sexta-feira, 12 de outubro de 2012

Bom debate, permanente debate, necessário debate

Postei este texto como comentário no blog do Roberto Moraes...O texto que suscitou esta publicação você pode ver aqui, junto com todos os outros comentários, e lá no blog você acessará os outros textos da discussão.

Compartilho com vocês o que escrevi por lá:


George, Roberto e Gustavo: o "futuro é opaco".

Estive fora dois dias, e o debate bombou.

Meus rasos e esfarrapados pitacos:

O "barato é louco e o processo é lento"(Racionais MCs).

Veja que com as opiniões luxuosas de Gustavo e George, ainda temos a falsa dicotomia: honestidade X política, ou: "consciência cívica" ou clientelismo.

Eu não vou polemizar com a nova bandinha da UDN, representada em políticos como o zé geraldo, ou de forma mais "genuína" no herdeiro do clã diniz, e alguns tantos comentaristas por aqui.

Até porque, pelo que vi, o debate com este pessoal é conversa entre "surdos".

O zé é um caso clássico, um "case"(nem sei se o termo é este, rs) como diriam os acadêmicos: Pautou sua atividade empresarial à sombra das verbas públicas, e por desilusão, muda de tom e ataca aquilo que não mais lhe "alimenta".

Se quantificarmos a adesão ao seu "projeto político", revelaremos o quanto "pragmático", ou clientelista são seus pares empresários: como a larga maioria está locupletada no orçamento, zé ficou com 2% do eleitorado.

Seu sucesso depende da extensão do descontentamento dos "clientes de cima", que se fossem privados "das tetas" poderiam inflar o alcance de suas "propostas"(nada mais que um rol de reclamações e slogans semi-éticos)e garantir algum apoio para que fale ao "grosso" da população. Mas esta variável é quase nula, hoje.

Lembram dos tijolos nas casas populares? Pois é, uma "liderança" recém-eleita disse que não há tijolos locais nas casas, mas o presidente do sindicato do setor diz que sim. Como disseram o George e Gustavo, o cliente diz: amém, o não-cliente diz: é feio, mas eu quero também.

A formulação política da maioria de nós obedece a seguinte lógica: trabalhar com os limites que a realidade nos impõe e fazer as escolhas que garantam satisfação das demandas imediatas, como bem disse o George.

Ou, de outro modo, tentar enxergar o futuro(sempre opaco)para colocar nesta expectativa alguma "poupança política".

Podemos dividir as pessoas em grupos que priorizam mais a primeira alternativa, outros que priorizam a segunda, outros tantos que misturam as duas.

Mas não nos é possível determinar (até que alguém estude isto) a qualidade exata do voto e da ação política, e nem fixar rigorosamente um corte de classe dentro destas variáveis, ou seja: se os ricos e remediados votam pensando no futuro e no bem de todos, se os pobres o fazem, ou ao contrário, se todos votam na troca simples de interesses.

Até porque, o bicho humano aprendeu a querer sem limites, então é muito difícil quantificar a satisfação de uma pessoa ou uma classe de pessoas, e o quanto esta satisfação maior ou menor influencia o que espera de um prefeito, governador ou presidente.

Na minha opinião rasa e esfarrapada, erramos feio quando buscamos "determinar" estes cortes, se buscarmos esta estratificação apenas para cumprir a necessidade de CLASSIFICAR o outro para justificar o fracasso de todos, ou de pelo menos, os que imaginam terem fracassado nas eleições, ou ainda, que o processo democrático é ruim porque o resultado não agrada.

Deste modo, com esta atitude, ao invés de agregarmos o tecido social, rasgamos sua trama, e conferimos aos que detêm a hegemonia sobre a agenda política, o poder de ditar o rumo final na política, pelo isolamento das classes majoritárias daqueles que dizem portar "a esperança de um futuro melhor".

O que temos que fazer é costurar as duas perspectivas: a satisfação de demandas imediatas, todas legítimas, mas desde que processadas dentro do campo do DIREITO UNIVERSAL e não dos "privilégios", com aquelas propostas que buscam planejar estrategicamente os recursos disponíveis.

Este é o mote, e difícil de ser alcançado enquanto candidatos, comentaristas ou setores da política local, se imaginarem "iluminados" e "iluministas", detentores do fogo sagrado do "saber político, da virtude e da fortuna". 

Por fim, Gustavo, discordo de você sobre a perspectiva de "redenção" pelo capital privado, embora reconheça que o fortalecimento econômico autônomo (desintoxicação dos royalties)seja desejável.

O capital privado busca lucro, e não bem estar, mas é possível que um Estado forte, politicamente, e até economicamente, determine como, o quê, quando e por quê este capital atuará, revertendo uma parcela dos ganhos privados em lucro social, diminuindo a desordem  e os impactos da atividade econômica privada (grande ou pequena), etc, além dos impostos é claro.

