segunda-feira, 1 de outubro de 2012

Democracia: um valor sob permanente ataque.

Nunca ouve um valor tão propagado, desejado (nem por todos, é verdade), mas ao mesmo tempo tão atacado, mal entendido e instrumentalizado como a Democracia.

Em tempo de autoritarismo institucional, como o período 64-88, os limites da luta pela  Democracia  pareciam mais definidos e tangíveis. 
Hoje, paradoxalmente, com instituições democráticas em pleno vapor em um estado de direito, parece mais difícil divisar os valores democráticos, ou descobrir quem, de fato, está a lutar pelo seu amadurecimento.

Em outras palavras, é como se fosse mais fácil definir Democracia quando ela nos falta.

É fato que cada um luta pela Democracia a seu jeito, e à bordo de seus interesses, mas como resolver este intricado caleidoscópio de visões dentro de uma perspectiva democrática sem cairmos na pior espécie de autoritarismo: o relativismo absoluto?

Alguns dirão que a Democracia se expressa no estamento normativo das sociedades, que reúnem princípios que lhes são caros, baseados em fatos, cultura, costumes, bem como a soma de sentimentos morais, individuais e de grupos, que se complementam, anulam ou se sobrepõem, de acordo com a representação da força política de cada grupo.

Mas o que fazer quando a representação qualitativa dos grupos em muito se desprega do aspecto quantitativo, ou seja, um minoria detentora das "melhores" ferramentas controla e direciona as decisões como se fossem o reflexo do interesse de toda coletividade?

Ou por outro lado, quando a maioria se faz representar, mas há uma aparência que os mandatários apenas usurpam a outorga que lhes foi concedida, rompendo a natureza do vínculo sufragado? 

Estes questionamentos me assaltaram quando tomei conhecimento da decisão que restabelece o registro da candidata a reeleição, a atual prefeita.

Afinal de contas, como desatar o nó institucional no qual se encontra a cidade de Campos dos Goytacazes, uma das mais ricas do Brasil? 
E sendo o Brasil uma das maiores economias do mundo, não é exagero dizer que nossa cidade está entre mas mais ricas do mundo, isto considerando a quantidade de recursos orçamentários disponíveis para cada cidadão, ou na linguagem dos "especialistas", PIB per capita,

Há um enorme tentação, mal disfarçada, em discursos e editoriais, jeitos e trejeitos, de proclamar a nossa Democracia local como imperfeita. 
Claro, todas são imperfeitas. 
Mas setores de nossa elite local atribuem esta "imperfeição" no nosso processo democrático mais porque o resultado das urnas não têm lhe favorecido plenamente, ainda que desfrutem, uns mais outros menos, das mesmas benesses.
(nota:atenção, não considerar só aspectos econômicos, haja vista que muitos dos nossos que "se acham da elite", ou estão pendurados nas dívidas, ou vivem do dinheiro público, para, com muito esforço, aparentar alguma capacidade de consumo, ´único" filtro com o qual enxergam a realidade)

Assim, este mesmo setor vive, como parasita, a mendigar algum benefício financeiro dos detentores do poder local, e talvez venha daí este recalque esquizofrênico, como cães de coleira que teimam em morder a mão de quem os alimenta.

Teve até bispo que denominou nossa Democracia de fisiológica, um pecado. Mas ele esqueceu de dizer que não é só pobre que está acometido deste pecado, quando troca favores mais urgentes, mas toda a sociedade local.

Esta "sentença" do bispo, de se queixar do fisiologismo "dos outros",  está em flagrante contradição com a própria história local da Igreja que o bispo presenta, ela mesma (A Igreja Católica) fiadora do amansamento dos pobres nas senzalas durante séculos, e que por este favor ideológico-espiritual prestado às elites econômicas foi fisiologicamente recompensada através dos tempos. Não é de hoje que a Igreja leva a sua parte para garantir a crença que o sofrimento na terra redime. 

O Vaticano, trocado pelo obsequioso silêncio frente ao fascismo do Duce é a prova cabal de que o interesse fisiológico ( ter um Estado) suplanta qualquer consciência ética ou dogmática.

Caiu o bispo em tentação ao "apontar" nos outros a conduta que a própria Igreja pratica? Não sei.

Voltando à carga, temos, de um lado, uma elite que se equilibra e se reinventa para continuar a desfrutar de favores que antes não precisavam pedir, porque eram os titulares do privilégio, mas hoje tem que pedir "à benção", sempre em posição genuflexória.

Esta "mediação" com os detentores da chave do cofre que tanto lhes incomoda.

Em outra parte da pirâmide, temos setores médios, que se acham "esclarecidos" e "refratários" a "corrupção dos políticos", mas sempre ávidos pela transformação de todos os bens públicos em meros facilitadores de suas vidas privadas, onde as calçadas deveriam ser abolidas para que carros cada vez maiores circulem com conforto e sem demora, praças "desnecessárias" sejam transformadas em shoppings, e se possível, deveria a municipalidade isolar com muros ou guaritas a parte "nobre" da cidade das zonas bárbaras periféricas.

