quarta-feira, 29 de agosto de 2012

O pulso ainda pulsa...

Lugar comum: O trânsito em nossa cidade está a beira do caos.

Sabemos que é preciso elaborar conceitos que vão além dos problemas de tráfego, mas que impliquem em tornar possível a mobilidade urbana, dando ênfase as pessoas, e não carros, ou cargas, embora estes sejam elementos importantes.

No entanto, em escala de prioridade, temos pessoas, veículos e bens.

Os estudiosos gostam de usar uma metáfora simples e eficaz para ilustrar nossos problemas neste quesito.

A cidade é um ente vivo, um corpo, e as ruas seriam suas artérias, que dia à dia entopem com o acúmulo de veículos.

Dizem que nossa cidade infartará.

Eu ouso discordar.

Não sou médico, nem urbanista, mas o fato é que nossa doença de mobilidade se instala aos poucos, e trará uma imobilidade permanente, ao contrário de um ataque fulminante.

Estamos condenados a sequelas irreversíveis, e o que é pior, o coração da cidade está cada vez mais fraco.

Nas cidades, o coração é o centro.

As praças seriam os pulmões, ferramentas de convívio público, vitais, gratuitas e universais, onde a convivência prescinde o consumo, oxigenando o corpo da cidade.

Nossa cidade se transforma a cada dia, e o coração vai dando lugar a próteses estéticas, que são os centros de consumo, os shoppings, belos, outros nem tanto, mas inúteis para a manutenção da "sanidade urbana", só possível com a troca intensa entre a diversidade de organismos vivos do corpo da cidade, ou seja, seus cidadãos.

Como arranjos "artificiais" no corpo da cidade, trazem múltiplos "efeitos colaterais".

E assim vai a nossa cidade: Obesa tentando cirurgia plástica para correção de suas imperfeições.

Qualquer gestor público com o mínimo de bom senso saberia, ou desejaria saber planejar e debater com os munícipes as possibilidades e alternativas para um futuro onde a sobrevida da cidade não fosse "vegetativo".

Mas na verdade, estes gestores não se portam como "vacinas" para o corpo da cidade, e sim como parasitas que sugam toda sua vida!


O Pulso

Titãs

O pulso ainda pulsa
O pulso ainda pulsa
Peste bubônica, câncer, pneumonia
Raiva, rubéola, tuberculose, anemia
Rancor, cisticircose, caxumba, difteria
Encefalite, faringite, gripe, leucemia
O pulso ainda pulsa (pulsa)
O pulso ainda pulsa (pulsa)

Hepatite, escarlatina, estupidez, paralisia
Toxoplasmose, sarampo, esquizofrenia
Úlcera, trombose, coqueluche, hipocondria
Sífilis, ciúmes, asma, cleptomania
E o corpo ainda é pouco
E o corpo ainda é pouco
Assim...

Reumatismo, raquitismo, cistite, disritmia
Hérnia, pediculose, tétano, hipocrisia
Brucelose, febre tifóide, arteriosclerose, miopia
Catapora, culpa, cárie, câimbra, lepra, afasia
O pulso ainda pulsa
O corpo ainda é pouco
Ainda pulsa
Ainda é pouco
Pouco, pouco
Pulso, pulso
Assim...


http://www.vagalume.com.br/titas/o-pulso.html#ixzz24zTFZxiC

4 comentários:

Anônimo disse...

Você escreve maravilhosamente bem! Parabéns! Bom saber que o pulso ainda pulsa, e que em meio a tantos blogs sem nexo, existe um que fale dos problemas do dia a dia de forma poética!

antônio disse...

A sua postagem ilustra bem apenas um dos pontos das mazelas de nosso transito, ou seja, a inação do poder público. E isso pode ser simbolizado pela cada dia mais caótica região do "contorno", exatamente ali onde fica o Recanto das Palmeiras, o hipermercado superbom e o shopping boulevard, alem da previsão de construção de um hotel. Todos eles às margens da Br 101 e o poder público se mantém inerte ( não há passarelas, rotatórias, opções da saida e retorno etcc), ou seja, caos no trânsito ( pior a cada dia) e insegurança para os pedestres.
Mas além da desídia dos gestores a nossa cidade ainda vive uma " crise de coletividade" onde há muito tempo regras não são respeitadas e o mau exemplo vem de cima ( e aí estão todos no mesmo pacote: pedestres, ciclistas, motociclistas, motoristas etc).
A cereja do bolo fica por conta da inoperante guarda municipal ( sempre ausente nos momentos de picos)
abraços

douglas da mata disse...

Antonio, sua observação tem sentido.

Mas veja:

Quem determina o senso de "coletividade" em um ambiente conflagrado como o trânsito, dentre tantas outras zonas de conflito urbanas, é justamente o poder público.

Esta história de "educar" o trânsito é pura balela.

Você educa criança, mas pune os homens.

O não respeito as regras é sintoma de sensação de impunidade, que por sua vez, consagra-se na ausência do Estado, como você bem disse.

Lógico que o desgaste do nosso tecido social e nossa noção de convivência é ingrediente nesta mistura, pautada pela prevalência do privado sobre o público.

Um abraço.

George AFG disse...

Um dia isso vai demandar um choque de ordem, e como sempre vai dar m****... O problema é o quanto vai demorar pra aparecer alguém disposto a arcar com impopularidade de tal medida, o q deve ocorrer só quando a situação estiver INSUSTENTÁVEL.