segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

O bobo autruísta e o jornal.


Diz a lenda que em um reino bem distante daqui havia um bobo da corte. Como sabemos, bobos da corte são a versão medieval do entretenimento dos monarcas, mas sua função social ia muito além dessa tarefa.

Não se sabe bem ao certo porque passaram a História como bobos, porque de bobos não têm nada. Sempre traficavam informações, plantavam discórdia, suscitavam traições, e alimentavam a rede de intrigas que favoreciam uns, e jogavam outros em desgraça.

Os bobos da corte são, por assim dizer, o início da sociedade do espetáculo, da mídia, da imprensa enfim.

Pois bem, nesse reino rico e distante, havia não só um bobo, mas uma família deles, que se especializou em chantagear seus desafetos com notícias ruins, e acariciar o poder com bajulações de toda sorte. Havia o bobo pai, já cansado e que nada apitava nos negócios da família, conduzido pela boba mãe, que com mão de ferro controlava o clã de bobos, sendo certo que o pequeno império contava com dois bobos filhos, herdeiros, que nada fizeram ou faziam na vida senão esperar a hora de sepultar os ascendentes e colocarem a mão na grana.

Por um bom preço, a família dos bobos da corte faria qualquer negócio, publicaria qualquer notícia, jantaria com qualquer inimigo, ou seria jantado por ele.

Nesse reino havia um jornal centenário, que também contava com o dinheiro da corte para publicar as notas oficiais das majestades, editado por outra categoria de bobos da corte: Uns ingênuos a imaginar que poderiam usar dinheiro da corte e serem bobos de qualquer corte, e outros porque acreditavam que tradição deveria valer como motivo de preservação.

Em uma época que as vacas começaram a emagrecer para empresas de bobos e de mídia, foi preciso lançar um feroz ataque ao jornal centenário dos outros bobos.

No jornal centenário, havia um amigo considerado da família dos bobos.

Aliás, havia vários "amigos". Ainda assim, a família implacável dos bobos lançou uma campanha sórdida na corte, e dizem algumas línguas (as línguas pestilentas e fofoqueiras, não as eruditas e cultas) que foram as mãos da família de bobos que puxou a alavanca do alçapão que enforcou a todos nesse jornal centenário.

E se é verdade que essa sentença de morte só antecipou um destino que já era esperado, fica a impressão que tudo foi urdido porque aquele jornal ainda representava um perigo, pois se colocava em paradoxal meio termo entre as facções de poder local, embora também mamasse nas tetas da viúva, como todos seus pares.

Moral da história: seja bobo autruísta, mas não seja um autruísta bobo.

Nenhum comentário: