segunda-feira, 24 de setembro de 2012

Eleições: os insondáveis mistérios das escolhas do eleitor.

Um dos aspectos fundamentais do processo democrático, o voto, ainda se constitui uma variável indeterminável.

As mais diferentes tecnologias de sondagem, os mais pertinentes estudos, e as opiniões mais sensatas esbarram em um índice de incerteza permanente.

Bom que seja assim.

A maior previsibilidade do jogo eleitoral reflete, na maioria das vezes, um teor perigoso de inanição da vida política e das possibilidades de alternância de poder.

Não que a instabilidade das mudanças frequentes sejam desejáveis, mas a diminuição paulatina das forças de oposição representam um perigo à Democracia, na medida em que estas forças tendem  a piorar o teor de seu discurso na razão direta do seu encolhimento, reduzindo-se a agendas de pequena efetividade, afastando-se da construção de alternativas de poder que enriqueçam a vida coletiva.

É o que eu de chamaria "vontade potencial democrática", que ainda que não se materialize em mudança lato sensu, acaba por fomentar alterações e incorporações importantes dos sentimentos potenciais da população na forma de governar, reformulando consensos e novas vontades potenciais.

Várias políticas públicas foram assumidas pelas mais distintas facções políticas através deste processo, e se transformaram em políticas de Estado.

A ausência desta possibilidade fraciona o tecido social, deixando a gritaria minoritária um aspecto pálido de insatisfação incapaz de operar mudança alguma no status quo vigente.

É o que acontece, grosso modo, com a oposição em nível nacional, frente a crescente hegemonia e sucesso dos governos Lula e Dilma, onde as forças de reação a este movimento são incapazes de formular teses que combatam as escolhas políticas adotadas pelo governo, restringindo sua ação política ao moralismo inócuo, tanto porque é seletivo, tanto porque desqualifica a ação política e afasta ainda mais aqueles que pretendem atrair para seu campo. Ou seja, com a banalização dos erros "morais" dos políticos, os eleitores acabam por rejeitar a política em si, e deixam tudo como está, desenvolvendo aversão a mudanças.

Mais ou menos o que temos aqui na cidade de Campos dos Goytacazes. 
Confinada em alguns blogs, mídia e alguns partidos capengas, a oposição sequer arranha a imagem do governo local. Estes setores não ameaçam a percepção do eleitor que pode e deve ser diferente, porque os oposicionistas não dizem ao certo como e porquê são diferentes.

Martelamos outra vez nesta tecla. Outros fizeram de forma melhor, como Pedçlowski em seu blog.
No imaginário popular, a oposição local parece um bando de gente que, na verdade, é o outro lado da mesma moeda, e que comungam o mesmo modo de operação (modus operandi) dos que estão no governo. Então, para que mudar?

É esta pergunta que o eleitorado paulistano se fez, e achou uma resposta a seu jeito. 
A escolha do eleitor da capital paulista desafiou os especialistas, que de pronto sacaram uma simplificação: "É a nova classe média, que inserida no mundo do consumo, escolhe o defensor dos consumidores".

Com certeza este ingrediente integra a mistura, mas não foi só isto.

O eleitorado paulistano deu um verdadeiro nó na cabeça dos marqueteiros e caciques políticos, do psdb e do PT.

Poderíamos dizer que este eleitorado rejeitou tudo o que havia, e sinaliza a mudança. Lógico que havia um eleitorado cativo de Celso Russomano, conquistado pela sua atuação na TV, mixado a militância evangélica conservadora.

No entanto, este capital sempre foi insuficiente para que o candidato favorito rompesse o teto histórico e sua fama de "cavalo paraguaio".

O que houve de diferente?

Em primeiro plano um componente desprezado pro todos os "especialistas" que teimam em "nacionalizar" ou "estadualizar" as disputas: A péssima avaliação do prefeito Kassab, apoiador e criatura do candidato tucanopata.

Não só em SP, mas em todas as cidades, com níveis diferentes, a avaliação administrativa é fundamental na escolha do eleitor, na reeleição e na transferência de votos.

