domingo, 1 de janeiro de 2012

A casa rosa dos alienistas.

A Casa Verde, ideia brilhante do médico Simão Bacamarte é um clássico da ironia fina machadiana, leitura obrigatória para engrossar nosso caldo de cultura, nossa percepção de nós mesmos, dos nossos "maneirismos".

Elejo esse livro conto, mas de linguagem ágil da crônica de costume a categoria de obra-prima, ao menos para minha pouca experiência literária.

Ali o dilema fácil que persegue toda Humanidade: Classificar o outro, legitimar a normalidade para divisar a fronteira da loucura.

Afinal, de perto ou de longe, quem é normal?

Eu lembrei do alienista quando li agora à pouco o Bilhete à prefeita, texto escrito pela jornalista Jane Nunes em seu blog.

Eu não tenho dúvidas que Simão Bacamarte já teria segregado em sua Casa Verde, talvez aqui uma Casa Rosa, boa parte ou a totalidade desse governo.

Como explicar, pela lógica, pela razão, ainda que estas estejam alimentadas pelos mais mesquinhos propósitos e táticas políticas de sufocar e isolar adversários antigos, que uma Instituição Psiquiátrica seja relegada aos esmolamento de um simples veículo para atender seus pacientes, a maioria sem condições financeiras para ser cuidada nas caras clínicas ao redor do país?

É verdade que o abandono dos pacientes psiquiátricos não é exclusividade nossa, mas aqui, soterrados em bilhões de orçamento, chega a parecer( é é, de fato)loucura.

Não é novidade no Brasil, e em alguns lugares ao redor do mundo, a estigmatização e brutalização dos pacientes psiquiátricos, embora muita coisa tenha avançado.

O trabalho dos profissionais dedicados a essa tarefa de cuidar dessas pessoas, e por conseqüência, dos familiares que, não raro, "adoecem" ou padecem juntos, deixaria Hércules envergonhado.

Eles atuam nesse campo onde os limites são turvos, o cérebro humano.

Exercem seu trabalho sitiados pelo fardo de reivindicar aos pacientes que esses recebam um tratamento, como direito, e não uma sentença de morte social, como acontece.

A falta de uma ambulância em uma cidade que acaba de gastar mais de 20 milhões para enfeitar um rio de cocô, e que aluga tais veículos por um preço que daria para renovar uma frota maior e todo ano, revela que não há muita sanidade do lado de fora dos muros do João Vianna.

Machado de Assis ficaria assustado com o tom profético de sua ficção, que por aqui, assumiu contornos de realidade fantástica.



Ilustração e adaptação em quadrinhos do livro O Alienista, por Luis Antonio Aguiar.

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