domingo, 26 de agosto de 2012

Toda nudez não será castigada.

Com certa dificuldade de escrever, após o hiato no qual este blog esteve submetido, oscilei entre "palpitar" sobre a proposta da nova Lei Antidrogas (o nome em si, uma piada de mau gosto) e as relações tupiniquins de imprensa corporativa com o chamado "populismo judiciário", neologismo cunhado por alguns para identificar a promiscuidade da Justiça com a necessidade de atender os reclames da "opinião publicada".

Após uma breve olhada em alguns veículos internacionais, me convenci a trocar o objeto, embora o tema seja o mesmo: Sociedade, liberdade e regulação da mídia.

Eis a manchete da página eletrônica do The Independent:

Angry Murdoch used harry photos to defy Levenson 
(algo mal traduzido como: Murdoch enfurecido usa fotos do prínicipe nu para desafiar Levenson).

Você pode ler o texto completo clicando na manchete acima.

Nesta semana que passou, o príncipe Harry, o terceiro na cadeia sucessória do trono inglês, teve sua intimidade escancarada pela publicação de fotos suas, nu, em uma festa em Las Vegas.

Nenhuma novidade, diriam os que acompanham os percalços da realeza britânica e sua relação de amor e ódio com a mídia, calcada em sua vocação humana de exposição a escândalos de toda natureza.

Havia uma recomendação aceita em todos os veículos pela preservação da intimidade de Harry, pelo consenso de que o príncipe, ainda que uma persona publicae, e oficial da RAF, teria direito à privacidade, principalmente, se considerado o fato de que as fotos foram registradas DENTRO de um quarto de hotel, e não em local público.

Murdoch, de acordo com o The Independent, rompeu o "acordo" e mandou publicar as fotos em desafio direto a Lord Levenson, o responsável pelo Levenson Inquiry (Inquérito Levenson), que apurou os graves crimes cometidos por Murdoch e seus subordinados, que manipulavam fatos para ampliar a relevância das matérias que publicavam, e usavam como ferramentas principais, a exposição e invasão de privacidade e sigilo dos envolvidos em dramas e tragédias.

No caso Harry nu, Murdoch mais uma vez tentou contrabandear a velha ameaça a liberdade de imprensa (que na Inglaterra, pelo jeito, não está nem de longe ameaçada), rebelando-se contra um suposto senso comum dos concorrentes que estariam se curvando ao controle estatal representado por Levenson.

Em outras palavras: Os jornais e outras mídias inglesas aceitaram não publicar menos por respeito a privacidade, e mais por temor do relatório Levenson, que trará recomendações e sanções não só ao grupo de Murdoch, mas a toda mídia.

Na verdade, o bom senso dos concorrentes entendeu por preservar a intimidade de uma pessoa pública, por absoluta falta de relevância em expô-lo em sua intimidade, sinal de franca evolução da mídia inglesa em relação a passado recente.

Mas ainda assim, se fosse por temor a uma ação de controle social, nada haveria de errado, pois é bom lembrar: É a mídia que serve à sociedade, e nunca o contrário.

Em sua visão torta e absolutista, a "liberdade de imprensa", que na verdade, nada mais é que a ditadura dos donos da mídia, Murdoch mais uma vez usou a intimidade de alguém para satisfazer suas demandas pessoais de poder e interesses empresariais.

Incrível semelhança com o caso "óia-cachoeira-policarpo-delta".

Lá, como cá, um grupo de mídia, através de seus executivos e editores, promiscuiu-se com criminosos para alterar e manipular os fatos, quebrar sigilos, invadir privacidade, tudo de acordo com interesses de pessoas e grupos ligados ao esquema.

Lá, houve uma reação de outros grupos de mídia (até pelo básico instinto de sobrevivência/concorrência), e da sociedade, que se materializou em um inquérito (Levenson Inquiry), onde as relações de prostituição da liberdade e sigilo de fontes foi devassada, com prisões de envolvidos (todos do "estado-maior" de Murdoch), exposição das relações com integrantes do gabinete do primeiro-ministro Cameron.

Aguarda-de o relatório, e o last shot de Murdoch parece ter sido mostrar o príncipe nu. Na verdade, Murdoch acabou por revelar muito mais de suas entranhas e do seu grupo de mídia.

Por lá, nenhum lamento que a ação de controle estatal, em nome da sociedade, seria um atentado a liberdade de imprensa e as liberdades individuais.

Bom, as semelhanças acabam por aqui, infelizmente.

No Brasil, grupos de mídia, reunidos para impedir qualquer questionamento a seus métodos, chantageiam a nação com a surrada "ameaça as liberdades".

Ora, nada mais ameaçador que corporações que se colocam acima da sociedade e do próprio Estado, e de seus meios de controle

As manobras parlamentares para evitar que editores da "óia" se submetam ao poder inquisidor parlamentar podem até ser legítimas, do ponto de vista formal, uma vez que as decisões da CPMI são legitimadas dentro do jogo democrático.

No entanto, os argumentos são cretinos. Aliás, como sempre.

Está claro que deputados e senadores que mantêm ligações com os grupos de mídia, ou que os temem, atenderam ao chamado e defenderam a posição dos barões da comunicação e seus acólitos.

O que há no Brasil é uma disputa política entre os que entendem que a mídia deve ser submetida a um controle social permanente, como todos NÓS, e os que defendem a liberdade de imprensa como uma valor absoluto.

Na terra da rainha, esse problema parece resolvido. Todos os interesses estão nus.

Já por aqui...parece haver muita sacanagem por detrás das cortinas e do pudor hipócrita das roupas bem talhadas...

3 comentários:

Anônimo disse...

Bom seu texto ter voltado. Sabia que isso ia acontecer. Os dedos estavam coçando não é mesmo?
Parabéns. Fez o certo.
Não concordo com tudo, mas gosto muito de ler.

Blog Católico do Leniéverson disse...

Caríssimo Blogueiro, me permita fazer uma série de discordâncias:
A primeira delas, é que não vejo nada de belo no texto, porque está carregada de clichês sobre a questão do "pensamento único".
É muito comum, nos países comunistas, a existência de ditaduras, regimes totalitários e tiranos.A China, por exemplo, é um dos mais rádicais nesses sentido. De onde já se viu, colocar técnicos de TI (Tecnologia de Informação) para proibir a população de ler coisas contra o governo?Fora, o fato, de não haver Twitter, Facebook, o Google é supercensurado (carregado de filtros),enfim, cadê a liberdade de expressão?Na Coreia do Norte, em Cuba, na Venezuela, e em outros países o cerceamento as liberdades de expressão e de imprensa. Mas, o que é a velha mídia, é aquela que crítica a censura, a repressão de discursos antitéticos ao regime, dentre outras coisas. Aqui no Brasil, está indo para o mesmo caminho, quando se implica com a Veja, com a Folha, com o Estadão e outros. O Brasil não precisa de regulação de mídia, como acontece na Argentina coma Ley de Medios, isso é coisa de gente que não sabe ouvir a discordância, não se pode dizer que é contra o aborro, contra a união gay, que é contra o PT, contra a descriminalização das drogas, enfim, quem pensa diferente deve ser satanizado, debochado e caluniado. É lastimável, por isso não concordo.Uma coisa que conquistamos a duras penas com a Constituição de 1988: o fim definitivo dos efeitos do AI-5, não pode voltar atrás.

douglas da mata disse...

Meu filho, toda fala é um clichê, na medida que ninguém aqui se arvora em inaugurar conceitos. Já nos basta reunir palavras em torno de algumas ideias, ainda que surradas.

Nem sempre a verdade é bela, eu sei, eu sei...

Este blog não pretende, nem nunca pretendeu defender (nem atacar) os modelos políticos cubano, chinês ou qualquer outro que o valha.

Isto é trabalho político para o povo soberano de cada um destes países.

Como vemos hoje em dia, ao redor do planeta, democracia é um troço complicado.
Os campeões democráticos estadunidenses mantêm uma masmorra medieval para presos políticos, que lá estão sem qualquer acusação formal, sem chance de verem seus advogados e, pasmem: Em Cuba!

Seria irônico senão fosse trágico.

Agora na Síria os Mujahidin e os Al-Qaeda estão sendo incentivados pelos EEUU a combater junto com os rebeldes sírios para derrubar o governo de Assad, antes aliado, agora inimigo.

Este mesmo pessoal, campeão da democracia e da liberdade de expressão, que urra pela blogueira cubana (que não está presa, e segue publicando)mas quer a cabeça de Assange do Wikileaks.

Quanto a mídia, vamos derrubar os seus clichês:

Pouco me importa se a "óia" escreve, e seus leitores leiam, que coco é bom para pele, ou que Lula come crianças no jantar.
Se a folha escreve que deus criou adão e eva, e alguns idiotas entendem que é verdade, tudo bem...isto não é problema meu.

Controle e regulação da mídia significa impor limites aos excessos, e nunca a liberdade, uma vez que nenhum grupo ou pessoa pode ficar acima do Estado e do interesse coletivo.

Controle social determina o que não pode e o que pode, por exemplo: Não pode vender drogas, não pode fazer aborto(salvo quando previsto em lei), não pode andar pelado, não pode matar.

Eu discordo em relação a uma série de temas, mas reconheço a legitimidade do Estado e o consenso político sobre estas condutas, e cumpro a lei.

Isto é que dá coesão a Democracia e o Estado de Direito.

Também não pode um diretor de jornalismo pedir a um criminoso mafioso para escutar um deputado para "produzir" uma matéria.

Não pode usar a verba pública de propaganda para concentrar poder e chantagear representantes eleitos pelo povo.

Enfim, não pode substituir a ditadura estatal por uma ditadura privada da mídia.

Engraçado que o comentarista falou, falou e sequer mencionou o caso inglês que deu conteúdo ao texto, e será por quê?

Ora, porque seus clichês cairiam por terra em ter que admitir que controle da mídia não é um estamento próprio de países de regimes fechados, como ele citou.

Estes países não permitem mídia alguma que não seja estatal.

Mas o que dizer da pátria do liberalismo? Será que há uma conspiração stalinista que abduziu os parlamentares, jornalistas e autoridades inglesas?

Todos os países "democráticos" há severos limites a concentração de propriedade, imposição de proteção aos canais públicos, pesados impostos para limitar a "importação" de conteúdo em detrimento da cultura local, etc.

É assim na França, Inglaterra, EEUU, Espanha, etc, etc, etc...