domingo, 12 de fevereiro de 2012

Cadê as conversas do governador?


12 de fevereiro de 2012 às 1:46

Deputada quer ouvir conversas de Cabral com a Delta, a Odebrecht e a Nissan

Discurso de resposta da deputada estadual Janira Rocha (PSOL-RJ), que corre o risco de ser cassada  pela Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro por incitar greve de policiais militares e bombeiros

Eu gostaria de dar alguns esclarecimentos e colocar minha posição acerca da questão das escutas telefônicas, ou seja, a novelinha mexicana que foi montada pela Rede Globo e pelo governador Sergio Cabral em horário nobre para criminalizar não só a minha atuação parlamentar, mexer nas minhas garantias constitucionais como parlamentar, mas também no meu direito de cidadã e, mais do que isso, na tentativa de, com esse grande engodo, criminalizar também o movimento dos trabalhadores da segurança pública, o movimento dos policiais militares, o movimento dos bombeiros, que foi um movimento que desde o seu primeiro momento eu apoiei e quero declarar que vou continuar apoiando.
Primeiro, que o cabo Daciolo, esse que está preso lá em Bangu 1, junto com uma série de marginais, que foi preso de forma ilegal, que foi preso de forma truculenta, estava na Bahia a convite de um juiz da auditoria militar federal, dr. Barroso Filho, que é um juiz de Brasília, que esteve em contato com o cabo Daciolo e que o convidou a ir a Salvador, no sentido de fazer a ponte entre os demais trabalhadores da segurança pública que se encontravam na assembleia legislativa e dirigentes de outros sindicatos pra tentar, a partir desse contato, construir uma proposta que pudesse superar o impasse.
Houve a ida do cabo Daciolo, aconteceram várias reuniões do cabo e o juiz com figuras do governo lá, segundo informações, mas não se chegou a um acordo. E o cabo Daciolo me ligou dizendo, deputada, aqui foi apresentada… estão sendo ventiladas propostas, que são propostas que não resolvem a questão porque não garantem a anistia. Eles ventilam a possibilidade de um pagamento da gratificação que está sendo reivindicada a partir de novembro, com pagamento final até 2015, mas não aceitam em hipótese nenhuma anistia para os trabalhadores da polícia militar e em relação ao outro dirigente que era demitido, que foi demitido durante o processo de luta também, eles colocaram que por ser demitido, por não ser mais militar, era crime comum, polícia, delegacia e não teria saída. E ele [Daciolo] me consultou, o que é que a senhora acha? Coloquei para ele, repito aqui, repito em qualquer outro lugar, porque eu não tenho esse tipo de… eu não vou em função da pressão de alguns, da grande pressão que está sendo exercida, eu não vou aqui abandonar os meus princípios ou mentir ou me acovardar.
Eu disse a ele que eu achava que a melhor maneira dele ajudar a greve na Bahia, a fortalecer a greve na Bahia e a correlação de forças que existia lá, era ele voltar ao estado do Rio de Janeiro e organizar a categoria dele aqui, porque se a segurança pública no Brasil inteiro estivesse organizada, eles poderiam ter uma correlação de forças melhor para fazer uma negociação e garantir a anistia.
Foi exatamente isso o que eu disse, eu nao disse nada diferente do que eu venho dizendo nessa tribuna há vários dias, eu não disse nada diferente do que está escrito no site, num documento que eu construi e tá no site do meu mandato. Eu não disse nada diferente do que está nas redes sociais a partir do meu mandato.
Eu disse e reafirmo, eu sou oriunda do movimento social, eu sou uma trabalhadora, eu tenho 32 anos de militância política, eu faço parte de um setor social, aqui dentro dessa casa tem companheiros que representam, tem deputados que representam pescadores, tem deputados que representam banqueiros, tem deputados que representam a Delta, tem outros que representam a Odebrecht, a Barcas SA.
Eu represento as lutas soiciais que vem a essa casa, pedir a intermediação dessa casa para resolver suas demandas. É esse o meu lado, é dessa maneira que eu ajo, eu não preciso aqui ficar me explicando no sentido de que não, não falei. Falei, sim.
Eu quero dizer mais, hoje às dezoito horas vai haver uma assembleia dos trabalhadores da segurança pública na Cinelândia e eu estarei lá. Eu estarei nessa reunião da Cinelândia. Eu não vou deixar de estar lá e deixar de apoiar a luta daqueles trabalhadores. Se eles me perguntarem qual minha opinião acerca do movimento, eu vou dar minha opinião acerca do movimento, mas quero deixar bem claro que quem decide os rumos do movimento são os trabalhadores nas suas assembleias, eu não tenho direito a voto numa assembleia da segurança pública. Agora, é óbvio, to ali junto, vou apoiar até o fim, não vou me deixar pressionar, não vou negar as lideranças do movimento, não vou negar o movimento.
Durante várias intervenções que eu fiz aqui nesse plenário ao longo dessas últimas duas semanas, me posicionei radicalmente contra qualquer tipo de ação política nessa greve que pudesse macular a população, coloquei ser contra uma greve armada, é só pegar o que foi gravado aqui nessa casa, todos os meus depoimentos nessa tribuna são gravados.
É só pegar o que eu disse em relação à necessidade de se garantir um efetivo de 30 por cento, a necessidade de não ter armas, a necessidade de se dialogar com a população. Eu estive junto do movimento dos bombeiros desde o primeiro momento, desde o primeiro momento, eu estava dentro do quartel central dos bombeiros, quem não sabe fique sabendo, eu estava lá dentro do quartel central dos bombeiros quando ele foi invadido pelo Bope atirando em crianças e mulheres que estavam lá dentro.
Eu acompanho o movimento dos bombeiros e nem por isso o movimento dos bombeiros aqui no Rio de Janeiro radicalizou. Existiam várias propostas de radicalização do movimento, que eles deixassem cadáveres na rua, que eles parassem de trabalhar na usina de Angra, que eles parassem os aeroportos. Eu já fui dentro de aeroporto fazer assembleia com bombeiro para dizer a eles que era errado fazer a paralisação do trabalho nos aeroportos porque isso ia colocar a população contra eles. Eu já conversei com trabalhadores bombeiros de dentro de usinas nucleares, dizendo que eles não podiam fazer isso porque isso afetaria  a segurança da população local. Isso tá gravado aqui.
Se existir honestidade intelectual, se existir honestidade de propósito nas pessoas, elas vão ver que isso tá colocado aqui. Quero dizer que não me intimido, que não me intimido, não adianta ameaça de cassação de mandato, eu não estou presa ao mandato, eu não estou aqui para ficar presa ao mandato, a salário de mandato, a benefícios de mandato, a benesses de mandato.
Eu tenho um mandato para representar a classe social que eu escolhi para representar. Eu tenho mandato para representar trabalhadores, para representar aqueles que lá fora e aqui dentro não tem uma representação objetiva, e eu vou ficar muito orgulhosa de mim mesma se por acaso eu for cassada, se meu mandato for cassado, porque eu estava na luta com os policiais militares, com os bombeiros, com os trabalhadores da saúde, com os profissionais da educação, com os operários do Comperj, que foram várias lutas que eu fiz, várias lutas das quais, enquanto parlamentar, eu participei.
Quero dizer a vocês que se eu deixar de ser parlamentar por essa causa, essa é uma boa causa. Essa é uma boa causa, eu não posso deixar de ser parlamentar porque roubei o erário público, eu não posso deixar de ser porque sou uma corrupta, eu não posso deixar de ser parlamentar porque tenho relações escusas com empresas que prestam serviço para o estado.
Eu quero saber… aí ninguém pergunta, todo mundo defende a lei… eu vi aqui unicamente o deputado Paulo Ramos levantando essa questão… meu gabinete já mandou ao presidente da Casa e à Polícia Federal, nós queremos saber qual é essa história da gravação, da escuta telefônica. Mudou a lei agora? Pode gravar deputado? Pode gravar qualquer um agora? Se for deputado da oposição, ele pode ser gravado? Quer estado democrático de direito, mas só vale quando é para eles? Se é para a oposição que tem uma posição política diferenciada, não vale? Eu quero saber. E quero dizer mais. Eu coloco o sigilo telefônico aqui agora à disposição de quem quiser. Tudo o que eu disse para todos os bombeiros, para todos os policiais militares, para todos os trabalhadores através do meu telefone está disponibilizado para a imprensa. Eu quero saber se o governador Sergio Cabral faz o mesmo, eu quero saber se o governador Sergio Cabral vai dar o telefone dele, as ligações que faz com a Delta, que ele faz com a Odebrecht, que ele faz com as grandes empresas, com a Nissan, para a qual ele acabou de dar 6 bilhões de dólares, agora. Pode dar 6 bilhões de dólares para a Nissan mas não pode dar dinheiro para pagar os trabalhadores da segurança pública.
