segunda-feira, 27 de agosto de 2012

Sua Excelência...

Em um município muito longe daqui, mas muito parecido com o nosso, no final da década de 80, no século XX, um pequeno prodígio da política, deste tipo de liderança carismática, natural e irresistível, intuiu, muito antes dos livros e teses de doutorado, que haveria a derrocada do ciclo econômico agroindustrial, que até então dominava a paisagem, com a consequente perda de densidade política dos representantes ligados a esta elite decadente.

Na sua previsão, baseado em seu "tato empírico", o pequeno prodígio enxergou no rádio uma ferramenta multiplicadora de sua popularidade, com a construção de uma enorme base social de apoio, que prescindia do hermetismo dos partidos e suas estruturas orgânicas, e fora do alcance do poder da sociedade civil organizada, ora enfraquecendo, ora aparelhando as entidades que se colocassem como obstáculo ao incipiente projeto de poder.

Lógico que esta trajetória não foi linear como esta narrativa pobre.

O menino prodígio ia e vinha, se adaptava com incomum mobilidade, revelando uma incrível disciplina para cumprir o seu "destino manifesto": Ser presidente do país.

Um incidente de proporções gigantescas deu novas cores a esta história. A cidade foi premiada com uma montanha de recursos, pagos como indenização a extração de um tipo de riqueza mineral.

Muito pouca coisa resistira a dinheiro e vontade! Muito pouca coisa resistiu, e o menino pegou um atalho, chegou a governar o Estado, bem longe daqui, mas muito parecido com o nosso, e se candidatou a presidente, com um resultado fabuloso para quem concorreu praticamente só, sem nenhum partido de peso como lastro, e separado por poucos anos entre o anonimato nacional e 15 milhões de votos.

Para combater a plêiade de inimigos que esta carreira meteórica, por óbvio, traria, o menino prodígio trouxe a família para perto, e elegeu sua esposa: governadora e prefeita, e sua filha, deputada. Já o irmão tombou pelo caminho, julgado e condenado por alta traição pelo menino.

Tudo que sobe, desce.

Assim, em determinado momento, o menino prodígio já não encantava tanto, e nem era mais menino. O tempo cobrava a fatura das escolhas erradas, dos caminhos tortos e do que ficara por fazer.

Eis que o menino teve outra genial ideia, e agora não mais por intuição. Ou pelo menos, não só por intuição.

Parlamentar eleito, ex-governador, com trânsito em círculos diversos, o menino-nem-tão-menino-nem-tão-prodígio, após ouvir conversas ali e aqui, resolveu dar a tacada de mestre, ou seu ultimato.

Com controle de tanto dinheiro do orçamento da cidade na qual "reinava" por 20 e poucos anos, o menino propôs a criação de um novo estado, que compreendia justamente a área que controlava, com alguns municípios satélites no entorno, que trazia alinhados pela atração assimétrica entre ricos e pobres.

No entanto, a legislação daquele país tão longe daqui, mas tão parecido com o nosso, impunha que todos os moradores do estado votassem no plebiscito de cisão do estado, o que por óbvio impediu a manobra.

Mas o menino-nem-tão-menino-nem-tão-prodígio não desistiu.

A "travessura" do menino alertou os ouvidos da Águia do Norte e seus embaixadores.

Opa, estava ali uma oportunidade única.

Depois da desfeita promovida por um procurador quixotesco, que insistia em "atrapalhar" os interesses de uma das sete irmãs (que agora eram quatro), a Águia começava a assuntar outras estratégias para redefinir o mapa energético do cone sul do planeta, onde jazia uma reserva ainda não dimensionada, e ao mesmo tempo, nas mãos de governos, senão hostis,  mas pouco inclinados a uma submissão automática,como em tempos pretéritos.

Os advogados já começavam a preparar a tese de que estas reservas não pertenciam ao país do menino, nem ao estado, e muito menos do município, mas sim a águas internacionais, onde boiava solene e soberana a 4ª Frota.

E não é que o tal menino poderia servir a um atalho? Sabedores dos seus delírios frustrados de poder presidencial ou monárquico(mas sempre absolutista), os embaixadores da Águia chamaram-no para uma conversa reservada, tão reservada que nem o Wikileaks vazou.

Pelo porto particular de uma magnata local, que por sua natureza privada permitia driblar a fiscalização, entrariam as armas.

A 4ª Frota e os marines no litoral, à postos, como em 1964.

Base aérea de um país vizinho ao sul, cujo presidente foi, recentemente, apeado do poder, como suporte logístico.

Uma aliança estratégica com outro estado separatista, que já tentara algo parecido em 1932, garantiria suprimentos de sua poderosa indústria, e a chance de se tornar também independente e reativar seu decadente parque industrial.

Pronto, o menino maluquinho declarou guerra a presidenta, e lançou-nos em sua última aventura, tentativa tresloucada de fazer o futuro se curvar ao seu desejo:

Vida longa ao presidente dos Emirados do Chuvisco, gritavam 22 fanáticos do Pelotão dos Rebeldes!


Nenhum comentário: