sexta-feira, 31 de agosto de 2012

A autofagia do Euro.

A única possibilidade de superar a crise já foi traçada na Europa, e é ortodoxa.

Suas chances de sucesso estão diretamente ligadas ao tamanho do sofrimento dos povos das nações envolvidas.

A própria História recente da Humanidade nos ensina que não se deve submeter a Democracia ao jugo do mercado, enfraquecendo-a como ferramenta de soluções de problemas, principalmente em um continente que já ofereceu ao mundo, no século XX, os dois conflitos sangrentos, onde 100 milhões de pessoas morreram, aproximadamente.

Esta lição parece esquecida, e as elites financeiras multinacionais, através dos bancos e outras instituições, insistem em  desperdiçar esta geração de pessoas, destruindo-lhes qualquer possibilidade de futuro plausível, jogando-as em um vácuo de incerteza e frustração.

Não são bons sentimentos para serem fermentados em um ambiente marcado por ódios seculares, étnicos, religiosos e de natureza econômica, sem mencionar as cicatrizes das guerras passadas.

Quem lê os jornais da região não acredita que os governos nacionais curvem-se a vontade do mercado, neste momento representado pelo "rigor fiscal" defendido pela Alemanha, e transfiram o pouco que resta de renda da maioria da população a banca rentista, sob forma de corte de benefícios e salários, investimentos sociais e aumento de impostos, enquanto tenta parar a hemorragia especulativa de capitais com um band-aid.

Esta talvez seja a pior verdade: Todo mundo a vê, mas não acredita que ela aconteça.

O El Pais anuncia que neste semestre, o volume de recursos que "fugiu" da Espanha, não sem antes engordar no fast-food do juro de curtíssimo prazo, chegou a pouco mais de 219 bilhões de euros.

Na outra ponta, a bordo do tarifaço, até uniformes e materiais escolares foram incluídos para alimentar o voraz apetites dos credores dos espanhóis.

Só nos resta aguardar, e torcer, pois, como dissemos, a mistura não é boa.

8 comentários:

Anônimo disse...


Você diz que não se deve submeter a democracia ao jugo do mercado, como a Europa fez. Pergunto, então, a quê deve ser submetida, visto que não há casos de democracia não-capitalista de sucesso.

Deve ser submetida ao jugo comunista? Ao do extremismo religioso? Aos caprichos dos caudilhos latinos que querem se perpetuar no poder?

Não se preocupe por eles: viver numa crise européia e bem melhor do que numa prosperidade sul-americana (pelo menos, para a grande maioria do povo).

douglas da mata disse...

Caro comentarista,

A democracia é o instrumento pelo qual a população, aí entendidos os indivíduos e grupos, decidem seus conflitos dentro de regras, garantindo o poder a maioria, desde que as minorias estejam representadas e mantenham sua capacidade de reunirem forças e alternarem sua posição.

Toda vez que um grupo ou indivíduo acumula condições para desequilibrar estruturalmente esta relação de forças, impedindo a dinâmica da sociedade, condenando uns a pobreza e um ínfima minoria a estrondosa riqueza, podemos dizer que a ideia de Democracia deixa de fazer sentido, principalmente porque a maioria que está sofrendo deixa de acreditar nela como possibilidade de superar este estágio.

Todos os exemplos de democracia capitalista de sucesso, nas quais nos inspiramos por "osmose cultural", têm no rígido controle ao "mercado", que na verdade é só um eufemismo ideológico para esconder as oligarquias financistas internacionais, sua base de sucesso.

Foi assim nos EEUU pós 29, Europa pós II Guerra, é assim na Noruega, etc.

Todas as vezes que o mundo experimentou uma desregulamentação desenfreada, representada na movimentação frenética de capitais, derretendo as soberanias nacionais, a Humanidade padeceu em guerras.

Estranho mencionar os "caudilhos latinos"...eu fico a pensar: Será a Tatcher (Margarete) uma caudilha inglesa, que ficou quase 20 anos no poder?
Ou Miterrand, depois Jacques Chirac e Helmut Kohl, longevos líderes que experimentaram bem mais que os nossos oito anos de mandatos possíveis?

É verdade que eles (europeus e estadunidenses) detêm certa maturidade institucional, mas fica a dúvida, se o tema é "perpetuação" no poder, faz diferença a língua que você fala?

