quinta-feira, 6 de setembro de 2012

Faltam pedras, sobram genis...

O bom de escrever em blogs é a possibilidade de desafiar o senso comum.

Assumir sua orientação e opinião, sem pretender mascará-las na farsa da imparcialidade, que nunca deve ser confundida com a busca pela verdade factual.

Quando tentamos nos aproximar dos fatos como eles são, inexoravelmente penderemos para um ou mais lados.

Estranha esta obsessão da mídia corporativa e, para minha surpresa(nem tão surpresa assim), de alguns blogs em execrarem em praça pública os vereadores que promoveram um aumento para a próxima legislatura.

Desnecessário dizer o óbvio, que já foi mencionado pela vereadora do PT que ninguém ali legislou em causa própria, dada a incerteza da reeleição, noção ratificada pela própria análise recente de que haverá uma ampla renovação dos integrantes da Casa de Leis municipal, inclusive pela desistência de vários favoritos.

Uma das questões de fundo é: 

Alimentar o senso comum para entender a ação política, ora como ação de abnegados heróis solitários, ou do outro extremo da bipolaridade analítica, como eternos escroques que representam um "povo de bem", como se esta relação fosse possível, ou seja, que o caráter dos representantes fosse menos digno do que dos seus representados.

A outra, conseqüência desta:

Promover a demonização permanente da política e dos políticos, afastando o senso coletivo do cerne dos problemas, mantendo a percepção popular na superfície dos temas "morais", escondendo assim a ação dos grupos organizados e a defesa de interesses associados da elite econômica com as corporações de mídia, por exemplo.

Não é demais relembrar a lição histórica: 
Foi a histeria coletiva, promovida por ação de mídia (propaganda), em ataque permanente aos políticos e partidos tradicionais que, grosso modo, ungiu Hitler e sua máquina de guerra e extermínio. 
Um consenso macabro.

Sei que é exagero a comparação, mas cuidado nunca é pouco.

Assim, a pergunta que deveria ser feita em relação aos vereadores é, aparentemente, simples: 

Eles têm feito o seu trabalho? E mais: Se não têm feito, por que seus "patrões", os eleitores, insistem em mantê-los no cargo, ou "piorar" a representação a cada legislatura?

Sim, pois fora estas perguntas, ninguém poderá determinar com exatidão a importância e o valor relativo de uma função ou cargo.

Como explicar que policiais ganhem 2 ou 3 mil, enquanto juízes ganhem 20, 30 ou no caso de desembargadores, através de firulas e chicanas, acumulem até 90 mil em vencimento, como é o caso do TJ-RJ, no mês de julho deste ano?

Ou que médicos se esfolem em múltiplos plantões para auferir o mínimo condizente com sua profissão, e seus anos de dedicação e caros estudos, enquanto conselheiros do TCE arrecadem 20, 30 ou 40 mil mensais?

Esqueçamos a óbvia citação de professores universitários com doutorado (décadas de estudo e pesquisa) que ganhem pouca coisa mais que policiais rodoviários federais.

Não se trata, no entanto, embora tenha dado, de forma proposital, esta falsa impressão, de menosprezar a importância de juízes, promotores, auditores, conselheiros, e outras categorias ungidas com gordos proventos.

Apenas os citei para afirmar e reafirmar a dificuldade de fixar um valor justo para remuneração das profissões, e definir qual a importância relativa na sociedade, principalmente, quando falamos dos outros.

Então, definir qual é o provento justo para esta ou aquela função é bem mais que atiçar o senso comum.

A pergunta não cala e retorna: Os vereadores atuais fazem o que deveriam? 

Não, não fazem, mas isto não inviabiliza a sociedade reconhecer que esta função merece proventos dignos, e que cabe a esta SOCIEDADE eleger representantes que correspondam suas expectativas. 
Mas quais são estas expectativas mesmo?

Bom, se os vereadores estivessem cumprindo seu papel, com certeza deveriam fiscalizar os milhões gastos com mídia e propaganda pelo governo municipal.

Será esta uma pauta de interesse da mídia? Não sei.

Se estes vereadores cumprissem seu papel, exigiriam do governo a transparência nos gastos públicos, trazendo à tona as relações incestuosas entre empresas, o Erário, e a compra de apoio político, inclusive junto a mídia local.

Para falar a verdade, eu prefiro (ANOTEM: ESTA É MINHA OPINIÃO), pagar vereadores ou outros servidores públicos, concursados ou eleitos, que direcionar milhões e milhões a iniciativa privada sob forma de terceirizações duvidosas, subsídios e anistias fiscais, etc.

