terça-feira, 4 de setembro de 2012

Made in Brazil.

Foi libertada ontem a maioria dos mineiros sul-africanos que estavam presos, após sua participação em um protesto que culminou com a morte de 34 dos seus pares.

Seus crimes? 

Não, não foram eles que massacraram os 34 colegas, em um acesso de fúria qualquer. 

Foram os policiais que lá estavam para dissuadi-los do movimento grevista, e atiraram impiedosamente contra uma multidão armada com "perigosos paus e guardas-chuva velhos", como você pode ver na imagem aqui.

Nenhum dos policiais foi sequer identificado. 

De acordo com a promotoria local, os mineiros foram responsabilizados porque eles é que provocaram os tiros que receberam.

De imediato me vieram à cabeça as semelhanças entre a África do Sul e o nosso país. São muitas, assim como são muitas as diferenças.

A elite sul-africana, preposta dos interesses das elites internacionais, sempre ávidas pela extração, nem que seja à força, de suas riquezas naturais, sempre entenderam o enorme contingente de negros como uma sub-humanos, ou como pessoas de segunda ou terceira classe.

A nossa elite brasileira idem.

No entanto, os sul-africanos sempre foram muito menos hipócritas que nós. Os negros sul-africanos sempre apanharam e morreram nas mãos do aparato policial, sempre foram os condenados preferenciais, sempre segregados em favelas(guetos), com pouca ou nenhuma representação política ou acesso as facilidades do Estado, como saúde, educação e segurança.

Tal e qual os nossos negros brasileiros.

No entanto, os sul-africanos, como disse, sempre foram fiéis ao que acreditavam, e sistematizaram estas regras de exclusão em um estamento normativo, onde o racismo era uma política pública.

Aqui, vivemos sob o mito da democracia racial, onde além se subtrairmos direitos, ainda subtraímos ideologicamente a possibilidade dos negros enxergarem sua marginalização.

Mas com tudo isto, e talvez por isto, os negros sul-africanos foram capazes de romper este ciclo perverso de dominação, e se fizeram representar de forma proporcional nas esferas de poder, embora isto por si só não lhes garanta mais igualdade e direitos.

Como são muitas as diferenças e semelhanças, quem sabe, pelo nosso "sucesso" em manter a "negrada comportada", as autoridades sul-africanas começaram a olhar para nós, e para aprenderem nossa tática infalível de criminalização dos movimentos reivindicatórios.

Afinal, temos uma longeva história de conversão de oprimidos em foras-da-lei e na "domesticação" dos sentimentos de indignação contra injustiças étnicas e sociais.

Quem sabe não mandamos o demétrio magnoli e o pedro bial para lá também?

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