Para quem acha a miséria da Europa e 20% de taxa de desemprego melhores que a prosperidade sulamericana, deve ser.

Bom, a não ser que vá viver lá com ajuda do governo, justamente uma das últimas fronteiras do estado de bem estar social ainda de pé, e que não foi destruída pelo assédio do "mercado" aos regimes democráticos.


De todo modo, boa viagem.

Anônimo disse...

Margaret Thatcher ficou 11 anos no poder, quase metade do que você informa.

De todas formas, é o sistema parlamentarista que permite ao mandatário continuar no poder, o mesmo que o pode retirar a qualquer momento, por estar subordinado ao voto de confiança dos legisladores.

Curiosamente, em nossas terras, os líderes não aceitam esse sistema de governo. Aqui, nas pseudo monarquias presidencialistas, a relação é inversa: o parlamento se subordina ao mandatário.

É interessante observar como isso é defendido por aqueles que sempre disseram lutar pela democracia. A concentração de poder é boa, se atende os 'nossos ideais'.

Por outro lado, como você sabe, mas omite, nos Estados Unidos só há uma reeleição. E o ex-presidente não pode voltar à presidência nunca mais.

Europa conquistou, na última metade do sec. xx, um nível de qualidade de vida para sua população que nunca, na história da humanidade, nenhum outro povo teve.

É isso se atingiu com o mercado. Dominando e subordinando ele aos interesses da sociedade, mas não eliminando-o como pretendem os ilusos, que vem anunciando o fim do capitalismo há 150 anos, sem sucesso.

Quando os européios venham pedir vistos para morar em Venezuela, Equador ou Cuba, buscando melhores condições de vida, aí poderá tentar me convencer de que um fantasma recorre Europa.

George AFG disse...

Teoria do Pêndulo em plena aplicação, as crises do petróleo dos anos 90 parecem ter feito o mundo esquecer dos males de se dar liberdade TOTAL ao mercado aprendidos em 29... O resultado tá aí, alguém vai ter que ser sacrificado pros europeus saírem da crise...

douglas da mata disse...

Bingo!Embora não tenha percebido, mas de fato, trouxe-me a solução:


É isto, são escolhas: O sistema parlamentarista permite a perpetuação do poder, ou retirada imediata.

Ué, mas se permite a perpetuação, ela(a perpetuação) não muda de natureza e deixa de ser continuísmo e concentração de poder apenas porque o sistema é diferente.

É verdade que temos uma tradição histórica de submissão do parlamento ao executivo, mas isto não é só uma aversão do mandatário em "dividir" poder(embora esta variável esteja presente), o nosso caldo de cultura política de hiperbolização do executivo é fruto das escolhas autoritárias de grupos de elite que excluíram a democracia quando esta lhes deixou de ser conveniente, e por coincidência, ou não, sempre para agradar os que detêm o poder financeiro.

Lá, na Europa e EEUU, eles têm outro problema: seus sistemas tendem a bipolarização entre duas legendas, que de forma alguma pode ser considerado uma ampliação da democracia.

Nos EEUU por causas distintas, óbvio.

Dentro de nossas possibilidades e limitações, temos um amplo espectro partidário, com pequenas "legendas secundárias"(que alguns, de forma simplista chamam de "aluguel"), mas que nos permitem ter algo como um "presidencialismo de coalisão".

Eu não defendo a concentração de poder, e se fores honesto intelectualmente, o que parece não ser, conseguirá ler outro texto postado aqui, no qual falo do perigo da idiotização da oposição, e sua conversão em um gueto ultra-radical.

As conquistas europeias e estadunidenses são fruto do período de estado de bem estar social, e qualquer um pode ver isto: Está na História.

A total desregulamentação só trouxe prosperidade e riqueza para grupos pequenos, com prejuízo social enorme.

Ao que parece, você entendeu: Submeter o mercado à sociedade e não o contrário.

A questão é determinar o limite e o alcance deste controle, mas uma coisa é certa: Com ação política, no campo político, e não com fatalismo economicista.

Senão, uns poucos sempre ganham,e todos sempre perdem.

Foi assim em 1929, 1987, 1998/99 e 2003 e agora.

Crises cíclicas estruturais baseadas na ideia falsa de que o mercado pode se auto-regular.

Nem vou mencionar o efeito destas teses loucas sobre a política: redução de liberdades, aumento da xenofobia, guerras, empobrecimento em massa, etc.

