser honesto não é qualidade, e sim obrigação, e por outro lado, porque os paladinos da moral quase sempre se revelam tão ou mais perversos que aqueles desonestos que eles dizem querer combater.

Longe de mim lançar qualquer suspeita sobre a memória do pai, ou sobre a atuação do filho.

Neste sentido, Rafael se mostrou muito mais como alguém que gostaria de estar über alles, ou seja, acima das ideologias, ou longe dos esquemas tradicionais da política, como se isto fosse possível, apenas para evitar ter que mostrar algo que políticos como Sérgio ou Rafael detestem assumir: São políticos de espectro ideológico de direita, conservadores  e representantes de um conjunto de ideias que pretendem uma gestão ética do Estado, mas que fundamentalmente não mexa em nada nas estruturas de desigualdade, como se esta não fosse a pior das corrupções.

Em uma metáfora ruim:

Para políticos como os do PPS, ou da estirpe de Rafael e seu pai, pouco importa se os encanamentos levem a maior parte da água para encher as piscinas dos ricos, eles querem é combater o vazamentos.

Eu prefiro aqueles que se importem menos com estes vazamentos, e se dediquem a garantir que a água seja disponibilizada, antes, para matar a sede dos mais pobres.


Assim, a eleição de Rafael é a repetição de um fenômeno que só estava sem um vocalizador eficiente desta agenda. O grande mérito dele foi se apresentar como tal, e sua tarefa foi um pouco mais facilitada pelo sua ascendência, ou seja, o eleitorado neoudenista local sabia que podia confiar na genealogia que ele representa.

Quanto ao corte de classe aventado pelo comentarista que a votação de pouco mais de 4000 votos conferia a Rafael o título de "vingador da classe média", sinto desapontá-los, pois com 70% de votos na prefeita, e com 22 ou 23 vereadores eleitos sob o mesmo bom e velho "esquemão", a não ser que entendamos que a classe média local conta só 4000 pessoas, o que não parece correto, é mais coerente dizer que o vereador do PPS vá ser o "corneteiro" da elite e da oligarquia locais, que tem um pezinho nos "acertos" do poder, mas gosta de se imaginar "diferenciada".


Bom, isto tudo é minha OPINIÃO.

10 comentários:

Roberto Manhães disse...
Este comentário foi removido por um administrador do blog.
douglas da mata disse...

Caro comentarista,

Os blogs relacionados no seu comentário não são bem-vindos aqui, por isto o texto foi retirado.

Agradeço a compreensão.

Anônimo disse...

Bem, o fato é que os "inhos" e "inhas" saem menores desta eleição, mas qualquer análise feita neste momento certamente é precipitada. Ontem em conversas com jovens eleitores ouvi de muitos que não votam e nem gostam do PT, talvez daí venha o sucesso do Rafael. Indo um pouco mais adiante, nota-se um crescimento considerável do PSOL, principalmente em cidades grandes e médias, só como exemplo cito Niterói, lá o PSOL elegeu um bom número de Vereadores, já o PT, apesar de Rodrigo Neves, não elegeu nem mesmo o ex prefeito Godofredo Pinto para a Câmara de Vereadores. Resta agora decifrar este recado das urnas.

douglas da mata disse...

Meu caro comentarista, pinçar fatos isolados para confrontar os números é um terror:

O PT cresceu em número de prefeituras, de eleitores sob seus governos e em número de vereadores.

22% a mais de vereadores, 14% a mais de prefeituras.

O PSOL talvez cumpra o papel que o PT cumpriu ao canalizar a rebeldia necessária dos jovens, mas que para efeitos de disputa de poder representam pouco ou nada, porque na hora do jogo "à vera", para administrar cidades, é preciso fazer alianças, se ajoelhar frente a casas parlamentares hostis.

Já o "sucesso" do rafael , penso que esgotei minhas possibilidades de análise no texto, e imagino que de fato, eleitores que torcem o nariz para o PT tenham tendência a sufragar o discurso neoudenista dele.

O problema é o alcance curtíssimo desta plataforma política.

E aí quando o jovem descobre isto, afasta-se mais e mais da política.

Um abraço.

Um abraço.

Anônimo disse...

Caro Douglas, gostaria, por favor, que você analisasse esse dados oficiais das recentes eleições:

PMDB(2008): 1198 prefeituras;
PMDB(2012): 1016 prefeituras;

PSDB(2008): 789 prefeituras;
PSDB(2012): 684 prefeituras;

PT(2008): 554 prefeituras;
PT(2012): 622 prefeituras;

PSB(2008): 310 prefeituras;
PSB(2012): 432 prefeituras;

PDT(2008): 352 prefeituras;
PDT(2012): 308 prefeituras;

DEM(2008): 493 prefeituras;
DEM(2012): 270 prefeituras;

PR(2008): 392 prefeituras;
PR(2012): 270 prefeituras.


Obrigado pela atenção! Um abraço!
Moisés.

douglas da mata disse...