Por fim, uma enorme massa de pessoas que aprendeu a negociar seu capital político, ainda que de forma desorganizada, e mantém no poder aqueles que lhes trazem o que desejam: Um emprego, certas comodidades e alguma transformação urbana, mesmo que tais intervenções sejam desordenadas, dispendiosas, e em alguns casos, de efeito apenas "cosmético", como valões, cepops, etc.

Qual é a solução para equilibrar e convergir interesses aparentemente tão díspares?

Primeiro é preciso entender que não são tão díspares como aparentam. Os vocalizadores da tese de que há uma "indignação cívica" com o atual estado das coisas gostam de expiar suas culpas neste sentido, mas um olhar atento revelará no máximo uma "indignação cínica".

Em suma: a sociedade de Campos dos Goytacazes deita e rola, se lambuza de recursos finitos como se infinitos fossem, cada qual a seu jeito e com sua compreensão própria deste processo de desperdício.

Portanto, este sistema de interesses, à primeira vista excludentes ou concorrentes, é, na verdade, complementar, e seu sucesso (perenidade) por tantos anos só é possível por esta característica. 

Se houvesse um dissenso verdadeiro em uma destas engrenagens, poderíamos enfrentar alguma alternância. 

Não há muita diferença, então entra os 60 ou 70% de eleitores da prefeita, e os outros poucos que discordam dela nas urnas.

Utilizando a metáfora acertada do professor Roberto Moraes, quando a "oposição", reunida sob o tacão do seu interlocutor predileto, uma parte do PIG local, valorizam mais o juiz que a a peleja, é porque somente desejam um juiz que apite a seu favor.

Não pretendem discutir esquemas táticos que mudem a forma de jogar, novas regras, ou a condição do gramado ou do estádio, ou as regras do campeonato, nem tampouco o rigor com as "botinadas", ou enfim, como devem se comportar as torcidas. 
Desejam apenas, como disse, que o juiz apite sempre a favor deles.

É esta (im)postura que impede que alguma insatisfação popular se transforme em desejo de mudança. Nossa "oposição" e seus porta-vozes da mídia local apenas desejam, por decreto, mudar de camisa com o time vencedor, e não ganhá-lo jogando.

Para tanto, não precisam de um jogo fluído e bonito (fazer política), mas basta escalar cabeças-de-área(bagre?) para cumprir o tempo regulamentar, ou esperar que o tapetão lhes dê vitória em jogo que perderam por W.O.


2 comentários:

Anônimo disse...

É isso aí, caro Douglas.
Não há dissenso entre os fisiológicos nem entre os que aparentam alguma indignação. Se houvesse, estaríamos com a possibilidade de alternância de poder.
O resultado só é bom se for a nosso favor, caso contrário é roubo, golpe e a partida "não valeu".

É exatamente como dissestes: todos, cada qual a sua maneira, procuram se abrigar nas benesses dos recursos que dispomos. Chega a ser engraçado ver aqueles que você chama de elite submetendo-se ao constrangimento da mendicância, que os detentores da chave fazem questão perpetuar. Ao brandirem a chave, mostrando quem manda agora, divertem-se com a submissão de pessoas que em outros tempos os olhava de cima.
Às vezes me pergunto se eu renunciaria a um pedaço deste butim. Até hoje não sei a resposta. Nunca me ofereceram.
E vamos seguindo assim porque esta bom para mim e para você, afinal, pipoca só pula com fogo embaixo.

Não sei a sua idade, mas, diante deste quadro, tomo a liberdade de te perguntar se tens esperança de viver em uma cidade mais equilibrada, mais racional, mais humana, mais diversa e segura, ou morreremos tristes e desolados assistindo a vitória da mediocridade?

douglas da mata disse...

Claro que tenho esperança, porque, com a idade, cada vez mais deixei de me iludir com "falsos profetas", bem como entendi que Democracia é bem mais que um slogan pendurado na parede de uma redação do PIG ou no jingle de alguma propaganda.

É um processo lento e, às vezes, doloroso.

Acho que, de alguma forma, e mesmo diante dos limites que os compromissos de cada etapa da nossa vida impõem, não devemos desistir de trabalhar pela melhoria de nossa cidade.
Nem que seja ao nos recusarmos a ceder aos "atalhos", ou pela recusa em acreditar que o bem público (lato sensu) é algum tipo de butim ser disputado aos pedaços.

É mais ou menos isto: Não basta tentar resistir ao "butim", é preciso não enxergá-lo como disponível, porque não será, ou não deveria, ser apenas nosso.

Não acredito do fim da História.

Um abraço.