terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Rita Lee, Planet Hemp, Racionais MCs, Funk e outros: Como sempre nossa mídia tem dois pesos e duas medidas!

O episódio com a cantora Rita Lee em Aracaju foi digno da atual fase da cantora: Um desastre.

Não deixa de ser digno de aplausos que a artista tenha desistido dos palcos. Já deu.

E quem fala isso é um ardoroso fã dos Mutantes, da Rita Lee, e de tudo que sempre representaram como símbolos de rebeldia e criatividade musical.

Falo também como fã decepcionado, que esteve no show dela em São João da Barra, em 2010, no Balneário, uma completa frustração, que hoje soa como premonição da decadência, e pior, associado a um discurso neoudenista de fazer corar Jânio Quadros.
Só falta a cantora renunciar aos palcos por estar à espera de "voltar nos braços do povo", em um golpe publicitário.
Vai ver a polícia são as "terríveis forças" do mal.

É verdade. Há muito preconceito, e justificado, diga-se, em relação a ação policial.
Mas é bom lembrar, primeiro e antes de tudo, que a polícia reflete o senso da sociedade.
Logo, nunca é demais falar que sociedade repressora e violenta, polícia idem.
Muito do ranço policial se reflete na defesa da propriedade, como no Pinheirinho, no V Distrito de SJB, ou na questão dos costumes, como no caso a repressão aos usuários e pequenos traficantes, como foi o caso da cracolândia em SP.
No entanto, salvo os setores da esquerda de sempre, mídia blogueira, e alguns poucos jornalistas, não se ouviu nenhuma reclamação contra truculência policial

Esse blogueiro é pelo fim da criminalização das drogas, e que se faça um amplo debate sobre a possibilidade de controle e venda de algumas drogas, ou na sanitarização do problema, em vez do viés policial.

Mas enquanto a sociedade não amadurecer, não podemos deixar de considerar alguns problemas nessa questão em Aracaju:

Se não agissem, os policiais cometeriam um crime, ou seja, prevaricação. Se havia pessoas consumindo drogas proibidas em público, manda a Lei que sejam levadas a Autoridade Policial para registro dos fatos e lavratura de termo circunstanciado, bem como apreendido o material que for arrecadado.

Ainda que Rita Lee tenha direito de falar o que quer, ninguém pode usar esse direito para atacar a ação legal da polícia, com palavras de baixo calão, em flagrante desacato, insuflando, perigosa e irresponsavelmente, a multidão contra os policiais.

Não é demais lembrar que se no lugar da Rita Lee estivessem alguns funkeiros em bailes na favela, ou outros artistas estigmatizados, como rappers, o "pau cantaria solto", sob silêncio omisso e contente ou editoriais inflamados reivindicando o banimento ou na expulsão de tais gêneros e artistas do solo pátrio, aliás, como já fizeram.

Por que, qual é mesmo a diferença da Rita Lee chamando PM de filhos da puta e desafiando-os a "porrada", para um funk ou rap qualquer?

Ahhh, deve ser a estirpe, o "emblema", a "origem".

Não é surpresa que cretinos como Zeca Camargo e outros "colonistas locais" se levantem e se apressem para defender a senil senhora, com requintes de preconceito explícito ao dizer que os policiais a reprimiram porque ignoravam de quem se tratava, como se biografia fosse "bill" de impunidade.

É justamente passível de aplauso a ação policial por essa "ignorância", ou seja, não interessa saber "quem" mas o "quê" está fazendo.

Esse pessoal é que dá voz ao "sabe com quem está falando ?", desde que não sejam eles que estejam do outro lado da pergunta.


8 comentários:

Fc Con Lancerotti disse...

Desde a primeira vez em que você se referiu ao show dela em SJB discordei. Questão de gosto. E se ficasse naquele discurso, questão de opção política. Problema dela. Quanto ao mais, realmente ridículo da parte dela, vindo de quem condena, por exemplo, os rodeios (e não sou favorável a eles), e de quem a defende. Dura lex sed lex. Omnibus est. É o que queremos sempre, mesmo sabendo que nem sempre agimos conforme ela manda. Se rolar com a gente, só resta aceitar.

Anônimo disse...

Nossos cantores e alguns intelectuais têm a mania de desprezar e humilhar policiais publicamente.
Além da enorme falta de respeito, eles se esquecem que não conseguiriam viver sem polícia.
Os bandidos entrariam em suas casas e lhes tirariam tudo o que eles têm, talvez lhes tirassem até a vida.
Da polícia todos gostam de reclamar, mas quando ocorre qualquer probleminha, ligam imediatamente aí ficam respeitadores, mas só até deixarem de depender.

douglas da mata disse...

