segunda-feira, 17 de setembro de 2012

Occupy e outros movimentos...

Nascido no coração do sistema financeiro estadunidense e mundial, Wall Street, o movimento Occupy (Occupy Wall Street), após enfrentar resistência da mídia corporativa, furou o bloqueio e revelou ao mundo a insatisfação de amplos setores daquela sociedade.

Os Occupy pareciam ser a "nova" revolução. 

Este blog, ainda confuso e com poucas informações sobre o assunto, já que o nosso PIG filtrava o que podia, demorou a esboçar uma noção própria do movimento: Uma crítica necessária ao capitalismo, nascida simbolicamente no seu coração, e uma repressão extremíssima do aparato policial, dando o recado claro: 
Não há chances de vocês vencerem, ainda que isto seja pouco provável, batendo neles mais como forma de evitar o 'amadurecimento" de outras formas mais estruturantes de contestação, e não pelo movimento em si. 

O jornal inglês The Independent, em sua página eletrônica,hoje, traz uma matéria especial, da lavra de Laury Penny, que visitou o acampamento em Zuccotti Park e relatou o esvaziamento do movimento.

De imediato, como não poderia deixar de ser, lembrei-me de movimentos semelhantes, em nosso país e em nossa cidade.

Por que, após um estouro, estas reivindicações, umas justas, outras ingênuas, e outras tantas cínicas, acabam por se esvaziar?

Não sei, apenas imagino.

A matéria do The Independent você lê ao clicar aqui.

Eis algumas pistas do texto:

"(...)

One year ago, a few feet down the road, Occupy Wall Street began – the first protest camp at Zucotti park igniting a wave of anti-capitalist, anti-austerity protests across the world, from Melbourne to London. Tonight it's just these few sleepers and one reporter, me, where a year ago you couldn't move for press. What happened between then and now?
(...)"

Mal traduzido: Um ano atrás, a poucos metros rua abaixo, OWS começou-o primeiro acampamento de protesto no Zuccotti park dando ignição a um onda de protestos anti-capitalismo e anti-austeridade ao redor do mundo, de Melbourne até Londres. Esta noite, são apenas estes poucos residentes e um repórter, eu, onde um ano atrás você não poderia se mover para fazer este trabalho. O que aconteceu entre antes e agora?

Outra dica: 

"(...)Contrary to popular opinion, Occupy never entirely went away. There are still hundreds of people across New York, and thousands across America and Europe, whose lives are still devoted to what became known as the Occupy "movement".
(...)"

Mal traduzido: Ao contrário da opinião pública, Occupy não se foi inteiramente. Existem centenas de pessoas em Nova York, e milhares pela América(sic) e Europa, cujas vidas estão permanecem devotadas ao que se tornou conhecido como movimento Occupy.


De acordo com o texto, os figurões, artistas e tantas outras celebridades escassearam, assim como o interesse da mídia. 
Na última semana, por exemplo, o rapper multimilionário, Jay-Z, que lucrou horrores com camisetas com os dizeres, Occupy All Streets(Ocupem Todas as Ruas, um trocadilho genial), confessou que nunca soube muito bem o significado daquele movimento.

Este não é o sintoma mais grave, embora seja importante: O oportunismo sempre a espreitar tais iniciativas.

O principal problema, que este blogueiro detectou é comum, em minha opinião, em muitos movimentos com esta natureza generalista.
Passado o primeiro momento, com o fim do charme que a novidade e a surpresa trazem, resta a hora de organizar e definir estratégias de longo prazo, e um senso político que unam as diversas expectativas para manter a coesão em torno das causas.

Como estes movimentos nascem sem esta direção, ou pior, com um discurso de aversão às estruturas orgânicas, já que os manifestantes identificam-nas (as formas de fazer) com tudo que condenam, é comum perderem força quando a maioria dos envolvidos se veem diante da tarefa de ir além, e pior, tendo que institucionalizar suas vozes dentro dos limites impostos pela realidade que os cerca, ou seja, partidos, associações, organizações, e a tarefa de decidir como vão usar o capital político que arrecadaram.

Talvez a pior conseqüência destes movimentos sejam o aparecimento de um sentimento de frustração, justa, mas inútil, com as formas tradicionais de representação democrática, o que empurra alguns setores para formas violentas e perigosas de manifestação, principalmente os mais jovens, dotados de toda "energia e rebeldia", que nem sempre significa crer no "progresso" da Humanidade.


Chega de palhaçada, ficha limpa, salário de vereadores, anonymus, e Occupy, o que têm em comum?

Como disse antes, comecei a imaginar porque este mesmo esvaziamento do Occupy parece atingir movimentos como os citados aí em cima, regionais e nacionais, mas todos com uma mesma natureza: Atacar os "privilégios", a "corrupção", enfim, denunciar os abusos da ação política, embora durante sua vocalização pública nunca sejamos capazes de distinguir se atacam certos privilégios ou toda a ação política.

O que estes movimentos locais, como Chega de Palhaçada ou pela redução dos salários dos vereadores, ou os de amplitude nacional, como o ficha limpa, parecem não entender são os limites que estão impregnados em sua própria ação, ou seja, querem estabelecer um debate político pela anti-política, uma vez que não identificam os alvos de sua ação, não separam as diversas manifestações diferentes do fenômeno que dizem combater, enfim, não conseguem estabelecer uma estratégia que defina o alvo, o objetivo, e mais, quem ganhará e quem perderá com a ação.

Não dizem ao certo o que é causa e o que é efeito, e vice-versa. Como uma variável não subsiste sem a outra (causa e efeito), sobra o "messianismo", que não raro despontam em explicações "espontâneas" sobre o desenrolar dos eventos.

É tudo de um generalismo tão amplo que só resta a "diluição incorporada", emprestando um termo do band leader Fred04, da Mundo Livre S/A, ele mesmo um resistente, ou para dar um tom chique no texto, outsider do mainstream cultural.

No primeiro momento, estes movimentos de contestação surtem um efeito "positivo", o de chamarem as consciências a acordar, mas como diz a lenda, ao dar um susto no sonâmbulo, quase o matam.

Não conseguem ir além da denúncia em si, e provocam dois resultados, ambos perigosos: Ou afastam ainda mais a população que dizem querer atrair para mudar o status quo, ou dão a esta população, na medida que o movimento, de fato, não alterará as estruturas que diz atacar, um sentimento de frustração de que tudo continuará sempre a mesma coisa, banalizando a noção de mudança, ou seja, anestesiando as "consciências", depois de "acordá-las". 
Um aviso: Estas duas hipóteses não são excludentes, e não raro se completam.

Há os bem intencionados, há os hipócritas, há os cínicos, enfim, toda fauna humana se reúne, e bate os tambores.

No entanto, alguns instrumentalizam e capitalizam o pouco que ficará em proveito próprio. Não é incomum encontrarem um "nicho de mercado eleitoral", que lhes dará sobrevida, sem no entanto afetar o establishment
Outros cairão desanimados, outros nunca mais voltarão a acreditar em nada, e se tornarão bem piores que os que criticavam.

Mas o alento é que no seio destes movimentos, uns poucos percebem os acontecimentos, e sobrevivem e RENOVAM as práticas e movimentos políticos, como citou o texto do jornal inglês.

Sejam bem vindos.


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