Eu disse e a imprensa já tá colocando, que eu honro as saias que eu visto, e é verdade, eu honro as saias que eu visto porque sei de onde eu vim, eu sei qual que é o meu passado, eu sei de onde eu vim, eu sou uma mulher trabalhadora, eu sou uma mulher que veio do subúrbio, aqui do Rio de Janeiro Eu sou uma mulher que sofreu, que a sua família sofreu durante a ditadura militar. Eu sou uma mulher que já fiz muita luta, muita greve, muita mobilização. Eu já fui colocada na lei de segurança nacional, eu já fui presa várias vezes pela minha atuação política e nao vai ser essa pressão, que está estabelecida nessa novelinha mexicana, que vai fazer eu recuar da defesa dos trabalhadores da segurança pública.
Quero dizer ao governador Sergio Cabral que se eu fosse governadora desse estado os trabalhadores da segurança pública não chegariam ao local que chegaram debaixo do seu governo. Quero dizer à população desse estado que a responsabilidade de uma eventual greve na segurança pública não é culpa do trabalhador que tá passando fome, não é culpa do trabalhador que tem que fugir dos bandidos que tão caçando policial militar fora do seu horário de trabalho, a culpa disso tudo é de quem não pensa numa política de segurança de estado, mas pensa numa segurança pública de governo, pra criar factoides como as UPPs [Unidade de Polícia Pacificadora] para poder garantir o apoio do povo na eleição de seus candidatos, na eleição de seus sucessores. Eu não vim aqui para fazer demagogia eleitoral, eu não vim aqui para ficar falando pras pessoas o que elas querem ouvir. Eu vim aqui para defender os interesses daqueles que eu acho que eu tenho de representar aqui nessa casa.
E quero dizer: se cair o meu mandato, caio com orgulho. Agradeço a solidariedade de vários parlamentares aqui nessa casa. Vários parlamentares aqui da base do governo, da oposição vieram conversar comigo, me apoiar, me dar uma força. Eu agradeço a esses companheiros, mas não tenho medo de perder o mandato. Vou ficar orgulhosa se perder o mandato, porque eu sei que não participei de nada escuso, de nada que eu vá sair daqui e não possa olhar para a cara do meu filho. Eu tenho certeza que posso chegar hoje à noite na minha casa, olhar na cara do meu filho, e dizer para ele que a mãe dele, que entrou nessa casa aqui como parlamentar vindo de baixo, continua a mesma, não se vendeu e continua honrando suas saias e continua tendo lado e esse lado é o dos trabalhadores.
PS do Viomundo: Há várias questões por esclarecer. Antes de mais nada, se a deputada for de fato julgada pelos pares na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro, será preciso apresentar as degravações completas das conversas telefônicas. E esclarecer, antes: elas foram de fato feitas com autorização judicial? Qual o nome do juiz que as autorizou? As gravações se destinavam a investigar um ilícito ou foram feitas com o objetivo político de constranger? Qual foi o crime motivador das gravações? Quem providenciou o vazamento das gravações? É legal retirar de uma investigação as gravações de conversas telefônicas e divulgá-las?
Há na investigação que incluiu os grampos de políticos — os deputados federais Garotinho e Arnaldo Faria de Sá também foram gravados — algo que poderia incriminá-los e à deputada Janira? Ou foi uma jogada política para constranger os mandatos usando o Jornal Nacional?
Dar tiros para cima durante greve é crime. Tocar terror na população para obter vantagens salariais é crime. Colocar mulheres e crianças na linha de frente, nem o PCC faz. Mas é sempre bom lembrar, para não repetir, os métodos que o regime militar usou contra o sindicalista Lula, no tempo em que a Justiça considerava ilegais as greves lideradas por ele.

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