Lancerotti,

Estás correto. Minhas impressões sobre o show e sobre a posição política delas são pessoais.

Ela tem o direito de ser incoerente, claro, e eu de me decepcionar com ela, tanto artística quanto politicamente, pois não acredito em "arte neutra", ou em quem diz falar "acima da política e contra a corrupção", como se não fôssemos nós mesmos que elegemos os representantes que amamos linchar publicamente.

A "biografia" dela autoriza minha decepção, ou vai ver, sou mais um "ingênuo", rsrs....

Ninguém imagina que cumpriremos a Lei todo o tempo, mas é bom que se tenha dignidade para enfrentar as conseqüências de nossas escolhas.

Um abraço, e grato a ambos os comentaristas.

antônio disse...

Douglas, a conduta omissiva dos policiais, ao não reprimir o uso de entorpecentes, não seria o próprio crime na forma omissiva??

Também comungo o mesmo entendimento que o seu. Sempre fui um fã da Ria Lee... um dos meus últimos momentos da era cassete foi justamente uma fitinha de um show acústico da década de 90.. irretocável. Quem não se lembra daquela obra??
De uns anos pra cá e, principalmente com o advento das redes sociais, é uma abobrinha atrás da outra.
Mas é isso, como vc bem falou, todo mundo tem o direito de ser como quiser, desde que assuma as consequencias.

abraços

douglas da mata disse...

Caro Antonio,

Bem sabes que sou um leigo em matéria jurídica.

Fica assim minha opinião baseada em alguma experiência:

No caso do agente garantidor(o policial) a omissão em reprimir crimes está prevista em tipo específico(prevaricação ou condescendência criminosa), bem como nos outros casos onde a conduta omissiva(a não-conduta) já prevê punição para todos(inclusive os não garantidores), como é o caso da omissão de socorro da Lei 9503, por exemplo.

A prática(conduta)dos crimes relacionados ao uso e tráfico de drogas têm ações específicas(verbos nucleares) , e ali não se fala em omissão, e como a lei veda a analogia ou interpretação extensiva para punir penalmente.

Mesmo na associação para o tráfico, única possibilidade de aproximar da sua tese, ficaria um certo exagero, na medida que o dolo do agente policial seria "fazer vista grossa" para permitir o uso, pois o tráfico já ocorreu(e se consumou) quando alguém vendeu e o outro comprou.

Mas repito, essa é um opinião de leigo.

Um abraço, e grato pela participação.

antônio disse...

Ótima explicação, convincente.
Não tem nada de leigo

forte abraço

Gustavo Landim Soffiati disse...

Douglas,

Lancerotti sou eu. Pelo que entendi, o comentário acabou sendo feito em nome dele porque postei usando, sem querer, algum caminho teen de minha enteada. Quando percebi, entendendo que não poderia apagar o comentário, depois de postá-lo, deixei-o ir assim mesmo, para corrigir posteriormente, como agora.

douglas da mata disse...

Valeu Gustavo.

Então, já que você é "de casa", vamos retornar só um pouquinho a polêmica.

Quando mencionei minha frustração com o discurso político dela no Balneário, não se trata de intolerância.

Mas se ela usa o palco como plataforma para discursar, sendo o palco o local de expressão de seu ethos público, ela não pode querer dissociar a crítica a este discurso do que ela simboliza politicamente "no palco", ou seja, com sua história artística.

Em suma, o conservadorismo udenista dela me chocou(embora eu já devesse supor isso pela origem "paulistana classe média)porque ela sempre gostou de se arvorar como transgressora e libertária, mas o discurso soou como autoritário e anti-política, o que é a maior "caretice".

Com outras palavras, é mais ou menos como ouvir Chico Buarque fazer apologia da tortura, ou da violência policial. Não dá.

Eu não pretendo enquadrar e partidariza a arte, mas quem quer fazer política no palco, sujeita-se a classificações, até porque, esse negócio de "opinião pura e simples" não existe, e sabemos disso.

No fundo, aquela ocasião foi o sepultamento do tropicalismo, junto com as várias asneiras ditas por caetano, versão de manifestação cultural autoritária, pois se imaginava "acima de tudo", porque simbolizava a experimentação máxima e sem controle, mas que com raras exceções(Wali Salomão, Tom Zé, talvez, dentre outros poucos)traziam em sua gênese ranço elitista que posa de vanguarda, mas que só que chocar um pouco, para arrumar um jeitinho de chegar na frente para se acomodar nos "melhores lugares".

Um abraço.