sábado, 27 de outubro de 2012

Os Arautos do Apocalipse do Mar Morto do Açu.


Uma das características da luta política, que se manifesta em vários setores, e muito mais dentro do espectro da comunicação de massas, é marcar o campo de disputa, não raro com rotulações e reduções que possibilitem, de um lado criar coesão dentro do mesmo grupo de afinidade ideológica, e por outro,  constranger e menosprezar o outro, atraindo para o mesmo campo de afinidade os que ainda não fizeram uma escolha.

Isto é normal, e por várias vezes, com certos limites, até desejável.

Na época recente, quando os ideólogos do Consenso de Washington, ou também chamados de Chicago's Boys (olha aí as simplificações) lançavam aos ventos a tese do fim da História, tornou-se comum o discurso que detratava qualquer possibilidade de dúvida, tornando o debate público um campo "religioso", uma questão de "fé", onde aqueles que ousassem descrer no fatalismo histórico seriam denominados hereges obsoletos, rumo à extinção, principalmente após a derrocada dos países do chamado socialismo real, a partir da ex-URSS e todos os outros sob sua influência, onde o marco foi a queda do Muro de Berlim.

Um dos mais proeminentes (e inteligentes) ideólogos deste consenso era Roberto Campos (ex-ministro, embaixador)e prócer dos simpatizantes do alinhamento direto e submisso dos interesses nacionais frente aos estadunidenses, o que lhe rendeu a alcunha de Bob Fields, um ultraliberal.

Bob Fields formulou o termo petrossauro, para se dirigir a empresa Petrobrás, nas palavras dele, uma excrescência monstruosa estatista que emperrava o dinamismo da economia e as possibilidades de investimentos "livres" privados.

Claro que Roberto Campos não pode ser reduzido a isto, e nem sua proficiência acadêmica, ainda que discordemos ideologicamente dela, mas estas simplificações buscam representar o fato que sua expressão pública no debate política refletia fortemente suas escolhas ideológicas, e isto é claro.

Nos tempos de ffhhcc e da privataria tucana, todos os que pretendessem arguir o ritmo e a qualidade das privatizações, bem como sua finalidade: amortizar juros de uma dívida que só crescia pelos juros arbitrados pela própria banca que cobrava, e menos pela capacidade de pagar do devedor, como um cachorro atrás do rabo, eram chamados de "dinossauros", ou "viúvas do Muro de Berlim".

Todos os detratores deste nefasto sistema, que depois trouxe sua pesada conta, inclusive para os que o implementaram, vendo ser corroído todo capital político que acumularam com a estabilização, eram empacotados e vendidos pela mídia como "estalinistas", estatistas ou defensores da ineficiência estatal frente a inquestionável superioridade privada.

Estão aí os planos de saúde para mostrar a "tal superioridade" não resiste a cinco minutos de análise mais inteligente.

Nunca adiantou dizer, até porque a direita não é muito chegada a pluralidade de opinião, embora diga defender este estamento, que os movimentos de esquerda e os partidos de esquerda no Brasil, à exceção dos nanicos PCB e do PC do B, este último que hoje alinha-se como socialista democrático, sempre refutaram a herança dos partidos únicos dos países socialistas reais, o que não significava renegar os males do capitalismo e sua incapacidade em distribuir a enorme riqueza que gera e concentra, muito menos deixar de enxergar os enormes avanços nos direitos sociais alcançados nestes países socialistas reais. 
Tudo isto baseado em um verbete: Não ao pão socialista sem liberdade, e não a liberdade capitalista sem pão.

Em uma guerra (ideológica)como em tantas outras, a primeira vítima é a verdade.

Assim avançamos, e a História revelou que não chegou ao fim. O capitalismo como sistema de organização da produção mundial revela-se um desastre de escala planetária com a nova crise estrutural cíclica de 2008/2012.

Mas de fato, o que é relevante para nós do Brasil é que as teses no Consenso de Washington, alardeadas por jornais, revistas, TV, naquilo que hoje chamamos de PIG, foram massacradas pela realidade e pela necessidade da intervenção estatal para salvar o país, conduzido por partidos de esquerda, personificados na dupla Lula/Dilma.

Na região do Norte-Fluminense, esta luta ideológica assume contornos irônicos, mas não menos dramáticos.