Moisés, como já disse no texto, a análise nacional está no texto A festa das urnas, cujo link no texto está disponível.

Ainda que aquela análise não contabilizasse estes números trazidos por você.

É bom lembrar que os números ainda não estão fechados, em virtude do 2º turno.

Mas o grosso das nossas impressões não mudarão com pequenas alterações.

Uma única ressalva: É preciso avaliar o fator PSD, pois ao que parece, pela desidratação de PMDB,PSDB, DEMOS, PR, etc, este vai se constituindo um novo "centrão" da política nacional.

No entanto, é preciso uma série histórica para avaliar esta variável, e o partido em questão é recém-criado.


Há outra análise no blog do Roberto Moraes que eu recomendo: http://robertomoraes.blogspot.com.br/2012/10/uma-analise-nacional-das-eleicoes-de.html

Obrigado por sua participação, e um abraço.

Anônimo disse...

Em relação à sua metáfora, com a devida ressalva, entendo melhor a analogia das águas.
Isso talvez explique os canos que divergem do aqueduto principal diminuindo sua vazão. Se água estiver chegando aos mais necessitados, ninguem notará que há vazamentos irrigando uma extensa rede de dutos.
É conta que paga mensalmente...

douglas da mata disse...

Caro comentarista, o mote é:

Não há como gerir "eticamente" um estado social injusto e economicamente segregador.

A gestão pautada pela "ética" é uma obrigação e não vantagem comparativa entre gestores.

Quando insistimos nesta bandeira neoudenista, legitimamos, por sinal trocado, a bandalheira, onde dizemos que ser honesto é exceção e merece o voto por isto, concordamos que a desonestidade é regra.

Eu não acredito nisto, até porque, não há como imaginar uma sociedade de presumidamente culpados antes que se "prove" esta premissa.

Quando elegemos os moralistas, e incentivamos o discurso moralista, pregamos que todos nós somos culpados antes que a culpa se prove.

Isto é um perigo para a Democracia.

Ditaduras têm forte apelo no discurso moralista, e sabemos pela História qual é a "moral" da história delas.

Um abraço e grato pela participação.

Anônimo disse...

A partir do resultado dessas eleições, o quadro de 2014 que começa a ser revelado no RJ, ao meu ver, tende ao equilíbrio das forças.

O PMDB manteve a Capital e muitas cidades, mas, por ouro lado, menos que em 2008 quando havia eleito mais de 30 prefeitos. Dessa vez, fez 21 prefeituras. O PT cresceu, 11 prefeituras e o PR também cresceu só havia Campos em 2008, hoje elegeu 6 prefeitos. Além disso, há os aliados, de cada um dos 3 principais partidos e as cidades que disputarão o 2º turno.

Creio que os três principais candidatos no momento p/ o quadro sucessório de Cabral, são: Garotinho, Lindberg e Pezão.

Descarto Lindberg, pois o PT do Rio é subsserviente ao PMDB do RJ e ao PT nacional que é fechado com Cabral, logo ele não vem.

Assim, a disputa tende a se polarizar entre Garotinho e Pezão. Possivelmente, uma outra força liderada por Freixo ou Gabeira pode ser uma terceira via.

douglas da mata disse...

Comentarista, permita-me discordar, até porque em matéria de futurologia, nenhum de nós pode oferecer mais do que incertezas.

O PT não é subserviente ao PMDB.

O PT/RJ é submisso da sua própria incapacidade de se impor politicamente.

Não há aliança nacional que enterre um candidato favorito.

Foi o caso do RS com o Tarso Genro em 2010.
O mesmo com o "Alemão" na BA, quando o PMDB de Geddel forçou a barra mas não levou.

A dinâmica do processo político nos impede de prever como a aliança PMDB x PT caminhará até 2014, se o PSD se firmará como novo "centro" da política, tendo o PSB como outra força emergente, só que mais à esquerda.

Se a tendência de desidratação do PMDB prosseguir, este partido, ainda que detentor de enorme força política, vai repensar as possibilidades de enfrentar um governo com tamanho capital político e em franca ascendência, o que poderá resultar em uma diminuição sensível da bancada no Congresso, justamente o elemento que fez o PMDB ser o fiador de todos os governos desde 1985.

O se cálculo do PMDB no RJ esbarra em uma variável importante e por você desprezada: a viabilidade política de "pezão".

Claro que você poderá dizer que um candidato ungido pelo governador e pelo prefeito da capital, e ele mesmo já na cadeira, que ao que tudo indica, será cedida por cabral, tem grandes chances.

Mas ele tem que demonstrar capacidade de articulação a de agregar tantos interesses.

E aí vai minha opinião: não me parece capaz, e ainda tem um "rabão preso" com a Delta, que vai lhe ser cobrado lá na frente.

O "pezão" depende de um grande consenso.

Mas só se o PT vier junto, e contar também com o reforço de Dilma e Lula.

Caso contrário, se não houver este consenso, e "pezão" for empurrado "goela adentro" corre o risco de morrer "no ninho".

Um abraço.