Bom lembrar o "exemplo" da franquia "X" no Açu. Um tremendo "abacaxi" que vai estourar os orçamentos municipais.

3 comentários:

douglas da mata disse...

Por erro foi apagado o comentário...o blog solicita, caso seja de interesse, o reenvio para publicação

George Gomes Coutinho disse...

Caríssimo Douglas,

Antes de qualquer coisa, gostaria de agradecer a generosidade dos seus comentários. Assim como os do Gustavo, meu amigo de “Beatles anos atrás”, e o entusiasmo do Roberto em estimular esta boa discussão. Sou grato a todos, inclusive aos anônimos.
Estou anotando algumas das observações feitas para pensar mais detidamente sobre elas no momento oportuno. Como não é viável pela escassez do tempo, muitas das questões aqui apresentadas certamente não terão resposta por agora... E talvez algumas nunca tenham por apresentar cenários estritamente construídos pela imaginação. Os cenários hipotéticos são bons para o exercício intelectual mas, invariavelmente lidam com o “deserto do real” e não se concretizam.
Na verdade, sendo minimamente cuidadoso, acho que algumas das questões, as factíveis, merecem pesquisa posterior. E acho que é esse o combustível do debate: entender um fenômeno, chegar à melhor descrição possível para, então, pensarmos em soluções. A questão das soluções é algo desejável e as mesmas, evidentemente, só podem ter uma resposta política. Em suma: soluções políticas para problemas políticos. Acho que a judicialização realiza uma tarefa republicana interessante, mas, insuficiente diante da complexidade dos problemas apresentados. Afinal, a judicialização não resolve a grande questão que alimenta o cenário político: a nossa cultura política.
Também entendo que mesmo chegarmos a compreender os “inputs” e “outputs” da nossa cultura política é só metade da tarefa... Mas, acho algo importante para descortinarmos algumas incógnitas da Campos dos Goytacazes na Nova República. Alguns pesquisadores da área tem defendido a necessidade de olharmos com mais atenção para as culturas políticas locais visando, enfim, traçar um retrato mais fiel da vida política brasileira. Até porque, estudos sobre os outros entes federativos (gov. federal, estados...) já ocorrem aos borbotões.

Mas, gostaria apenas de fazer uma ressalva no comentário do Douglas sobre a suposta dualidade “honestidade/política” que estaria como sombra pairando em meu comentário. Na verdade, não acredito neste dualismo. A política, em minha leitura, não está acima e nem abaixo da vida em sociedade. Ela reproduz as virtudes e vícios da própria sociedade como um todo. O que a diferencia, enquanto esfera específica, são suas funções. Gera a síntese de vontades coletivas, invariavelmente resultado do embate de projetos e interesses, e as vincula em ações, fundamentos normativos, políticas públicas, etc.. É uma esfera singular e importantíssima. Mas, não estaria blindada de qualquer comportamento que poderíamos julgar como deletério. Nem a política, nem a religião, nem o amor, nem a produção artística poderiam ser blindadas.... Na verdade o fluxo de valores e disposições humanas são o que são.... E medidas restritivas, se geram algum resultado positivo no curto prazo, muitas das vezes esbarram neste animal criativo que é o ser humano.

Não que eu ache que a busca por medidas restritivas eficazes seja algo inócuo. Porém, como disse, funcionam com “prazo de validade”.

Por fim, devemos ter cuidado esses dualismos, concordando com o Douglas. Em tempos de criminalização da política, o outro lado da medalha da judicialização, não devemos ter a leitura de mundo dos “taxistas” como já disse há pouco tempo o Wanderley Guilherme dos Santos. Não por preconceito com esta categoria, mas, por detectar que boa parte da hermenêutica dos taxistas se situa em representações ultra-conservadoras sobre quase todos os assuntos que dizem respeito ao “bem viver”: criminalização do aborto, pena de morte, drogas tratadas como “assunto de polícia”, “mulher é safada e gosta de apanhar”, etc.. E, claro, a política como representação do inferno na terra onde a mesma é pratica por enviados do Satanás.

Forte abraço a todos,

George

PS: Douglas, como vi que você reproduziu aqui o seu comentário, achei de bom tom fazer a réplica por cá também!

douglas da mata disse...

Caro George,

Não me referi a seu texto, mas aos comentários dos outros participantes, que insistem em manter esta dualidade, apesar do debate apontar no sentido contrário.

Sendo assim, afastados os cínicos(estes devemos "estudar" em outra situação, rs)fica claro que este é um limite: ou seja, por mais que não acreditemos nesta dualidade, é sobre ela que teremos que falar e lidar para construirmos algo no "deserto da realidade" e na opacidade do futuro.

Um abraço.