Vejam só o contrassenso: A PMCG, ou melhor, você contribuinte, dá dinheiro, através do FUNDECANA, para salvar usinas e a atividade sucroalcooleira, que queima cana e destrói o ambiente, para depois pagarmos pelo tratamento de saúde das pessoas que são atingidas por esta degradação ambiental.

Então o problema são os salários dos vereadores ou a natureza da fidelidade deles aos interesses que nos prejudicam?

Enfim, se queremos vereadores que valham o que ganham, devemos elegê-los. Se queremos definir quanto eles devem ganhar, é bom afastar a hipocrisia.

"A diferença entre os hipócritas e os cínicos, é que os primeiros fazem ou desejam fazer tudo aquilo que fazem os últimos, mas acreditam e tentam nos convencer que fazem diferente.

Ass: Um cínico.


13 comentários:

Roberto Moraes disse...

Caro Douglas,

Sua postagem me poupou de tentar gastar letras para dizer na essência algo semelhante.

Tirando uma detalhe aqui outro ali, na essência concordamos.

A escroque velha mídia local tentou mais uma vez se valer e se relacionar da rede social que lhe despreza e questiona num tema que evidencia suas contradições.

Aposta na despolitização do povo para continuar a sorver o seu.

Querem vereadores fracos e domados que não fiscalizem o que recebem do povo.

Há muita coisa mais importante a ser tratada do que o tema atual que é notícia sim, mas, merece um debate mais aprofundado e político.

O salário dos vereadores podem estar acima do que merecem, na média, assim como a mesada que esta mídia anda recebendo, direta ou indiretamente com salários de seus profissionais repartidos com órgãos públicos no velho esquema do Chateaubriand.

Se tivessem coragem expunham o que recebem dos governos como são feitos com os salários públicos.

Taí uma boa Lei para ser aprovada pelos edis na próxima legislatura: a divulgação clara de quanto é pago a cada veículo de comunicação de forma direta ou indireta pelas tais agências de comunicação.

Mais do que usar o senso comum da velha "Olha" o que a velha mídia quis é tentar surfar nas mesmas águas da rede social local.

Bom que os vereadores domados pela velha mídia local saibam (mais uma vez) com quem estão lidando.

Mesmo em meio ao debate eleitoral está sobrando jornais nas bancas. Vendem o que não entregam.

Querem vereadores sob controle para não lhes fazer controle.

Querem a dificuldade despolitizada para vender as linhas e o verbos que lhes garantam o dinheiro do povo.

Aliás, Douglas, se os vereadores tivessem coragem, fariam uma continha básica: nos últimos dez anos, quanto foi pago de salários e eles e quanto foi repassado a esta escroque para fazer mal o que fazem.

Quem trabalha pior?

Está aí uma briga boa.

Abraços.

Anônimo disse...

Concordo. Os vereadores precisam ganhar bem. É cinismo dizer o contrário.
A questão é exatamente a que você menciona: eleger melhores edis e fazê-los executar a sua função.
No mais, pego emprestado a frase publicada há pouco num comentário do Blog Roberto Moraes:
"O maior castigo para quem não gosta de política é ser governado pelos que gostam".
Arnold Toynbee (economista inglês que popularizou o termo "Revolução Industrial")- e também era um cínico.

douglas da mata disse...

Caro Roberto e comentarista,

Na verdade, por mais que, pessoalmente, eu observe com certa felicidade este processo de desgaste da mídia corporativa local e nacional, sua conseqüente segregação em guetos radicais de opinião, e sua gradativa perda de capacidade de "influenciar" a opinião, restando apenas este papel secundário e cretino de remexer e ampliar os recalques conservadores da nossa paradoxal sociedade, por outro lado, não posso deixar de perceber o quanto este processo atrofia nossa Democracia, inclusive com a perda da possibilidade de um debate sobre governos, Estados, sociedade, partidos, etc, para além do senso comum, da manipulação idiotizante.

De certo, se os políticos locais e nacionais tivessem culhões(e claro, menos rabo preso)poderiam, de fato, começar a questionar os métodos e a natureza deste nefasto 18ª poder que já foi considerado o 4º...mas que ainda suga dinheiro público como parasitas, aliás, na medida proporcional direta do fracasso comercial que experimentam, e que você, Roberto, como tantos de nós, já notou...

Um abraço a todos.

Blog Católico do Leniéverson disse...