Quanto a questão dos vistos, é só ver o fluxo de imigração para o Brasil, recentemente.

E para não dizer que é só ufanismo, não custa lembrar que a repercussão desta "nova onda" foi do PIG, e não dos blogs ou outros simpatizantes.

douglas da mata disse...

PS: Eu não sabia, portanto, não omiti, que os presidentes nos EEUU só podem ser eleitos por dois mandatos consecutivos, ao que ficam inelegíveis permanentemente.

Portanto, é bom cuidado ao julgar o discurso alheio.

De todo modo, é bom lembrar que F.D Roosevelt ficou de 1933 a 1945.

Anônimo disse...

Desculpe. Pensei que uma pessoa informada como você soubesse da restrição presidencial americana. Mas considerando que também não sabia o tempo que Margareth Thatcher esteve no poder, devo reconhecer que foi um erro de avaliação por minha parte.

Por outro lado, me acusa de deshonestiade no debate. Como chamaria a falta de esportividade de apenas publicar um comentário quando se tem pronta a tréplica, e não antes?

Sobre o mérito: o que resta de toda sua análise das crises do capitalismo é que o mercado é voraz, quando descontrolado. Concordo. Mas pretender demostrar, até com fruição, que por isso o sistema ocidental é falho e decadente, é de uma arrogância tola.

É o mesmo que dizer que a Democracia está obsoleta, diante dos escândalos políticos.

Afinal, não se esqueça que as 'grandes reformas' que o governo petista está implementando no Brasil não vão em sentido contrário ao do capitalismo. Muito pelo contrário: vamos no caminho a nos transformar naquilo que a Europa foi até pouco tempo. No melhor dos casos.

douglas da mata disse...

Ué, o mesmo raciocínio sobre as réplicas deveriam ser aplicados ao lapso de tempo entre os meus comentários e suas respostas, pois veja: 02/09 e 04/09 para este último.

Mas isto é de uma besteira infantil.

Respondo quando tenho disponibilidade. E acredite ou não, tenho trabalhado bastante, inclusive esta foi uma das razões para a hibernação do blog, recentemente.

No entanto, isto não é problema seu.

Entendo que se o ritmo das liberações não lhe convém, abstenha-se de comentar, e pronto.

Porém, se escolhe debater, aceite as regras e o tempo do editor do blog.

Ainda assim, mesmo que seu argumento fosse válido, nada haveria de "desonesto" em me preparar para o debate, seria até uma demonstração de respeito ao interlocutor.

Pressa é inimiga da perfeição, e este é um dos pontos fracos da blogosfera, a instantaneidade, que às vezes, interdita o debate.

Quando me referi a desonestidade intelectual foi sua tentativa de colocar em meu texto um significado que não dei, pois veja o trecho ao qual me refiro a sua desonestidade intelectual:

"(...)Eu não defendo a concentração de poder, e se fores honesto intelectualmente, o que parece não ser, conseguirá ler outro texto postado aqui, no qual falo do perigo da idiotização da oposição, e sua conversão em um gueto ultra-radical.(...)"

Outro ponto:

Desculpe te decepcionar quanto aos meus conhecimentos de prazos e datas, pois aprendi com meus professores de História a raciocinar e contextualizar os fatos, dando menor importância a datas e aspectos quantitativos.

Todavia, veja que a ideia permanece intacta: O bipartidarismo republicano dos EEUU ou o parlamentarismo republicano ou monárquico europeu não resolveram o problema da concentração de poder, que aqui, na AL, materializa-se de outras formas, mas que, grosso modo, representam um assédio do capital financeiro sob as formas representativas.

A quantidade de anos no poder, ou a possibilidade de reeleição é secundária, porque só o ingênuos creem que os nomes suplantam os movimento políticos e ideológicos que eles representam na disputam pela hegemonia de controle do Estado.

Enfim, a comparação entre Democracia e capitalismo é pueril.

Confundir estes conceitos nem merece tréplica.

Mas de todo modo vale lembrar que a percepção filosófica ou a busca por Democracia é anterior, e creio eu(veja bem, esta é minha crença)suplantará o sistema capitalista.

Acreditar que o capitalismo é eterno frente ao que nos apresenta a História põe por terra qualquer possibilidade de disputa intelectual.

Desculpe, sou muito burro para aceitar o "fim da história" ou que o capitalismo é a última etapa de nossa evolução.

Um abraço.