Quando o Porto do Açu foi anunciado, a bordo de uma das  maiores blitzkrieg de marketing, talvez só comparado ao esforço da propaganda nazista em 39 (atenção idiotas: este é um exagero para fixar um conceito), todos os que ousaram apontar os problemas decorrentes de tamanha mudança no território e seus aspectos sócio-econômicos foram tachados de Arautos do Atraso, em uma expressão cunhada em jornais e blogs locais, demonstrando uma preocupação indisfarçável em apoiar a qualquer custo (sabe-se lá qual cu$to) a inciativa empresarial que se instalava.

Claro, no permanente embate que já mencionamos, todos os campos trataram de denominar o outro.

Estes jornais, blogs, jornalistas e comentaristas já eram conhecidos por praticarem aquilo que um setor minoritário da blogosfera local chamava de jornalismo de coleira.

A coleira significava a submissão primária da editoria pela tesouraria, ou em outros casos, a submissão partidária das editorias destes veículos.

Aqui uma nota: Todos têm interesse. Uns mais nobres outros menos, dependendo da referência de quem analisa. 

Mas uma rápida olhadela no caminhar destes atores, o leitor mais atento poderá notar uma brusca mudança de orientação ao sabor dos ventos das oportunidades, baseada na eterna superficialidade com a qual os problemas são debatidos, ora buscando criar constrangimentos para vender desagravos ou alinhamento, ora pela mudança mais descarada de orientação de acordo com o fluxo de caixa.

Bom, feito este interlúdio, voltemos ao tema.

Estes veículos locais cumpriram fielmente seu papel. Deram o substrato ideológico para que  se construísse aquilo que era fundamental para a expansão do negócio: O chamado interesse público, que dito assim, de forma genéria e sem especificação, torna qualquer um que questione um inimigo do "progresso" e do "desenvolvimento", como se a mera presença de investimentos de escala fossem suficientes para "redimir" uma região, outrora presa aos laços da monocultura escravocrata(que ainda persistem), ou a dependência dos petro-royalties.

Armado de tantos motivos, o donald trump tunpinambá ou o Cruzado do Progresso, foi a luta, e grilou com a ajuda do erário largas faixas de terra, onde os governos estadual e municipal derramaram-se em facilidades e recursos para expulsar pequenos proprietários de terra que teimavam em ficar no "caminho inexorável do progresso".

O mais grave nisto tudo é que para tanto, os ideólogos do progresso (a mídia e seus acólitos), junto com governos e o empresário senhor X, subverteram um mandamento básico do deus-mercado, o que juram defender: oferta x procura = preço.

Com o falso condão do interesse público, aviltaram os preços das terras griladas, deixando na boca dos agricultores locais o amargo gosto do "roubo", se considerarmos que até homens armados foram usados para retirá-los da terra, ainda que vestidos de policiais (o que é mais grave).

Agora, além das denúncias de graves violações ambientais, que ameaçam tornar as terras e o lençol freático em toda região em um mar morto, ficou claro nas entrevistas do senhor X, e por todos os fatos que se acumulam como verdades inconvenientes, que o "distrito industrial" nada mais foi que um embuste, um monte de lotes para alugar para empresas da área de extração de petróleo.

O valor anunciado pelo senhor X como renda do aluguel destas terras a empresas offshore é um escândalo comparado ao valor pago pelas desapropriações aos produtores, e mais, com dinheiro público.


Será que caberia aqui, caso comprovado o dolo dos agentes, a teoria do domínio funcional dos fatos, onde a ação de todos para justificar a compra subvalorizada de terras particulares por dinheiro público, sob a escusa de um interesse público que não existe, com uso de força armada, seria uma formação de quadrilha, peculato, corrupção ativa e passiva e lavagem de dinheiro, se considerarmos que o senhor X sempre contribuiu para as campanhas e partidos dos governantes que o beneficiaram? 

Por óbvio, o desenlace de tamanho nó entupiria as artérias já engorduradas da Justiça, para fortuna dos caros advogados, o que per si, afasta qualquer aldeão local a se aventurar a questionar suas pretensões de direito.

Ou seja, se não for a teoria do domínio dos fatos, será, a teoria do fato consumado, ou do mal irremediável.

Na ausência de representação política local que enfrente o problema, resta-no apelar para a "judicialização" tão reclamada, e esperar que promotores estaduais e federais façam sua parte e a nossa  parte.

A parte da mídia já fez a dela em seu próprio benefício...algumas contas e miçangas, e lá se foi o verbo atrás da verba...

Hoje, alguns jornalistas de coleira, sabe-se lá porque, parecem convertidos a causa que antes atacavam.

Outros, permanecem mudos.

Nós, os arautos do atraso esperamos as trombetas dos arautos do Apocalipse do Mar Morto do Açu...

Parece que eles não vêm.


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