Outra variável forte: a rejeição ao candidato tucanopata, associada a sua estratégia de "nacionalizar" a campanha com o tema "mensalão", que reacendeu na memória do eleitor as juras quebradas de cumprir os mandatos até o fim.

Por fim, 27 % do eleitor paulistano diz nas pesquisas que prefere o PT, e que vota no Russomano porque enxerga nele o antissserrismo, de acordo com entrevista recente do presidente do diretório municipal do PT/SP a Conceição Leme, moderadora do sítio Viomundo.com. br. do jornalista Luiz Carlos Azenha.
Então, neste caso, embora toda engenhosidade política de Lula & cia tenha servido a lançar um desconhecido a 15 ou 17% de intenção de votos, esta opção não foi suficiente para se apresentar na percepção do eleitor com depositário do sentimento de mudança.

É incerto que no segundo turno em SP, Russomano consiga agregar mais votos, dependendo do adversário, porém ficou claro que a Democracia e seus processos, ainda bem, resguardam muito mais surpresas aos que pretendem aprisioná-la em visões de mundo particulares, interesses inconfessáveis e , ou hipocrisia.




3 comentários:

Anônimo disse...

Aqui, mais do que em São Paulo, a oposição está sofrendo com a força econômica e política que adquirem os governos quando estão no exercício. Seja com um projeto manco ou com resultados positivos os governos tem um tempo a seu favor que o imediatismo das pessoas que compõe a oposição não consegue esperar. Ou mudam de lado ou desistem.
Construir um projeto local de oposição estruturado, composto por propostas consistentes, reais e voltadas para resultados é a única saída política viável. Mas isto está longe ainda. Se composto por oportunistas (e eles apareceriam no decorrer do processo) o descrédito seria imediato.
Por isto não acredito em um projeto gerido por um grande grupo, embora em algum momento ele tivesse que crescer.
É preciso liderança, muito trabalho e tempo para isto. Quem de nós (que poderíamos colaborar com um projeto deste) pode dispor deste tempo? Só quem é político profissional. Aí caímos de novo na esparrela.
Até isto mudar, precisamos educar e informar este grupo que ascendeu socialmente mas carrega uma herança educacional perversa. Quem sabe daí não surge uma nova liderança?

douglas da mata disse...

Caro comentarista,

Permita-me discordar de partes importantes do seu discurso:

Não há como reduzir o embate entre a oposição a Dilma e os demotucanopatas a capital de SP, embora ali esteja um palco importante, por um motivo óbvio: Ali eles (demotucanopatas) são governo há décadas.

Discordo enfim de sua visão "pedagógica":

Não existe como "educar e informar" este grupo que ascendeu socialmente, mas carrega uma herança educacional perversa, pois sabemos que o apoio ao governo local perpassam as elites locais, que parasitam e sugam boa parte dos recursos públicos.

Cada parte do eleitorado, por motivos próprios, faz suas escolhas mediadas por suas expectativas, e cabe a qualquer projeto político apresentar perspectivas diferentes e sedutoras, mas nunca dizer as perspectivas atuais são fruto de falta de "educação formal" ou "cultura política".

A comparação que fiz no texto foi do ´ponto de vista da incapacidade das oposições de extrapolarem os guetos nos quais estão encurraladas, apoiadas em órgãos de mídia que só detêm hoje a capacidade de deformar opinião, destituídas de qualquer credibilidade.

Um abraço.

Anônimo disse...

Claro que permito.
É por isto que leio e escrevo aqui.
Realmente, não acho possível transformar a elite local porque ela dança conforme a música, desde que a música é música.
Tenho esperanças em um Garotinho do garotinho que seja novo, bem formado, independente. Que tenha passado por um bom emprego, talvez ligado à área técnica e que surja liderando uma nova Campos.
A velha mídia cai a cada dia. Aquela revista semanal já não sai mais em papel. Diz que ressarcirá (será?) seus assinantes pelas edições pagas... Não há pipoca sem milho.
Obrigado. Um abraço.