É muito engraçado o seu blog, o que tem a ver questionar o aumento de salário dos Vereadores com a despolitização?Muito pelo contrário, as pessoas tem o direito sim.Foram eleitos para representar o seus eleitores. Eu, sendo um, me senti um palhaço. E o que um Vereador faz, para merecer tanto?Hein? Será que trabalham taaaaaaaaaaaaaanto assim? Agora, imagine Douglas e Professor Roberto, a minha mãe, durante 30 anos, trabalhou como professora do estado do Rio de Janeiro, ralava triplamente pq dava aulas, corrigia provas e fazia planejamento e ainda tinha que zelar pela educação minha e dos meus 4 irmãos mais velhos.
Existem classes, que até hoje, NUNCA, tiveram aumento real de salário. Aumentar salários na calada da noite, é sim, um escário.
Talvez, na sua visão comunista, assim como deve ser a do Professor, quem questiona isso como a Revista Veja, devem ser fuzilados, não é?Imaginem as revistas e blogs financiados pelo petismo (leia-se governos federal, estadual, municipal governados pelo PT), fora o aparelhamento da UNE, dentre outras coisas? O mensalão está aí, pertinho de condenar o Zé Dirceu. É dinheiro indo pelo ralo, enquanto isso, a educação, a saúde....ixi..tudo indo para o brejo e querem eleger um embuste em São Paulo, chamado Fernando Haddad.

douglas da mata disse...

Caro comentarista,

Não coloque palavras na minha boca. Você tem direito de questionar, e até de ser, na minha opinião, obtuso, mas nunca de ser desonesto intelectualmente.

Ora, o fato de eu entender que a revista "óia" presta um desserviço a seus leitores e ao país não significa que eu deseja sua extinção violenta.

Muito ao contrário: tenho manifestado no blog a preocupação com os rumos do debate público brasileiro, tanto na esfera virtual, quanto na mídia e na sociedade, pois corremos o perigo de uma sectarização tipo "tea party".

Não precisamos imitar os modos políticos da Fox News e dos republicanos tipo Sarah Palin.

Outra, nunca professei, nem me reivindico o rótulo comunista, embora não me envergonhasse dele, se fosse o caso.

Generalizações são perigosas, ou será que todo católico é pedófilo porque a Igreja segue acobertando tais escândalos?

Ou nazista como seu papa?

Quanto ao tema em si, você, por meios transversos, acabou por entender:

É difícil valorar o trabalho alheio, como das professoras, mas isto, per si, não significa que vereadores devem ganhar menos, apenas porque são representantes eleitos.

De todo modo, esta decisão coube a eles: fixar seus subsídios, e ao contrário do que você imagina, não foi na calada da noite:

Está na previsão constitucional federal, estadual e a nossa lei orgânica, e foi aprovado em sessão ordinária, aberta ao público, você estava lá?

No tocante ao tema em si, e a despolitização, a sua reação "enfurecida" já é uma boa simbologia do que tratamos aqui.

Eu não me sinto um palhaço com as decisões ali deliberadas, mas talvez eu me sinta como um ao não participar mais do processo de escolha e mobilização político-partidária da minha cidade.

Me sinto um palhaço quando ops vereadores servem de lacaios dos empreiteiros e dos barões da mídia local.

Este é o verdadeiro prejuízo que nos causam, e saibam, se elegêssemos bons representantes (se tivéssemos consciência do isto significa) sobraria dinheiro para pagar o triplo a eles a atender as demandas dos munícipes mais pobres.

Quanto os blogs e revistas financiados pelo "petismo", é bom lembrar, só para reavivar sua memória, que as revistas, jornalões e TVs da mídia corporativa são os maiores sorvedores de dinheiro público, inclusive por aqui.

Eu não conheço nenhum blog financiado pelo governo federal, mas se houver algum, é pelo menos uma tentativa de equilibrar o jogo, não, ou o governo só pode pagar para falarem mal dele?

Mas será que você não sabe? Bem, podes estar mal informado.

Em tempo: em relação a ação 470, que a mídia e seus leitores tentaram chamar de mensalão para influir nos resultados eleitorais deste ano(sem o menor sucesso), que cada um pague na medida de sua culpa, nem mais, nem menos.

Será que depois a mídia vai tratar na mesma proporção do caso mineiro-tucano?

Ou da privataria tucana e do "limite da irresponsabilidade", frase dita pelo ffhhcc ao então diretor do fundo de pensão PREVI (do BB), que devia financiar a compra do patrimônio público com dinheiro público...ops, estranho não?

Eu aposto uma hóstia benzida pelo papa nazista que não.

Anônimo disse...

Douglas, dá gosto debruçar sobre os seus escritos e observar o fio cortante do seu mouse a produzir conceitos lógicos e lúcidos.
É uma pena que você, o Roberto, o Luciano, e outros como o Adilson Sarmet tenham seguido outras jornadas, incentivados pela visão vesga dos dirigentes partidários ao afugentá-los.
A opinião de quem tem mandato dentro de uma sigla de oposção deveria ser instrumentada, ajudada, orientada e produzida por um Conselho Político, do qual vocês poderiam muito bem fazer parte. Aí não se veriam opiniões tão improvisadas e desastrosas como as que são emitidas.

ass. Zé Boquinha.

Roberto Moraes disse...

Caro Douglas,

Mais uma vez volto a escrever para concordar com sua posição no comentário.

Sem precisar acrescentar mais nada.

Porém, insisto em assim me posicionar.

Abs.

George AFG disse...

Não consigo achar justo sobre nenhum enfoque o aumento de salários na proporção dada, com a Administração Pública em geral descumprindo o art. 37, inciso X da CF, isso independente de quem defenda ou ataque o aumento (prefiro debater idéias, não pessoas).

douglas da mata disse...

George,

Veja que no texto eu não defendi o aumento, nem ataquei, justamente por entender que esta discussão, além de secundária neste momento no qual escolheremos nossos representantes, foi encaminhada pelo viés errado, e pior, por quem não tem condições morais(por se locupletar de verbas públicas por detrás da obscuridade de contratos e sem a transparência que exigem).

Se queremos debater o "quanto" vale cada profissão, cargo ou função, ótimo...

No entanto, fazê-lo com achincalhamento e atacando a ação política parlamentar não resolve.

Um vereador que lambe botas do executivo e aprova os maiores absurdos sem questionar para mim não vale um real, mas a questão é: ganhando um real ou dez milhões ele me representa da pior forma, logo, o problema não está em seu vencimento, e sim na qualidade política de nossa representação, que tem muito mais causa em nós que neles...

Um abraço.

George AFG disse...

Douglas um debate não impede o outro, ademais a questão aí, na minha concepção, passa mais pela discrepância entre a política de reajuste dentre os órgãos públicos dentre esses e as entidades privadas do que a secular discussão quanto ao valor do trabalho de cada profissão no sistema capitalista que já voga desde o início da luta da classe trabalhadora. Quanto a quem está gerando a discussão não conheço o Wedder, quanto à FA é por aí mesmo... Percebo que vc não defende o aumento pelo texto.

douglas da mata disse...

George,

Não há comparações possíveis entre a iniciativa privada e o setor público, pois o fim de cada ente é distinto: Um visa o lucro, pela mais-valia, ou outro o bem comum.

Ainda assim, mal comparando, imagine que nossa cidade fosse uma empresa com mais de 2 bi de orçamento, de todo jeito, o conselho administrativo(câmara), com seus "executivos" com salários entre 10 ou 15 mil não seria nada absurdo.

O problema, eu repito, não reside no quanto ganham, mas na incompetência dos "patrões" (NÓS) em exigirmos "melhores resultados", e em escolhermos melhor esse conjunto de servidores.

George AFG disse...

O fim é o interesse público, mas servidores TBM SÃO TRABALHADORES e veja q comparei DENTRO dos diferentes setores do próprio setor público. Já disse a questão é a INTENSIDADE E O QUANTUM DO AUMENTO, não o valor do trabalho.

douglas da mata disse...

Sim, George, mas a natureza do trabalho muda completamente a sua "valoração".

Respeito sua opinião, mas há funções e cargos que não podem ser enquadrados sob a ótica quantitativa.

Os de natureza pública por exemplo, nos quais os parâmetros quantitativos, que você chama de intensidade e "quantum", mas que são nada mais, nada menos que produtividade do sistema capitalista, não obedecem esta lógica.

Muito menos a atividade parlamentar.

Esta construção ideológica quantitativa é outra "invenção" neoliberal para desqualificar o serviço público e pior: a atividade parlamentar.

A sociedade, embora você afaste a discussão, define, de forma explícita ou implícita o valor do trabalho através de várias mediações, e esta não é uma prerrogativa capitalista.

A valoração ou desvalorização do trabalho sempre permeou as sociedades em qualquer modo produtivo.

Na escravidão, trabalhar era indigno, e por aí vai...